<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503</id><updated>2011-08-05T12:24:25.598-07:00</updated><category term='literatura'/><category term='malditos'/><category term='maltidos'/><category term='anderson pires da silva'/><title type='text'>signo de plutão</title><subtitle type='html'>RESUMO: Este não é o lugar do realismo do séc. XX, este é o mundo de Malditos!</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>26</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-3920297344892312517</id><published>2010-09-06T13:17:00.000-07:00</published><updated>2010-09-06T13:41:34.749-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XXIV</title><content type='html'>&lt;em&gt;Sob o signo de plutão&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando arrumava seus trajes na mala, quando subitamente sentiu aquela estranha sensação de fuga, um canto de sereias distantes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Orlando... Orlando... Orlando... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Muito distante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: ... Perguntou alguma coisa? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela se aproximou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Estava absorto... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fechou a mala.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Onde está a menina?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No quarto. Seus risos atravessam os cômodos junto com o vento na floresta lá fora. Sua ama, de joelhos, tenta ajeitar o vestido branco no corpo da sapeca: “Fique quieta! Assim não será um anjo”. A menina não agüenta, nem mesmo os beliscões a fazem parar de rir, até que, refletido no espelho...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Já está pronta?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Quase, senhor! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A velha severa para a criança. “Viu! Agora, se comporte.” Enquanto a vestia, tentava responder às inúmeras perguntas de sua pequena criada.&lt;br /&gt;“Pra onde vamos?”&lt;br /&gt;“Um lugar muito bonito, lá tem um jardim grande para brincar o dia inteiro”.&lt;br /&gt;“E tem outras crianças?”&lt;br /&gt;“Muitas!”&lt;br /&gt;“E elas são anjos também?”&lt;br /&gt;“Todas.”&lt;br /&gt;“E demora muito pra chegar lá?”&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Se não me deixar terminar, demora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando fechava o bagageiro do carro, quando a menina e a governanta sentaram no banco de trás. Ao vê-las, Eva guardou o maço de cigarros, pensando: “Finalmente, vamos acabar logo com isso!”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando entrou no carro, deu a partida. Setenta quilômetros até o local da cerimônia, uma estrada tortuosa até o sítio onde se realizaria a cerimônia. Ao entrar na avenida de acesso à saída da cidade, pensou em Diana. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Longe dali, Elias acordava de um sono sem sonhos. Olhou sem entender para o curativo na mão. Ana dormia ao seu lado. O raciocínio lento e confuso, resultado da combinação de álcool e morfina, aplicada pelo mordomo para operar a mão ferida. Procurou um relógio. Daqui a poucas horas. O tempo da hesitação já passou. Levantou da cama para tomar um banho. Ana o segurou pelo braço: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Descanse... Nada mais depende de você.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, Orlando guiava com o pé leve no acelerador. A menina eufórica falando sem parar no banco de trás. Nem mesmo a governanta conseguia domá-la.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por favor, cale a boca! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento, o marido analisou a atitude da mulher. Sua mente mergulhou nos livros lidos durante sua iniciação, textos reveladores sobre a origem da Ordem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em 1909, na Inglaterra, sir. August C. Shelley, avô de Eva, entrou em desavença com o mago Aleister Crowley, líder da Ordem Estrela de Prata, a qual toda a família seguia. O motivo do rompimento foi classificado como uma “picuinha aristocrática”. Sir. Shelley acreditava que a crescente fama de Crowley, principalmente entre poetas mundanos, expunha a Estrela de Prata, situação inapropriada para uma ordem secreta. Desse modo, em 1911, a família Shelley mudou-se para o novo mundo, mais precisamente, para o Brasil. As más línguas disseram que fugiram com medo da ira de Crowley. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A família Shelley investia no ramo da nascente indústria metalúrgica e resolveu se expandir para os países americanos em processo de industrialização, com potencial para exploração de riquezas naturais. Não foi muito fácil convencer seus irmãos; para tanto, aliou à exposição precisa de dados geográficos, frases de efeito como: “O Brasil é o paraíso a ser explorado”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em seis anos em São Paulo, sir. Shelley assinou um contrato comercial com o governo federal, garantindo a exclusividade no fornecimento de ligas de aço para expansão da malha ferroviária. O êxito convenceu outra família dissidente da Ordem Estrela de Prata, os Soulthey, ligada aos Shelley por laços matrimoniais, a rumar para o país. O patriarca dos Soulthey era um mestre nos conhecimentos místicos. Segundo as más línguas, nutria profunda inveja de Crowley. Seja como for, nos primeiros anos residindo no Brasil, após explorar o mapa nacional, percebeu no sincretismo religioso um terreno fértil para plantar a semente de uma nova sociedade secreta: a Ordem. A partir daí, em pouco tempo, conquistou uma família portuguesa, cujos parentes haviam morrido na miséria em nome da Ordem de Cristo, os Oliveira Almeida, antepassados do Senador.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Permita que me apresente: eu sou uma besta” – dizia o garoto de dezoito anos, o futuro Senador, sete dias após sua consagração. Aliás, essa euforia demorou uns dois anos para passar. Até aquele momento, nunca havia sentido tamanha força. E agora, aos sessenta anos, se ajeitando diante do espelho, sente aquela mesma euforia de garoto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Muito se discutiu sobre manter a tradição da cerimônia, ou aboli-la já que viviam em um novo mundo... (E afinal de contas, o negócio era outro). Pesou a mão forte do sacerdote. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A origem do ritual remonta a 1666. A primeira cerimônia aconteceu como uma provocação ao Velho Testamento. Se Abraão sacrificou o filho em nome de Deus, os seguidores do Diabo também deveriam sacrificar os seus, e mais, todos beberiam o sangue de seus filhos. O sacrifício servia para honrar a devoção ao Bode. Mas o ser humano nunca está satisfeito em seu negócio com as divindades. O preço é sempre muito alto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao migrarem para o novo mundo, os fundadores da Ordem manteriam a cerimônia de consagração, mas ninguém pretendia sacrificar um filho, ainda mais em terras novas como um imenso chão para expansão de suas riquezas. Discutiram sobre o sentido da morte do inocente. O ato demonstrava a ausência de amor, o preceito básico de Cristo. O amor estava simbolizado no cordeiro. Porém, isso não significava sacrificar os próprios cordeiros. Assim, refizeram o contrato com suas divindades. No novo continente, os devotos adotariam crianças para oferecê-las, de sete em sete anos, ao Bode. Para demonstrarem a ausência de afeto, as adotariam aos seis meses de idade, conviveriam com elas até os sete anos, quando as sacrificariam na missa negra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O fator decisivo para permanência da cerimônia foi o seu caráter orgiástico. Ninguém sabe afirmar ao certo o início da associação sangue e sexo. Alguns relatos remontam ao antigo Egito, outros a Europa Oriental. Para os satanistas, a liberação das energias sexuais os sintonizava com as forças sobrenaturais. Logo, foram buscar o afrodisíaco mais potente - e desde os antigos egípcios, todo mundo sabe, é o sangue.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Consta-se que apenas um casal se arrependeu de cumprir o sacrifício e traiu os seguidores do Bode. O casal teve uma vida longa, muitos filhos, e cada um deles nasceu morto ou deformado. Além disso, a miséria os perseguiu até o último suspiro. Ninguém sabe ao certo se isso aconteceu ou se é apenas uma lenda para manter os fiéis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Ah, finalmente chegamos... Você está preparado?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na entrada do sítio, Esfinge, o porteiro, abriu as portas. Era uma fria noite de agosto. Ao fundo, os latidos dos dobermanns. Assim que saíram do carro, foram conduzidos para dentro do casarão. Seguiram por um longo corredor iluminado por velas vermelhas. Ao chegarem a uma bifurcação, Orlando foi levado para um cômodo à direita; Eva para outro à esquerda. A menina foi levada a outro cômodo. Embora tenha evitado encará-la durante toda a viagem, nesse momento final, Eva olhou para a inocente e pode sentir o medo nos olhos dela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando voltou a vê-la, a menina estava no altar no centro do salão principal, deitada sobre uma mesa de madeira, amarrada pelas mãos e os pés. Eva estava ao seu lado, mas desviou o olhar para o lado, onde estava o sumo-sacerdote, o Maestro; ao lado dele, o Astrólogo. Abaixo do altar, estava Orlando, vestindo a túnica vermelha cerimonial. Atrás dele, formando um círculo, todos os membros da Ordem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aos primeiros sons da voz grave do Maestro, a menina começou a gritar. Um grito agudo, alto e dilacerado. O sacerdote seguia com o ritual, a mão direita segurava punhal. Os seguidores entoavam o cântico sinistro. Orlando imóvel com a cabeça abaixada, a túnica cobrindo seus olhos. A menina gritava e se debatia. Uma crescente angústia possuía o coração de Eva. Seus sentidos pareciam se despedaçar entre os ritos do Maestro e a dor na voz da menina. Por fim, vencida pelo arrependimento, ela olhou para os olhos desesperados da inocente. Nesse instante, viu um clarão, seguindo de um estrondoso barulho. Fechou os olhos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O punhal que o Maestro segurava ainda girava no chão, quando Eva olhou para baixo e viu seu corpo caído, com o sangue escorrendo através de um buraco no meio da testa. À sua volta, todos espantados e imóveis. Então, entre os seguidores, próximo ao altar, viu um braço apontando uma arma e, com a outra mão, o autor do disparo retirando o capuz da túnica. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Tira ela daí... Vamos embora, agora!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Instintivamente, todos os seguidores deram um passo para trás, menos Orlando, parado sobre o círculo desenhado aos seus pés. Levantou a cabeça, afastou o capuz dos olhos e viu sua esposa agarrado a menina assustada pelos braços. Elias se movimentava mantendo todos sob a mira da pistola. Como poderia ter passado por Esfinge e seus cães, depois do veto a sua presença? Quem poderia ter permitido a sua entrada? Seu sogro levantou o capuz e encarou o genro e o sobrinho. Eva e a menina se escondiam atrás de Elias: “Vamos embora. Segue em frente”. Do lado de fora do salão, Ana os esperava dentro do carro, o motor ligado, os cães mordendo os pneus. Com todos sob sua mira, Elias foi se afastando até empurrá-las para interior do automóvel e atravessar o portão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No salão, Orlando permanecia imóvel diante do altar. O astrólogo apoiava, entre seus joelhos, a cabeça baleada do Maestro. Os cães uivavam. Ao redor ouvia o burburinho dos seguidores atônitos. Então, entre eles, ouviu esta voz:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Vamos recomeçar... E celebrar um matrimônio... E a promessa de bebermos um sangue puro... Nascido da união... Como exige a tradição.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Astrólogo&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diana caminhou até Orlando, o tomou pelo braço, como uma noiva. “O que ela está fazendo aqui? Como poderia conhecer alguns fundamentos básicos da Ordem?”. Orlando olhou para seu sogro. Este também surpreso. Nem imaginou que, em seus encontros furtivos, seus delírios de prazer, sua sensação de poder ao foder a amante do genro, revelou o dia da cerimônia. Diana seguiu. Como Esfinge a deixou a entrar? Ora, ela cobrou velhos favores.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O astrólogo, ao vê-la, agiu como se estivesse diante de uma revelação:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Astrólogo&lt;/strong&gt;: É isso... O Maestro estava certo, uma nova harmonia surgirá do improviso... As estrelas não estavam alinhadas para um sacrifício... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ignorando as palavras do Astrólogo, Orlando segurou forte o braço de Diana, sentia uma forte vontade de espancá-la. Mulher teimosa e idiota. Então, para sua surpresa e confusão, ela disse:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Nós temos um filho... Legítimo!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em um instante sua memória voltou meses atrás (cap. X), até o momento que a reencontrou no jardim de sua casa, quando havia... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Aquele bebê... Você disse que era filho da empregada...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Também disse que muitas coisas aconteciam na vida de uma mulher em nove meses... É nosso filho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os seguidores ouviam em suspenso. Os cães emudeceram. O astrólogo os uniu pelo braço...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Astrólogo&lt;/strong&gt;: As estrelas estão alinhadas para um matrimônio... Um novo começo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ajoelhou-se, com o dedo indicador tocou no sangue ainda quente do morto, depois se levantou e caminhou até Diana, e com o sangue desenhou na fronte da noiva o sinal invertido da cruz. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando o astrólogo se preparava para marcar sua testa, Orlando o segurou pela mão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não preciso mais disso!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Olhou para a expressão abestalhada de Diana, borrou a marca em sua testa e disse: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Sai daqui agora!... Eu vou para o deserto, refletir sobre tudo isso. Quando voltar, quero te encontrar em casa... Vá agora!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Astrólogo&lt;/strong&gt;: Não poderão partir... Uma vez dentro do círculo, já pertencem ao círculo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todos os membros da Ordem se fecharam ao redor deles. A porta por onde Elias levara Eva e a menina ainda estava escancarada. Orlando saltou rápido para o altar, pegou o punhal no chão, segurou Diana pelos braços, e tomado por uma poderosa vontade, olhar inflamado, desafiou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Todos vocês são covardes e fracos. O bode irá mijar sobre o sangue que irei derramar!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: &lt;span style="font-size:78%;"&gt;Está louco!?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Do alto do altar, o Astrólogo encarou os seguidores, esperando o avanço sobre o insolente, mas os fiéis esperavam o mesmo dele, por isso se lançou sobre o pescoço de Orlando, que o jogou ao chão e, em um segundo, furou sua costela esquerda. Como um animal selvagem, voltou-se contra os outros, o sangue escorrendo pelo punhal. Assustados, abriram o círculo. Nesse instante, o Senador puxou Alexander C. Shelley para os fundos, já na tentativa de fugir. Os outros membros confiaram na fúria dos dobermanns, que esperavam o casal do lado de fora de salão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Meu Deus! Nós não conseguiremos fugir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O carro de Diana estava escondido do lado de fora da porteira. Porém, para chegar até lá precisaria atravessar a matilha de cães latindo furiosamente diante deles. Os animais obedeciam a Esfinge, obediente ao comando de qualquer membro da Ordem. E os velhos favores já haviam sido pagos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Membros&lt;/strong&gt;: Os cães!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Então, o fato inexplicável aconteceu. Segurando a mulher pelo braço, Orlando atravessou a matilha, sem nenhum cão os atacar, pelo contrário, se dispersaram ao redor do casarão, babando e rugindo, esperando atacar quem ousasse sair. O mestre perdera o comando. Quando Orlando passou por Esfinge, o encarou na expectativa de que, sendo o último, tentasse impedi-lo. Sem reagir, mas sem se intimidar, o porteiro lhe disse: “Você está possuído pelo Bode. Agora, todos os caminhos estão abertos”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diana abriu a porta do carro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diana: Venha comigo... Está acabado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando olhou para o lado esquerdo da estrada. Ao longe, viu brilhando luzes vermelhas, azuis e brancas. “Que ironia”. Pensou na esposa. Nem ele nem ela foram o lorde e lady Macbeth, mas a vida ainda é um conto cheio de som e fúria sem nenhum significado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: A polícia está chegando... Vá agora!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: E nós...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Já lhe disse! Vou para o deserto... Quando voltar...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Por que...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Porra, você é muito teimosa! Olhe lá... Vê aquelas luzes, a polícia... Daqui a vinte minutos estarão aqui... E eu não vou com você.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltou o olhar para o casarão. Os membros da Ordem se encontravam acossados pelos cães. Percebendo a situação, Esfinge entrou em pânico. Diana gritou para ele: “Vem comigo!”. Ela acelerou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando se embrenhou no meio da mata. Pretendia seguir a pé através dos morros ligando uma região a outra. Ainda na parte plana, tirou a túnica, as roupas de baixo, até ficar nu. Uma fria noite de agosto. Lua cheia. Um intenso calor dominava seu corpo. Uma poderosa certeza guiava seus passos. Finalmente livre. Os idiotas da Ordem ignoram esse poder, para se contentar com o orgulho do dinheiro e o prazer da carne. Em troca, as divindades exigem a única parte que lhes cabe nesse latifúndio: a devoção. "É muito pouco!"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao alcançar o alto do morro, olhou para trás: inúmeras viaturas cercavam a fazenda. Os cães alucinados corriam pela estrada. Seguiu em frente. Caminhava em direção ao deserto, para construir um templo provisório de solidão e silêncio, porque agora tudo é possível. Mas antes, precisaria de novas roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fim &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-3920297344892312517?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/3920297344892312517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/09/malditos-cap-xxiv.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3920297344892312517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3920297344892312517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/09/malditos-cap-xxiv.html' title='Malditos - Cap. XXIV'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-4979222666074010105</id><published>2010-07-15T19:57:00.000-07:00</published><updated>2010-07-15T20:37:24.190-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XXIII</title><content type='html'>&lt;em&gt;Alguma coisa está fora da ordem&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os últimos dias foram tensos.&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando se aprofundou nos fundamentos sobre a Ordem, em especial os estatutos. Em determinado momento, precisou de um professor de aramaico. Para seu espanto, o mestre indicado fora seu antigo professor de direito romano. Somente uma vez interrompeu seus estudos, quando a médica-chefe do Asilo Michel Foucault ligou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Médica&lt;/strong&gt;: Sua mãe quer falar com você. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desligou o telefone. Eva estava ao seu lado, no sofá, muito curiosa sobre a breve conversa telefônica. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: O que aconteceu? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nada respondeu. Andou alguns passos perdidos pela sala, até iniciar titubeante a seguinte confissão:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Seguindo os princípios da Ordem, não deve haver segredos entre nós.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Assim exige os mandamentos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pela Ordem, nenhum casal deve se consagrar sem antes se confessar um para o outro. Nenhum casal receberá a dádiva sem verdade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após o bang-bang sem mortos na casa do primo, Eva se revelou. Ela imaginou uma reação violenta do marido, afinal, não poderia lhe dar filhos. Ele apenas disse: “Isso não importa mais”. Por que não? Tinha outra mulher, Diana, que poderia lhe dar tudo, menos o que mais queria. Eva sabia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de sua mãe, avó e bisavó, mulheres submissas, ela havia escolhido o homem com quem se consagraria. Foi por isso que a esterilizaram? Tantas questões. E ele ainda não disse nada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu menti para você... Minha mãe está viva... E não bate muito bem das idéias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva engasgou. O que isso significava? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: O meu pai já sabe? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pensava: "em o que mais os dois são cúmplices, afinal, já dividem a filha e a amante". &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Você me disse que seus pais estavam mortos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Para alguém como Orlando ser admitido na Ordem, precisa ser filho único e órfão de pai e mãe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Desde que nos conhecemos, há mais de nove anos, disse que seu pai e sua mãe estavam mortos! Eu lutei para que a minha família te aceitasse... Sabe por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Para não criar vínculos familiares fora da Ordem...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Você tem algum irmão? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estava transtornada. Seu primo tinha toda a razão. Orlando era um mentiroso. Ela, uma tola. “Uma Lady Macbeth falida!”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Você passou os últimos meses estudando os fundamentos da Ordem....&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Por que ficou tão nervosa?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por quê? Porra, até ontem, seus pais estavam mortos!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Minha mãe estava desaparecida há vinte anos. Em termos legais, tanto poderia estar viva quanto morta. Eu contratei um detetive para encontrá-la... Em um hospício. Pedro Cigano está tratando dela agora...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Aquele bruxo!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Ocultista.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: E meu pai sabe?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orland&lt;/strong&gt;o: Nos já conversamos. Encaminhei um ofício para os membros decanos examinarem, está tudo nas mãos deles, têm dois dias para decidir se aceitam um estrangeiro como eu. Agora, preciso ver a minha mãe.&lt;br /&gt;Ainda tonta com a revelação, Eva se levantou e segurou o braço do marido.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por favor, não vá! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele se libertou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu tenho que ir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Acelerou para o manicômio. Ao chegar lá, foi recebido na porta por Pedro Cigano: “Ela lembrou o seu nome”. Rapidamente foi conduzido até a presença da mãe. Sentou-se ao seu lado e a pegou pelas mãos. Ela olhou para ele e disse: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mãe&lt;/strong&gt;: Orlando, meu filho... Você conhece?... Orlando, meu filho.... Você conhece? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele a abraçou e sussurrou: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Sim, eu o conheço... Posso garantir, o conheço melhor do que a senhora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois correu suas mãos pelos seus cabelos até o pescoço. Nesse momento, um pensamento mórbido passou pela sua cabeça. Poderia estrangulá-la. Não haveria mais nenhum impedimento para a realização da cerimônia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Minha mãe... Eu poderia te estrangular... Mas não sou assim, um personagem tão vulgar... Sou seu filho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após se despedir, conversou a sós com Pedro Cigano.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Posso considerar isso um quadro de evolução?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: A evolução é lenta... Agora, nós podemos conversar sobre o impasse envolvendo a cerimônia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No caminho de volta, no banco do carona, Pedro Cigano debateu a questão sob diversos ângulos. Para ele, os altos membros aceitarão o pedido de admissão, mesmo sob o não cumprimento total de um dos artigos da doutrina. Enfim, agiriam assim de qualquer forma, pois a própria origem de Orlando  já é uma subtração à Ordem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: Você significa transformação, meu caro... Toda a renovação vem de fora... E não há mudança sem superação de velhos preceitos. A ordem sempre nasceu do caos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando pensou consigo: “A ordem é uma bagunça.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, Orlando perdeu a reunião que os altos membros decidiram o seu destino. A principal testemunha a seu favor foi a primeira a depor – o próprio Pedro Cigano. Dissera que a mãe de Orlando vivia em estado catatônico, ou seja, “era uma morta em vida”. Imediatamente o Senador decretou o veredicto: “Morta em vida, morta no além, dá no mesmo... A lei precisa ser mais flexível... O rapaz foi honesto... Que a cerimônia se realize”. O Senador soltou o grito e todos o seguiram, mas sem a mesma alegria infantil, porque acima de todos, ele simplesmente adora a festa de consagração... que só acontece de sete em sete anos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Somente um não comemorou entusiasticamente, Alexander C. Shelley, o sogro de Orlando. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Há outra questão que precisamos votar. Orlando apelou para o direito de excluir um antigo membro da cerimônia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todos gelaram. Silêncio tumular. Por que ele não havia dito isso antes de votarem? Muitos pensaram: “Calculista”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Quem?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: O meu sobrinho, Elias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todos respiraram aliviados, a excitação voltara como um tsunami. Trocaram rápidas palavras entre si: “Não é tão importante”. “Não esteve presente na última cerimônia”. “È depressivo”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Shelley preocupado coçava a testa. Ninguém mencionou a relação de Elias com a sobrinha do inspetor. Mas, no fundo do peito, sentia a exclusão de um membro de sua família, mesmo que fosse substituído por outro, era o seu sobrinho, sangue do seu sangue. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos dias, Elias se fechou paranóico em casa. Ele vasculhou cada centímetro em busca de outras escutas. A princípio, o empregado quis ajudar, mas tão logo percebeu a gravidade  do estado mental do patrão, tentou dissuadi-lo, sugerindo uma viagem. A negativa do patrão foi ameaçadora. Então, resignou-se a vê-lo desmontar os móveis e os aparelhos elétricos, a quebrar as paredes. A casa inteira estava destruída, era impossível anda sem pisar em um pedaço de reboco, lascas de madeiras, ou tropeçar em fios. A situação no banheiro social era particularmente precária, dois canos furados jorravam água até a cozinha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto consertava o vazamento, o mordomo  lamentava quieto o estado desolado do patrão: sentado na varada, um copo de uísque na mão e uma arma na outra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há duas horas se encontrava nessa posição. Desde que recebera uma correspondência, um envelope branco com o lacre da Ordem. Enquanto limpava a casa, vez por outra, o mordomo dava uma olhadinha no patrão. Elias lia e relia o documento, um simples ofício de uma página. Finalmente, levantou. O mordomo pode ouvi-lo: “Agora basta!”. Ele entrou no seu quarto, levando a garrafa, a carta e arma, trancou-se. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Duas vezes bateu na porta, perguntando se precisava de alguma coisa. Não ouviu resposta. Após três horas, o empregado pegou o telefone e ligou para a jovem Ana. Ela foi imediatamente para lá. Assim que o mordomo lhe abriu a porta, tomou um susto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Parece que um furacão passou por aqui. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O mordomo mal pode explicar toda a situação quando ouviram um som vindo do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                    &lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;BANG!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Naaãooo!!! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em pânico, o mordomo arrombou a porta e encontrou seu patrão deitado no chão. Sua mão esquerda sangrava, havia um buraco à bala no meio dela. Ao vê-los, Elias lançou um olhar insano e perdido. Com a voz trêmula, dizia: “que a cerimônia se realize”. E riu histericamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(a seguir: &lt;em&gt;this is the  end, my only friend, the end&lt;/em&gt;) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-4979222666074010105?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/4979222666074010105/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/07/malditos-cap-xxiii.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/4979222666074010105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/4979222666074010105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/07/malditos-cap-xxiii.html' title='Malditos - Cap. XXIII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-8495661731918822221</id><published>2010-06-19T07:40:00.000-07:00</published><updated>2010-06-19T16:40:48.894-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos - Cap. XXII</title><content type='html'>&lt;em&gt;Gérard de Nerval&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longe, a música: tambores rufando, mãos ancestrais, o movimento dos astros, o vento atravessando as areias. Algum poeta jurou ouvir o bater de asas, anjos ou demônios, mas estava delirando, pois este não é o reino do deleite, este é o reino da Ordem. E aqui, o que é selado... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Não pode ser negado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pactos não podem ser quebrados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O pacto é um contrato... Nada mais do que isso. È um contrato social, de ordem comercial. Por exemplo: um fazendeiro roga à divindade, pedindo a multiplicação dos seus gados, para isso oferece em sacrifício um boi da sua minguada criação, e o que recebe em troca? Uma boiada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por favor, não me venha com suas novas idéias marxistas!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Você não percebe? Nós negociamos com as divindades, digamos, nós dançamos para elas, mas no final das contas, não as usamos para atingir nossos objetivos humanos. Um boi para uma boiada. Isso não é Marx.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Eu sei!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Livre arbítrio, minha prima.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Já se perguntou por que tem o nome de um profeta?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Será que suas idéias avançadas o deixaram surdo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Não! Nunca me perguntei. Isso nunca foi uma questão para mim.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Logo você, tão esclarecido, ignora a primeira lei de Sócrates. Se nunca se questionou sobre a origem do seu nome, também nunca questionou sobre quem é você, logo jamais há de aceitar sua vida como é. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva se escondeu na casa do primo. Chegara aflita e desesperada. Elias a abraçou com o carinho de um irmão protetor. À noite, os dois conversaram longamente, passaram a vida a limpo, se perguntaram assustados: será que estavam pagando alto demais por velhos contratos? A vida cobrando mais do que o devido?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como ela o havia procurado antes do pai e, principalmente, do marido, Elias acordou confiante e disposto a trazê-la definitivamente para o seu lado. Antes dela acordar, ele já a esperava com o café da manhã pronto sobre a mesa. Iria convencê-la a desistir da Cerimônia de consagração. E usaria todas as artimanhas para isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Nossa conversa ontem à noite, nossas lágrimas, valeram para alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Estava nervosa... Foi um desabafo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Você não irá conseguir. Está cheia de culpa. Nós dois estamos cheios de culpa. Foi para isso todo o nosso sacrifício, para vivermos com culpa?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Não me tome pelos seus atos. Você se afastou demais dos valores da nossa família. Está perdido. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Elias levantou, foi até o bar, uísque sem gelo, voltou batendo o copo sobre a mesa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Eu não quero para você o que eu tenho. Uma vida de sofrimento. E ontem você sentiu uma pontinha do espeto, e me procurou chorando, com medo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes que Eva respondesse, uma voz familiar surgiu do fundo da cozinha: “Você deveria ler mais a Bíblia, Elias”. Ao reconhecê-la, o anfitrião engoliu o uísque, e rosnando: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O que veio fazer aqui?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vim buscar a minha mulher. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando atravessou a cozinha, levantou Eva da cadeira, e cochichou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: &lt;span style="font-size:78%;"&gt;Vamos embora, chega dessa palhaçada.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva olhou para o marido com um misto de prazer e temor. Elias percebeu, por isso, quando ela lhe dirigiu o olhar:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Prima, por favor, fique aqui... Não se submeta... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando mal conseguiu ouvir: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você é um fraco! Um traidor!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva o empurrou: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Não diga isso! Você não tem... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A raiva o cegou. Nem ouvia o que Eva dizia, em sua mente só havia uma coisa: a lembrança de dois meses atrás, em sua casa, quando ela dissera: “Você tem inveja do meu primo”. Isso era demais! Julgá-lo tão mesquinho e inferior.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Seu primo traiu a sua família. Tem um carro da polícia parado vinte e quatro horas debaixo da sua cobertura...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Você é um mentiroso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ambos se olharam com raiva. Foi um longo instante de tensão. Eva tremia, mas ao mesmo tempo - por favor, me explique -, sentia um frio de excitação correndo pela espinha. Os dois pareciam velhos pistoleiros do oeste: olhares silenciosos, músculos tensos, a cabeça confusa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Tenho certeza que tem uma escuta aqui! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E Orlando começou a quebrar coisas, arrancar gavetas, virar mesas. Eva gritava. Nervoso, Elias correu até a escrivaninha na sala contígua, abriu a gaveta e pegou a beretta. Conferiu o pente cheio. Voltou à cozinha, encontrou Orlando prestes a quebrar mais um vaso valioso. Mirou na testa. O vaso estalou no chão. Elias desviou os olhos da mira para os cacos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Está vendo? Sabe o que é esse brinquedinho aqui na minha mão? Uma escuta. Você já deve ter cantado todo o seu repertório. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma corrente elétrica correu pela espinha de Elias até estraçalhar sua mente. A vontade de estourar a cabeça do filho-da-puta não era suficiente para animar seus músculos paralisados. Ele precisou segurar o minúsculo microfone para acreditar. Girou várias vezes a peça entre os dedos. A cada volta imaginava quem poderia tê-lo instalado. Mas ter sido iludido por alguém de confiança ainda doía menos. Batia fundo em seu peito o fato de Orlando revelá-lo, aos olhos de sua prima, como um idiota. Ele não ouviu o assistente do inspetor, do outro lado da rua: “Putz, fudeu!”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Há bastante tempo, seu pai tem sendo investigado pela polícia federal...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Política.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Meu primo não é um traidor! Eu vi a expressão dele. Não sabia dessa escuta. Mas você sabia... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Apertou forte o braço da esposa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Seu primo está namorando a sobrinha do Inspetor-chefe encarregado pela investigação. Ele te disse?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;:&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Não&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Ele mudou de lado. Vocês conversaram a noite inteira, ainda resta dúvida? Ou os afetos familiares atrapalham sua percepção? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva lançou o olhar, sobre os ombros do marido, até seu primo. Ele a encarou com lágrimas secas no rosto, ombros caídos, uma arma inerte na mão. Ainda tentou suplicar: &lt;span style="font-size:78%;"&gt;“fique!”&lt;/span&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Vamos embora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela se adiantou até a saída. Orlando, ao passar por Elias, soprou suas palavras finais:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Aproveite a arma e ponha um fim ao seu sofrimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(a seguir: &lt;em&gt;a cerimônia começa&lt;/em&gt;) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-8495661731918822221?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/8495661731918822221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/06/malditos-cap-xxii.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/8495661731918822221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/8495661731918822221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/06/malditos-cap-xxii.html' title='malditos - Cap. XXII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-578515337783272456</id><published>2010-05-30T18:31:00.000-07:00</published><updated>2010-05-30T18:46:24.695-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XXI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Pele de Asno às avessas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois aturar as explicações do ginecologista, seus termos técnicos e o olhar comiserador, Eva exigiu uma resposta definitiva. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O médico fechou a pasta. Entre o agendamento e a consulta, ela demorou nove meses para aparecer no consultório. Já não sabia se estava diante de uma neurótica compulsiva ou de uma maníaca depressiva. Quem o indicou? Provavelmente algum inimigo oculto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dr. Gianne&lt;/strong&gt;: A maternidade não se resume ao parto...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Só me responda sim ou não: tenho condições de engravidar?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dr. Gianne&lt;/strong&gt;: A maternidade é um estado de espírito, independe das condições fisiológicas...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva o interrompeu com um soco sobre a mesa. “Sim ou não”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dr. Gianne&lt;/strong&gt;: Por favor, se acalme... Seus ovários...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dr. Gianne&lt;/strong&gt;: Você já fez uma operação de aborto?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dr. Gianne&lt;/strong&gt;: Por favor, calma! Vou ser franco, já fiz abortos, por vários motivos, até o primeiro mês de gestação, os riscos para a mulher são mínimos...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dr. Gianne&lt;/strong&gt;: Depois do sétimo mês... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela não queria ouvir mais nada. Saiu da sala às cegas, derrubando a secretária que tentou contê-la.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Por quê?”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Andava perdida pelas ruas, esbarrando nas pessoas, nos mostruários dos camelôs, falando sozinha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Por quê?”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Queria ouvir uma resposta, nem precisava acreditar no interlocutor, por isso parou diante da Igreja de N. S. de Fátima. As portas fechadas. Ela contornou até a entrada dos fundos. Ouviu as vozes de dois homens discutindo: o padre e o seminarista. A discussão começou por causa da posição dos castiçais sobre a mesa na cerimônia da noite, um queria à esquerda, outro à direita. O bate boca já avançava para o campo pessoal quando, surpresos, se calaram diante da estranha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Precisa de alguma ajuda?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Quero me confessar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O padre e o pupilo se entreolharam rapidamente. Seria mais uma viciada em crise? Pelas roupas, o seminarista concluiu que não. Pela aparência desolada, o padre conclui que sim. “Pobre menina rica”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Vamos conversar ali, no jardim... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era jovem, talvez tivessem a mesma idade. Sentaram no banco de madeira, sob a sombra de uma mangueira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Qual seu nome? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Eva”. O sacerdote não conseguiu disfarçar o espanto. Rapidamente voltou ao jeito benevolente. Pegou-a pelas mãos, olhar caridoso, voz piedosa: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Parece angustiada...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: É assim que recebe as visitas inesperadas?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Vejo tristeza em seu olhar... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante, Eva voltou a si, suspirou fundo, pensou em levantar e ir para casa. Por outro lado, não havia melhor lugar para estar. Abriu a bolsa, retirou um maço de cigarros. Há nove meses o maço estava em sua bolsa, só o fumaria se chegasse a essa situação, mas já sabia desde o princípio que chegaria, por isso comprou o Marlboro. Acendeu, soprou, olhou com arrogância para o padre. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Posso lhe contar uma história sobre uma garota?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Quem ela é?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Essa garota sou eu. Essa garota morreu hoje. Foi assassinada. Na verdade, já estava morta. Mas seu fantasma vagava por aí, me aterrorizando. Estou aqui para entregar o corpo àqueles que a mataram...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Não posso ajudá-lo se não entendo o que diz.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Nunca entenderá. Mas vou lhe dar uma chance. A história começa no velório de minha mãe, quando tinha sete anos. Meu pai ficou muito triste. Ele a amava demais! Ficamos sós, mas para mim foram os melhores anos de minha vida. Eu adoro meu pai. Porém, conforme fui crescendo, ele começou a se afastar de mim. Diziam que eu parecia demais com a minha mãe. Ele viajou e me deixou com meus tios. Quis meu pai de volta. Quando voltou, eu tinha dezesseis, e o enfeiticei.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Está me dizendo que...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Sabe o que estou dizendo, ou por acaso o celibato também interferiu no seu raciocínio! Eu quis. Foi uma única vez, a primeira. Minha família não vive sob os seus dogmas. Somos o que chamam de malditos. Hereges. Muitos dos meus antepassados morreram por causa de sua intolerância. Aliás, acho que me batizaram com esse nome apenas por provocação. Mas não! Tenho esse nome para poder viver disfarçada na sociedade brutal que ajudaram a criar. Por isso, quando o fruto nasceu em meu ventre, aceitei beber todas aquelas ervas para expurgá-lo... Eu perdi meus ovários. Agora, entende? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O sacerdote a segurou firme pelo braço, como se estivesse sendo presa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Padre&lt;/strong&gt;: Temos de levar seu pai à justiça... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela se libertou e, furiosa, desferiu um nocaute no rosto do padre. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Hipócrita! Leve os seus pedófilos à justiça! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E cuspiu. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O seminarista correu para contê-la e levou um chute nas bolas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva chegou à rua, parou um táxi, entrou e disse ao taxista &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Vamos até ao bairro Floresta das Serras... E não me pergunte nada até lá!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era o endereço da casa de seu primo, Elias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(a seguir: &lt;em&gt;Seu paraíso, o meu infermo&lt;/em&gt;). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-578515337783272456?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/578515337783272456/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/05/malditos-cap-xxi.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/578515337783272456'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/578515337783272456'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/05/malditos-cap-xxi.html' title='Malditos - Cap. XXI'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-596603466041324765</id><published>2010-04-21T06:05:00.000-07:00</published><updated>2010-04-21T06:30:24.795-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Mais estranho do que o Paraíso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orlando entrou em casa como um ladrão, sem avisar, na surdina, pela porta dos fundos. Há muito tempo algo o inquietava. Porém, a sucessão dos fatos inesperados dos últimos meses havia ocupado todo seu tempo. Agora, afastado dos negócios da Ordem, podia se ocupar desta pequena dúvida, “a desconfiança típica dos maridos”: o que sua mulher faz nas tardes de quinta-feira? O leitor atento talvez não se lembre, mas no início do relato sobre os acontecimentos narrados no segundo capítulo, ele havia ligado para a casa a procura da esposa. Ela não estava. Assim como nas quintas seguintes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Logo de manhã notou que Eva ansiosa, talvez por causa de suas férias inesperadas, por isso inventou um compromisso perto da hora do almoço. “Não almoçarei em casa e só voltarei à noite” – ele disse e quase pôde ouvir a respiração dela aliviada. Planejava flagrá-la se preparando para sair. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Circulou pelos cômodos, nenhum vestígio da mulher, apenas ouvia a voz da governanta, na varanda, contando a história de &lt;em&gt;Chapeuzinho vermelho&lt;/em&gt; para a menina. A velha escolheu a versão de Charles Perrault, mais assustadora. Ao final, a criança lhe perguntou: “Por que o lobo comeu a Chapeuzinho?”. Com uma voz terna respondeu: “Porque essa era a natureza do lobo”. Ao se aproximar delas, se assustaram, a menina correu para os braços da governanta, que olhou intrigada para o patrão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Onde Eva está?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Ela saiu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Essa resposta tão natural foi dita com um sorriso oculto nos lábios. Ela não tinha o menor respeito por ele. “Por qual razão?” – Orlando elucubrava consigo mesmo – “Será por causa de minha origem modesta, aliás, como a dela? Velha idiota. Incrível como os empregados, com o tempo, assumem a mesma arrogância dos seus patrões. Deixe estar, em breve, não precisarei mais aturar a sua presença”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É difícil saber se a governanta captou os pensamentos de Orlando, seja como for, ela tomou a menina pelas mãos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Vem, meu anjinho, vamos brincar na piscina... Você quer? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A menina correu alegre pela grama, o sol brilhava sobre seus cabelos loiros encaracolados, e a olhando assim, sob a luz do dia, ela bem parecia a figura daqueles anjos renascentistas de Rafael.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando pegou o celular e discou para a esposa. Esse número se encontra desligado ou fora da área de cobertura. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Taciturno, voltou ao interior da casa, passou pelo bar montado na sala de estar, sentiu vontade de abrir uma garrafa de uísque, acender um cigarro... Mas não! O seu corpo deve estar limpo até a realização da cerimônia, daqui a poucas semanas. Entrou na biblioteca, retirou da estante o &lt;em&gt;Paginarium fulvarum&lt;/em&gt;, deveria estudar mais sobre os fundamentos da Ordem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando já se encontrava absorto na leitura, seu celular tocou: um número desconhecido no visor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Alô?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era Parafuso. Falava mastigando as palavras. Queria vê-lo urgentemente. Anotou o endereço, uma vila distante. “Que esperto” – pensou – “Ninguém imaginaria que poderia estar escondido ali”. Talvez tenha sido levado pela vontade de conversar com um amigo, ou mera necessidade de sair de casa, pois imediatamente fechou o livro, pegou a chave do carro e partiu.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar ao local indicado, Orlando quase não acreditou no que viu, a ponto de conferir três vezes o endereço escrito no papel. Era uma casa muito humilde, com uma cerca gasta de arame farpado, Parafuso estava levando a sério demais o seu disfarce. Como não havia campainha ou qualquer coisa do tipo, bateu palmas na esperança de um equívoco. A figura que surgiu na porta lhe gelou a alma. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era o velho amigo Leandro e, ao mesmo tempo, não era mais. Estava em uma cadeira de rodas. Com a voz trêmula, perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: O que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Entre...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fazia exatamente três meses desde o acidente. Parafuso não foi muito preciso nos detalhes, contou que havia acordado em um hospital. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Fui salvo por um casal de idosos. Eles vinham na minha contramão, quase bati no carro deles... Pararam, desceram pelo barranco em que capotei e me encontraram inconsciente. Eles poderiam ter pego a bolsa com o dinheiro e me deixado lá... Por que não? Quase os matei. Chamaram o socorro e... A bolsa está aqui, intocada. Essa é a casa deles. Quero ajudar a reformar, não aceitam... Você está surpreso?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu... Eu... Não sei... Sinto muito.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Se não tivesse te envolvido...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Confesso que pensei muito sobre isso... Em alguns momentos, desejei o inferno para você... Mas esse casal tem me ensinado muito sobre a vida. Eles me acolheram. Não aceitam nada além de minha gratidão. “Não é com dinheiro que irá nos recompensar” – me dizem... Mas há aí um pouco de teimosia. Não saio daqui enquanto não aceitarem minha ajuda para melhorar a casa... Tem uma linda horta lá nos fundos, um galinheiro meio caído e um chiqueiro pior ainda... Enfim, eles comem o que plantam, têm ovos, carne... Você fala tanto sobre liberdade, autonomia, não ser empregado de ninguém... Então, será que não têm o que tanto procura? Foi por isso que te chamei. Meus filhos estão aqui, e minha mulher também... Quanto tempo perdido buscando isso? Mas já sei o que está pensando, te conheço, devo ser algo mais ou mais menos assim: “Só há solidariedade na tragédia” ou “todos têm pena de um aleijado” ou “agora ele vai abrir a Bíblia e ler algum versículo para mim”... Eu te chamei aqui para dizer que não tem nenhuma responsabilidade sobre o que aconteceu comigo. E também para olhar pela última vez nos seus olhos, porque gosto de você, e acho que nós dois precisamos de um abraço... Não sei com o que está metido ou quem, mas desconfio que a liberdade que tanto deseja não está onde procura...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: E nem aqui!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não seja arrogante.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Preferia que tivesse aberto a Bíblia e lido algum versículo. Foi pela nossa amizade que te pedi para sair da cidade. E esse foi o abraço mais forte que lhe dei. Fico feliz que seus filhos estejam aqui com você, mas fico triste que tenha me chamado para me dar um sermão sobre “o valor das coisas simples da vida” e, do alto de um lugar superior, tenha aproveitado a ocasião para romper a nossa amizade.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não confunda as coisas...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Bem, então, como posso entender “o olhar pela última vez nos meus olhos”?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Por que não sairá vivo dessa situação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os dois se olharam profundamente, muita coisa passou – carinho, mágoa, cumplicidade, desconfiança – e se dissipou rapidamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Acho que não irá querer conhecer a horta.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Acho que não irá me negar o último abraço. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Despediram-se em silêncio. Tão logo se encontram a sós – Parafuso olhando para a horta e as formigas comendo várias folhas de verduras; Orlando dirigindo de volta para casa, ofuscado por faróis – um peso enorme se abateu sobre a consciência de ambos, questões e respostas contraditórias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ocorria esse encontro, em outro lugar, Eva vivia seu dilema particular, ou seja, a resposta à pergunta de seu marido: “o que ela faz nas tardes de quinta?”. Há meses e meses, desde o início de nossa história, secretamente, ela se dirige a um determinado lugar, porém nunca consegue atravessar o portão. Houve vezes em que ficou horas diante da entrada até desistir. Contudo, no que parece ser um dia diferente, hoje ela resolveu entrar, deixando para trás a placa prateada chumbada no muro, onde se lê: &lt;em&gt;Dr. Gianne Casanova, ginecologista.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(a seguir: &lt;em&gt;Qualquer um perdoa, menos Deus&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-596603466041324765?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/596603466041324765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/04/malditos-cap-xx.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/596603466041324765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/596603466041324765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/04/malditos-cap-xx.html' title='Malditos - Cap. XX'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-580862343350000618</id><published>2010-04-03T08:55:00.000-07:00</published><updated>2010-04-03T12:13:50.787-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XIX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Motivo condutor &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ventos da revolta voltam a soprar, arrombando as portas de nossa percepção, despertando os bondosos do seu sono, tornando real o pesadelo dos maus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No teatro lotado, o Maestro retira sua guitarra do estojo, a voz sinuosa volta a cantar, o sibilo de uma cascavel, nos lembrando como tudo começou e como tudo vai terminar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A primeira canção é sobre um homem ambicioso chamado Orlando e a encruzilhada na qual se encontra. Ele entregou sua devoção a uma mulher e seu desejo a outra. Ah, essa parte é tão comum! Até os versos seguintes sobre o profundo desprezo da personagem pela ordem social, pelas classes, sua busca primordial por poder, que o levou a assinar um contrato, para não ser nem escravo e nem senhor, para além do bem e do mal, apenas um homem livre, forçando os limites de sua vontade, elegendo o misterioso e temperamental Destino como oponente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ó suave e malicioso menestrel, cante uma balada de amor, aquela sobre as duas mulheres, Eva e Diana, a senhora e a princesa. Quem orienta a vontade feminina? A serpente ou a vingança? Porque, segundo a canção, uma sente o ambíguo desejo de romper com sua tradição e, ao mesmo tempo, teme a punição de sua própria tradição. A outra deseja ferir o seu amante, uma reação ao desprezo pelo seu amor, mas a cada ferida no corpo do amado é o seu coração que sangra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois dessa bossa, vem o blues sobre o amaldiçoado, Elias – o belo, profeta da tristeza. Talvez se Helena fosse feia, não haveria a Ilíada. Essa é uma canção sobre outro menestrel, que aprendeu a tocar com o próprio Maestro. Ele encontrou o verdadeiro amor, a cara-metade como dizem por aí. Provando ser fora do comum, alcançou também o sucesso, pois os homens ordinários têm uma coisa ou outra. Como os antigos heróis gregos, a Glória foi sua madrinha. Porém, Elias não tinha em seu sangue o gene de um Ulisses, mas sim o de um Orfeu, por isso enterrou sua esposa suicida meses depois dela dar a luz à sua única filha, a qual não consegue olhar, porque cada traço lhe lembra o rosto falecido. Sufocado pelo peso do luto, vive entregue à crença nos seus mitos, na esperança que sua mulher possa renascer nos olhos da jovem profetisa Ana. Tudo é engano ou descoberta. Ana pretende levá-lo para outro caminho, sem misticismos, mas o peso da tradição dele o imobiliza. Ao invés da paz que anseia, o novo só lhe promete incertezas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O maestro aumenta o volume da guitarra, vamos ouvir uma canção política. O Senador, do topo de sua cobertura, vomita enojado o licor doce da democracia. O seu braço direito, menino prodígio, Alexander C. Shelley bebe devagar, dizendo que é preciso mudar para manter tudo igual. È uma velha máxima. Ao redor deles, ovelhas furiosas: prefeitos, empresários e empreiteiros querem lucrar, dinheiro sujo e imagem limpa. Todos reunidos ao redor da mesa de negócios. Na mira, uma mina de urânio escondida sob os pés de pescadores, que acreditam serem os peixes sua única riqueza. Como seria fácil deixá-los pescar, mas sempre aparece um ambientalista para perturbar, um tipo que atira ali e acerta em outro lugar, sabe falar e sorrir para os fotógrafos. Um sujeito assim é difícil encarar, porém, disse Orlando, em uma sociedade democrática, todos devem esconder seus vícios, e nosso idealista tinha os seus. Nessa sociedade, o mais importante é a aparência, concluiu Orlando, sem discordâncias. Logo, bastava criar uma situação para o ambientalista com sua cocaína aparecer e o jornalista fotografar. Quem segue os passos de santo com pés de barro? Mas quando se luta contra o Destino, nada sai como o previsto, não é mesmo? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Agora Maestro, por favor, desligue a guitarra! Deixe-me entender, que trama louca! O ambientalista morreu, os pescadores clamam por justiça, a polícia suspeita de crime premeditado, e ainda por cima existe essa tal Ordem, tipo uma seita secreta. No resumo estava escrito novela de horror... Tirando algumas passagens, como a do cemitério, ou Orlando encontrando sua mãe louca... É uma narrativa policial? Claro que não!”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E no silêncio do auditório, alguns ouvintes levantando, outros permanecendo, por puro respeito ao compositor, as cortinas se fecham. Devo ir embora? Muitos saem do teatro reclamando. Aqueles que ficam vêem o Mestre de Cerimônias se aproximar do microfone, em dúvida se ele vai explicar ou seguir com o espetáculo: “a parte XI ao XVIII, foi um improviso, para o baterista e o baixista solarem, agora retornaremos ao nosso &lt;em&gt;leitmotiv&lt;/em&gt;”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As cortinas se abrem novamente. O menestrel volta a ligar sua guitarra, o pé esquerdo sobre o pedal de distorção. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A primeira música é um rock’n roll sobre um cara comum chamado Parafuso. É uma história sobre amizade e desconfiança, lealdade e menosprezo, sobre uma mulher, sobre esta certeza: em uma situação perigo, é melhor salvar a própria pele. Esse enredo começa no exato momento em que Parafuso, fugindo de todas as conseqüências descritas acima, capotou com seu carro, açoitado por visões fantasmagóricas, cegado por uma luz intensa e, quase surdo, uma voz estrangeira recita estas palavras: “A morte perderá o seu domínio. Nus, os homens mortos irão confundir-se, com o homem no vento e a lua do poente; quando, descarnados e limpos, desaparecem os ossos, e nos seus pés e braços brilharem as estrelas”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(na próxima semana: &lt;em&gt;enterrado vivo em uma terra estrangeira&lt;/em&gt;). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-580862343350000618?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/580862343350000618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/04/malditos-cap-xix.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/580862343350000618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/580862343350000618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/04/malditos-cap-xix.html' title='Malditos - Cap. XIX'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-5747358755115712275</id><published>2010-03-12T14:31:00.000-08:00</published><updated>2010-03-12T14:58:57.598-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='literatura'/><title type='text'>Homenagem a Glauco, morto hoje.</title><content type='html'>Homenagem a Glauco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós acordamos inquietos&lt;br /&gt;Surpresos tentamos entender&lt;br /&gt;A triste notícia anunciada por um âncora na tv&lt;br /&gt;E com nosso olhar pesado como chumbo no mar&lt;br /&gt;Afundamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As portas da recepção estavam sempre abertas&lt;br /&gt;E as portas da sala de estar também&lt;br /&gt;No final,&lt;br /&gt;O algoz foi aquele que recebeu o abraço mais forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós estamos de luto&lt;br /&gt;Pelo assassinato do grande Glauco e seu filho&lt;br /&gt;Que as portas do paraíso se abram.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-5747358755115712275?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/5747358755115712275/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/03/homenagem-glauco-morto-hoje.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/5747358755115712275'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/5747358755115712275'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/03/homenagem-glauco-morto-hoje.html' title='Homenagem a Glauco, morto hoje.'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-6408780877329216439</id><published>2010-01-03T11:33:00.000-08:00</published><updated>2010-01-03T11:41:55.172-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XVIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Uma volta no parafuso&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orlando entrou no escritório carregando o adicional cobrado por Parafuso. Porém, havia o dobro de dinheiro na bolsa, mais uma passagem e um contrato de trabalho temporário. Chegou sem aviso e cinco dias antes do combinado. Diante disso, Parafuso só pensou uma coisa: “Ele descobriu sobre mim e Diana”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dormira mal, pouco menos de três horas, torturou seu coração a noite inteira com perguntas: o estado de sua mãe, seus sentimentos em relação à Eva e Diana, a realização da cerimônia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Adiantou o pagamento. Por quê? Vai sair da cidade? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Assumiu um jeito irônico e desconfiando, uma máscara para esconder o sentimento de vergonha diante do amigo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Por que você não senta? Vamos conversar. Quero te propor uma coisa, na verdade, um pedido: saia da cidade por uns tempos, até a poeira baixar. Tem um bom dinheiro aqui para três meses de férias... no Caribe, se quiser. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parafuso soprou a fumaça do cigarro pelas narinas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Se eu sair da cidade, passo de testemunha a suspeito... É isso? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando se levantou com um soco na mesa, girou pela sala bufando, esfolou alguns dedos na parede, rugiu: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você é meu amigo... É isso! Tem um contrato de trabalho aqui. Deixe seus telefones com a porra desse inspetor, quando te chamar, você vem.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Com que tipo de gente você está trabalhando?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Porra, você sabe! Para eles, quanto menos pessoas para falar, melhor! Pensa nisso. O dinheiro está aqui. Porque eu não voltarei mais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando saiu da sala pensando: “Idiota!”. Às vezes, não basta fazer o bem para as pessoas, devemos também convencê-las disso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando a noite chegou, foi a vez de Parafuso torturar a sua consciência insone com perguntas: será que quer me afastar de Diana? Ou haverá uma queima de arquivo? Passou horas com o retrato dos filhos nas mãos. Então, uma imagem gelou sua alma: os filhos chorando sobre seu túmulo. Ao nascer do sol, não tinha mais dúvidas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sua ex-esposa se assustou ao encontrá-lo em sua porta às sete. “Quero ver as crianças”. Brincou a manhã inteira com os filhos, depois explicou a viagem a trabalho, deixou uma boa quantia com a mulher e, ao sair, sugeriu que passassem algumas semanas na praia junto com os filhos – ela poderia ir se quisesse. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltou à oficina. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Camundongo vem cá... Vou te deixar responsável pela oficina... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Explicou ao braço direito todos os detalhes, exigiu o envio semanal dos custos, enfim, mesmo longe estaria de olho. Liberou todos os empregados mais cedo. Sozinho, olhou com satisfação cada centímetro de sua oficina. Nela via refletida o seu ideal de vida, a realização de sua autonomia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já caía o crepúsculo quando fechou o último portão. Porém, antes de entrar no carro, avistou um jovem estudante de farmácia, que há muito mora em um prédio vizinho à oficina. Ao vê-lo, um impulso o dominou, uma vontade irracional de homenagear os velhos tempos. O jovem entrava no elevador quando Parafuso o segurou pelo braço. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Vamos até o seu apartamento.&lt;br /&gt;O morador se assustou e subiu inquieto até o seu andar. Muitos clientes de Parafuso são policiais, por causa disso, o estudante sempre desconfiou que ele pudesse ser um informe ou qualquer coisa do tipo. Entraram no apartamento. Parafuso olhou a bagunça em volta e disparou: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Por quanto você me vende um baseado? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já mais relaxado, o jovem riu consigo mesmo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: Acho que se enganou... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parafuso lançou as mãos sobre o peito do moleque, que caiu de bunda no chão com um olhar assustado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Tu vende maconha para essa galera toda aí... Por que não pode me vender um baseado?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: Calma, cara! Não tenho! Não sou traficante, sou estudante...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Vou sentar aqui, se você não me arrumar um baseado, vou ligar para um camarada meu, aí vamos ver... Não é possível que não tenha nada aí!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: Calma, cara! Nunca te fiz mal, meu pai até consertou o carro dele com você...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Então, por que não quer me vender um simples...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: Eu não tenho erva... Mas tenho uma coisa similar, uma raiz...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Tipo Daime?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: Não! O nome da raiz é Sulamericana... Os índios a usam misturada com café, por isso eu chamo de café sulamericana. É uma onda boa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parafuso olhou para o moleque e, de alguma forma, tentou esconder o seu ridículo. Agora, para não parecer mais maluco, convinha aceitar o café. Além do mais, queria fumar um cigarro. O acadêmico preparou a bebida. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: A gente costuma misturar com leite, para dar uma quebrada...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Puro! Não sou o tipo café-com-leite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes do primeiro gole, Parafuso olhou fundo nos olhos do anfitrião: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Você não colocou nenhum tipo de veneno?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estudante&lt;/strong&gt;: Você é desconfiado pra cacete, hein! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele tomou a xícara das mãos de Parafuso e a virou em um gole. Logo após beber o café, tratou de se despedir: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Sinto muito pelo minha truculência... Você é um moleque bacana! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes de ir para “onde quisesse”, Parafuso deveria passar em Cabo Frio para assinar uma papelada na empresa, ou seja, “forjar um álibi”. Seriam horas dirigindo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O café é realmente bom, uma onda de alegria, uma satisfação eufórica, na estrada deserta à noite, Parafuso sorria e aumentava o som, a onda é boa mesmo, quando entrou no perímetro urbano, ficou maravilhado com as luzes da cidade, como uma criança olha para tudo como novidade e se encanta, onde estavam os problemas? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O café é bom mesmo, quando saiu do perímetro urbano e mergulhou na estrada, cortando o interior e suas montanhas, as estrelas brilhando, um animal cruza o asfalto, mas que animal brilha daquele jeito? Parafuso olha para as cercas de arame farpado e parecem trabalhadores marchando, então começa a ouvir um assobio, parece um sussurro, vindo do banco do carona, a voz de Diana, dizendo: “Mais café! Mais Café!”. Espantado, fechou e abriu os olhos, à sua frente havia uma nuvem negra, se aproximando, se aproximando, até se revelar uma nuvem de corvos, que entram pelas as janelas abertas do carro, foi muito rápido, um segundo, até o carro capotar, capotar, capotar e só parar no tronco de uma enorme mangueira, e a cabeça de Parafuso bater definitivamente no vidro do pára-brisa e começar a sangrar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(na próxima semana:&lt;em&gt; Eu lhe disse que não queria vê-la em lugares sórdidos&lt;/em&gt;). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-6408780877329216439?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/6408780877329216439/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/01/malditos-cap-xviii.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6408780877329216439'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6408780877329216439'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2010/01/malditos-cap-xviii.html' title='Malditos - Cap. XVIII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-7654866187513662891</id><published>2009-12-21T08:13:00.000-08:00</published><updated>2009-12-21T08:47:09.968-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='maltidos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XVII</title><content type='html'>&lt;em&gt;Retalhos&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Troque o alvo!... Distancie mais... Mais... Ok.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Treinador&lt;/strong&gt;: Na mosca! Hoje você está impossível.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Distancie mais sete metros. Vou experimentar o rifle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto checava a arma, a mente de Elias mergulhou no passado. Ele tem treze anos, seu pai o ensina, pela primeira vez, a manusear o Rossi, a firmá-lo corretamente no ombro para amenizar o coice do tiro. “Nós somos uma família de caçadores, meu filho!”. O hábito de caçar é uma herança duradoura entre seus familiares, talvez tenham sido os maiores exterminadores da onça parda na mata Atlântica. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora, caçar é uma atividade criminosa. Por isso, criaram o &lt;em&gt;Clube do tiro&lt;/em&gt;, para simular a velha sensação. Elias é um exímio atirador. Quando se sente angustiado, vem aqui praticar. O tiro exige concentração, clareia a mente. E tudo que precisa é um pouco de silêncio, ainda mais depois das sementes que Ana plantara em sua consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No deserto, o Astrólogo desenha sobre a areia os símbolos do infinito e do acaso. Longe dele, o Maestro se aproxima do abismo, para melhor ouvir os músicos executando sua sinfonia. Que a cerimônia comece!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em sua casa, sentado no sofá da sala, Orlando lê distraidamente os jornais. Sua esposa está sentada em outro sofá, com uma revista de decoração nas mãos, mas apenas para disfarçar e espiar o marido. O que ele está pensando? O que conversa tão sigilosamente com seu pai?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Alheia aos dois, a menina brinca com seu carrinho das &lt;em&gt;Super-espiãs&lt;/em&gt;, e ela é a mais audaciosa, a mais corajosa, seu carro salta sobre a televisão, o sofá, o tapete...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Assim você cai, filha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando olhou espantado para esposa, o gesto de cuidado com a criança, o rápido abraço de proteção. Ele amassou o jornal, pegou a mulher pelo braço e a levou para o quarto, fechou a porta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: O que foi aquilo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: O modo como agiu...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Ah, por favor, ela iria cair...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você disse “filha”.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Isso é normal, um jeito de falar, não quer dizer...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Quando a adotamos, concordamos que não a trataríamos assim, não desenvolveríamos sentimentos paternais! Você sabe o perigo disso!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eva estava chegando ao seu limite. Há vários meses, uma angústia silenciosa e aguda castiga seu coração, provocando incerteza e calafrios. O comportamento cheio de mistérios do marido só piora a situação. Ela respira fundo, fala mastigando as palavras:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Eu não sei até onde agüento... Não assim, com você me tratando desse jeito agressivo... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A melancolia e o meio tom desesperado de sua voz o atingiram em cheio, despertou a compaixão guardada a sete chaves. Ele a pegou pelas mãos. Sentaram-se na beirada da cama. Com a voz clara e calma, começou: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Preciso te confessar algo.... Preciso da sua sabedoria, como sempre tenho precisando... Quero te contar algo sobre minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;BANG&lt;/span&gt;!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias passam, o inspetor Benedito e seu assistente seguem os passos do Sr. Shelley. Nesse ponto, o inspetor é um mestre. Seus colegas o chamam de “homem-invisível”, devido a sua exímia habilidade de ocultar-se na paisagem. Agora, eles se encontram a poucos metros da casa de Diana. Shelley a tem visitado regularmente. Benedito registrou cada visita em sua caderneta, o dia e a hora. E a cada visita, tem demorado mais. Após a anotação, fechou a caderneta e aumentou o volume do som, afinal esta era a sua preferida do vasto repertório de Bob Dylan. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;And you know something is happenig here&lt;br /&gt;But you don’t know what it is&lt;br /&gt;Do you, mister Jones ? &lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt; : Pô, não tem outro cd? Esse cara é chato demais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, no deserto, o Astrólogo termina o desenho das constelações na areia. Os cálculos foram vistos e revistos, dificilmente as estrelas se alinharão. Durante meses buscou uma explicação para o fenômeno, encontrou uma plausível no deslocamento de Plutão – por exemplo, os astrônomos descobriram outro planeta cuja antiga órbita de Plutão ocultava. No entanto, o Maestro compreendeu a questão pela teoria da relatividade de Einstein, a qual interpretou de forma peculiar baseado na teoria do acaso. Seja como for, para o Astrólogo não resta a menor dúvida: a cerimônia não deveria ser realizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dois dias após revelar para a esposa o demente estado em que encontrou sua mãe, Orlando conversa com Pedro Cigano. Caminhando pelo jardim da &lt;em&gt;Casa Michel Foucault&lt;/em&gt;, o emérito psicanalista e ocultista tenta explicar, ao apavorado filho, que talvez seja melhor não penetrar nas profundezas de uma mente perturbada, pois o resultado final pode ser um permanente estado catatônico. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Gostaria que tentasse...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: No estado mental em que ela se encontra, mesmo a hipnose profunda não garante uma possibilidade segura de regressão.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu li seu artigo sobre hipnose e condicionamento, se o entendi bem, é possível, em casos extremos de esquizofrenia, condicionar o comportamento do doente em uma personalidade específica.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: É uma hipótese. Através da hipnose, podemos condicionar a um comportamento específico, no seu caso, podemos condicioná-la ao papel de uma mãe protetora, ou seja, o seu desejo. Porém, se não houver o sentimento materno em seu espírito, ela reagirá a sua presença como um robô. É isso que quer?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu quero que ela me reconheça!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: E aí está seu erro. Encare os fatos por outra perspectiva - ela deve te conhecer. Em seu relatório, a psiquiatra responsável aponta que, em determinados momentos, a paciente se comporta de forma lúcida.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Li o relatório, em nenhum momento menciona que tenha se lembrado de mim.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: O passado é uma prisão e a mente de sua mãe está livre.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Espero algo além de uma frase de efeito.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: Não se apegue à possibilidade dela o reconhecer como filho, concentre-se na possibilidade dela te conhecer como outra pessoa, como um velho amigo ou um amante.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu quero saber por que ela me abandonou! Se não me reconhecer, nunca poderá responder.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: E o que fará depois? Vai abandoná-la aqui? Ou integrá-la a sua vida? Depois da cerimônia, seu poder e influência atingirão outros patamares. Imagine seus inimigos, agindo nas sombras, o que farão depois de conhecê-la? Não será difícil descobrir o amante. Como irá agir quando disserem que sua mãe foi uma vadia?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Está me ofendendo...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: Pois bem, se eu, que selei um pacto de silêncio com você, te enervei... Imagine seus inimigos? Irão te desestabilizar emocionalmente. Reflita um pouco mais. Já a encontrou, está sob sua proteção. Mantenha uma visita regular, seja próximo, embarque nos delírios dela... Assim talvez encontre o que procura, mas não faça a busca a causa de sua ruína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nos dias seguintes, Elias finalmente ligou para Ana. Os dois passaram a fazer longas caminhadas, ao final da tarde, sempre escolhendo a esmo o caminho. Nessas ocasiões, Ana lhe explicava a causa de seu rompimento com a Ordem, e como encontrou uma nova orientação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Nós vivemos em um mundo ainda ignorante e arrogante. Nós pedimos bem-estar e recebemos riquezas medidas apenas pelo ouro. Todas as promessas são cumpridas, e nós ganhamos, mediante nossos sacrifícios, sucesso e dinheiro. Nós não passamos fome, não temos patrões. Por isso, acreditamos que somos livres. E aí está a nossa fragilidade. Apesar de toda a nossa "riqueza e liberdade", não encontramos uma explicação confortável para as tragédias que nos aflige, agimos como cegos em um mundo de escuridão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Elias ouvia essas palavras como um desesperado ouve o sermão do pastor. Pouco a pouco, começava a acreditar nelas. Em meio à melancolia que vivia desde a perda da esposa, os passeios com Ana arejavam o seu espírito. Um dia, ela lhe perguntou se gostaria de conhecer uma pessoa, o principal agente transformador de sua vida. Ele aceitou. No dia seguinte, foi apresentado a um sujeito baixo, com a pele do rosto roseada, a barba branca bem aparada, uma voz harmoniosa, cujo próprio sentido do nome aludia à boa palavra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Foi um imenso prazer conversar com senhor... Benedito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;BANG!&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(na próxima semana: &lt;em&gt;Parafuso hesita&lt;/em&gt;). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-7654866187513662891?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/7654866187513662891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/12/malditos-cap-xvii.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/7654866187513662891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/7654866187513662891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/12/malditos-cap-xvii.html' title='Malditos - Cap. XVII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-2726871526177684029</id><published>2009-11-18T05:47:00.000-08:00</published><updated>2009-11-24T05:39:58.796-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XVI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A roda da fortuna&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto Diana e Parafuso curtiam um embalo romântico, dois altos membros da Ordem se reuniam em uma cobertura. A reunião foi marcada em caráter extraordinário, sem muito tempo para os detalhes. O secretário particular rebolou para cuidar de tudo: a limpeza dos cômodos, a comida, a bebida, as garotas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Secretário&lt;/strong&gt;: Senador, finalmente consegui falar com o Esfinge. Em uma hora estará aqui... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A pauta da reunião: os desdobramentos relacionados ao acidente do ambientalista.  O Senador ainda não compreende como um assunto local pode, de uma hora para outra, interferir tanto no maior projeto da Ordem. Para ele, é incompreensível o fato de um inspetor da polícia federal incomodá-los como uma mosca varejeira. Somente uma pessoa poderia esclarecê-lo: Alexander C. Shelley, o sogro de Orlando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Como estão as coisas no senado?     &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Pegando fogo! É como se andássemos descalços em um covil. Em cada sorriso, um punhal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O Senador pediu duas doses de uísque ao secretário. Após servi-los, o serviçal se dirigiu à cozinha, resmungando consigo mesmo.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Como estão as coisas na cidade?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Mais complicadas do que no senado!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto ouvia o relato dos últimos acontecimentos, o Senador foi um compêndio de gestos contraditórios. À morte do ambientalista, riu de canto de boca; à menção da investigação do inspetor, secou a bebida e bateu nervosamente o copo sobre a mesa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Nós o deixamos ir longe demais... Não acha?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Os tempos são outros, mestre... Vivemos em uma democracia...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O Senador o silenciou com um olhar severo. Depois se levantou, lançou algumas pedras de gelo no copo recém abastecido. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: E você ainda casa sua filha com um...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Não despreze o potencial de Orlando...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Como desprezar? Eu mesmo não assinei petição para sua admissão na Ordem? Eu mesmo não serei uma das testemunhas em sua cerimônia de consagração?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: São novos tempos...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Entendo bem os “novos tempos” e, sobretudo, a “democracia”. O que não entendo é como um negócio tão importante para Ordem, relativamente simples, ganhe tamanha dimensão. Seja sincero, esse investigador sabe algo sobre a mina de urânio?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Se soubesse, já saberíamos!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Então...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: O homem é um obsessivo... Há anos vem nos investigando... Mas existe algo que o senhor ignora. Ele pertence à Ordem Iluminista. Se estivéssemos no século XV, talvez fosse o grande inquisidor. &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Estamos no século XXI.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Por isso precisamos de um guerreiro racional e místico... E não encontramos ninguém melhor do que Orlando. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O diálogo terminou em um silêncio interrogativo, quebrado pela entrada do serviçal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Secretário&lt;/strong&gt;: O prefeito acaba de chegar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O Senador e Shelley levantaram-se imediatamente, se entreolhando curiosos e apreensivos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Para monopolizar a mina de urânio, a Ordem precisa – legalmente – comprar o terreno onde a jazida se encontra. Seus altos membros devem agir rápido, antes dos técnicos do Ministério das Minas e Energia. Por isso acionaram um braço menor, a construtora Marinhos &amp;amp; Santos, encarregada de executar o projeto de construção de um complexo hoteleiro na vila Atlântida. Desse modo, enquanto ricos entediados praticam ioga e esportes radicais, seus técnicos estão lá, quietinhos, retirando urânio, bombardeando o urânio de nêutrons, negociando com os países carentes de energia nuclear.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Porém, para dar o primeiro passo, é preciso convencer as várias famílias de pescadores que moram na vila. O ambientalista, ignorando a mina de urânio, considerou o projeto uma exploração da terra, além de injusto com seus moradores, por isso resolveu defendê-los. Foi assim que entrou e morreu nessa história.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Rei morto, rei posto. Daí a necessidade de contar com o prefeito como aliado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Como é esse prefeito?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Politicamente correto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Quando o prefeito surgiu, o Senador cravou seus olhos de águia sobre ele. Aparentava uns trinta anos, magro, cabelo bem cortado com alguns fios grisalhos. Shelley, após as saudações, foi direto ao assunto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: O prazo que o senhor nos deu já expirou. Já se passaram cinco meses desde o acidente... Uma secretaria não pode ficar tanto tempo administrada interinamente... Enfim, irá aceitar ou não a nossa indicação?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Com uma voz educada e firme, o gestor se justificou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prefeito&lt;/strong&gt;: Os senhores hão de convir que a situação mudou bastante. Não sei se estão a par de alguns detalhes sobre o caso, mas poucas horas antes do acidente, a vítima foi ameaçada de morte... Pelo seu genro!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Mais uma vez o silêncio se impôs. Ninguém na sala imaginava por que Orlando agira assim, porém, todos concordavam que fora uma atitude estúpida. Restou ao sogro a responsabilidade de explicar o inexplicável. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: A perícia comprovou que o acidente ocorreu devido ao rompimento da barra de direção. Além disso, a autópsia revelou que a vítima estava drogada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O prefeito ponderou a situação. Sua intuição, no entanto, lhe dizia que havia mais, caso contrário, sua presença não seria tão importante. Embora ambicioso, não era um homem vaidoso. E nós sabemos que os vaidosos são os mais fáceis de serem manipulados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prefeito&lt;/strong&gt;: Algumas críticas do falecido tinham fundamento, preciso considerá-las. Por exemplo, o município, ou pelo menos seu representante máximo, tem o direito ter acesso aos estudos geológicos dos seus técnicos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Nós temos cara de mafiosos para o senhor?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A pergunta não só foi despropositada, como fora dita em tom imperativo. Era apenas um truque da velha raposa. Seu método consistia em dizer alguma frase ameaçadora, em tom grave e de forma inesperada, para testar psicologicamente o adversário. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prefeito&lt;/strong&gt;: Não estou aqui para acusações.... Porém...  Não posso fechar um acordo de olhos vendados.   &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O Senador e o Shelley trocaram um olhar cúmplice. Em determinado momento da elaboração do projeto Nova Gênese, consideraram essa situação. Se não fosse pela audácia do ambientalista, seria desnecessário um acordo com o prefeito. Senador pensava: “Até morto o maldito hippie sujo atrapalha”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Por isso marcamos esta reunião: para acertamos detalhes, esclarecer dúvidas, enfim, selar definitivamente nossa aliança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Mais uma vez o mordomo surgiu para anunciar dois aliados importantes: o Empresário e o Empreiteiro, os proprietários da construtora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Reunidos em torno da mesa, os sócios discutiram a condução do projeto, analisaram planilhas de custos, divergiram nos números, encheram copos e mais copos de uísque, embora o prefeito tenha preferido água. Animado, Shelley propôs ligar imediatamente para o geólogo que pretendiam por no gabinete, mas o prefeito, com seu jeito suave, desviou a atenção para outra analisada nas planilhas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Com todo respeito, mas o seu genro é um moleque estúpido!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Não trato mais nenhum assunto com ele, aliás, sugiro seu desligamento do projeto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando devia satisfações ao grupo, principalmente ao Senador. Contudo, foi o último a comparecer. O Empreiteiro pretendia “humilhá-lo”. O Empresário não sabia “como lidar com ele sem entrar em atrito com o Shelley”. Por fim, quando apareceu na sala, sua aparência desleixada deixou todos perplexos. O Senador pensou: “Ele está acabado!”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Orlando... O que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não tenho tido muito tempo para um sono adequado.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Você é um incompetente... Um irresponsável!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando olhou com raiva o interlocutor, não tratou de disfarçá-la.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Qualquer associação entre a morte do ambientalista e a sua construtora será uma mera hipótese sem dados concretos para comprovação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O Empreiteiro estava exaltado, batia o punho sobre a mesa, mordia as mãos, gritava:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Você apontou uma arma, tem testemunhas... Arrgh!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Embora tenha suas reservas em relação à personalidade de Orlando, principalmente devido às suas origens na classe média, o Senador gostou de sua reação diante do touro enfurecido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Orlando, você deverá se afastar do projeto. Além de ter cumprido sua função, neutralizar o ambientalista...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: “Neutralizar?!?”... Porra, ele matou o cara!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: ... há outros assuntos importantes que exigem sua total dedicação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O sogro se referia à proximidade da realização da cerimônia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Entendo. Tenho apenas uma última declaração: o inspetor Benedito tem um informante dentro do nosso grupo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Não confio em nada que sai da sua boca!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Qual o fundamento da suspeita?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando:&lt;/strong&gt; Quando me interrogou, o inspetor fez algumas perguntas que somente alguém com acesso a detalhes do projeto faria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A convicção de Orlando encheu o ambiente de tensão. O prefeito começou a estalar os dedos e bater os pés. O empreiteiro esbravejava sem ninguém lhe dar atenção. O empresário riscava um nome com as unhas sobre a mesa, há algum tempo desconfiava. O Senador lançou a mão sobre a testa: “E mais essa! Bando de idiotas!”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Como um sopro refrescante de ar, o mordomo anunciou: “O sr. Esfinge acaba de chegar”. Em visível mudança de humor, o Senador levantou as mãos para o alto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Senhores, creio que merecemos um pouco de distração.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Quando se tratava do Senador, Esfinge sempre escolhia as garotas mais jovens e animadas. Suas reuniões eram dignas de figurar no &lt;em&gt;Satyricon&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: As minhas ninfetinhas queridas... Mas só vai ganhar pirulito quem for obediente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto os convidados se divertiam, o sogro levou o genro para outro cômodo. Além da preparação para a consagração exigir a abstenção sexual, o patriarca – até mesmo por causa de uma preocupação paternal – queria algumas explicações.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Por que ameaçou um homem cuja morte tramou tão meticulosamente?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando voltou a explicar que o fim do ambientalista não estava em seus planos, mas não era isso que o sogro queria ouvir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Quero o endereço e o telefone dela... Como é mesmo o nome?... Diana. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O genro passou todos os dados, embora soubesse que já os tinha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Sua aparência está horrível. Tire algumas semanas de folga... E lembre-se: a &lt;em&gt;menina&lt;/em&gt; precisa ser preparada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Creio que a governanta que pôs em minha casa está cuidando disso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Nunca Orlando havia sido tão ríspido. Após anos, encontrar sua mãe louca em um hospício o abalou profundamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Por que não a deixou entrar no carro com o ambientalista?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Quando a conhecer, entenderá. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;              Voltaram para a sala principal. O Senador começava a narrar suas divertidas histórias.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/strong&gt;: Estávamos em Brasília... Eu e mais cinco senadores. Discutíamos se aprovaríamos ou não um projeto que propunha férias e décimo terceiro para as putas... Rárárárá... Já pensou Esfinge?.. Aqueles safados corruptos acharam o projeto uma imoralidade. Até o lelé-da-cuca foi contra.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ninfeta&lt;/strong&gt;: E o senhor?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Minha querida, sabe o que fiz? Tirei o pau para fora, bati uma punheta e, com a própria porra, escrevi: aprovado!... Ora, sou contra a exploração do trabalho infantil.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Todos caíram em uma gargalhada uníssona. Até Orlando. A bem da verdade, o prefeito riu amarelo. No fundo, sentiu-se constrangido, inclusive pensou em partir após a chegada de Esfinge e suas meninas, mas não podia, por isso puxou uma garota e resolveu fingir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Duas horas depois dos convidados partirem, a sós com Shelley, o Senador confidenciou sua opinião.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: Espero que a única coisa que esse prefeito esconda seja a rola!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Quando o senhor lhe oferecer a vaga no Congresso, ele cederá... Mas uma coisa me preocupa...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: O comportamento do seu genro?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Confio em Orlando... Sei que está escondendo algo, mas confio nele...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: O que o preocupa então? Ou quem.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Elias!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Senador&lt;/strong&gt;: O meu sobrinho-neto?!?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Shelley&lt;/strong&gt;: Ele realizou um ritual de reanimação sem a nossa consulta. Está se tornando rebelde.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; (a seguir: &lt;em&gt;Elias, o franco-atirador&lt;/em&gt;).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-2726871526177684029?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/2726871526177684029/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/11/malditos-cap-xvi.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/2726871526177684029'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/2726871526177684029'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/11/malditos-cap-xvi.html' title='Malditos - Cap. XVI'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-4575227004501470054</id><published>2009-09-22T15:52:00.000-07:00</published><updated>2009-09-22T16:20:45.406-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;As portas da percepção estão abertas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Diana aumentou o volume do aparelho de som, a voz grave de Jim Morrison surgia clara do além-túmulo:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;She was a princess&lt;br /&gt;Queen of the Highway&lt;br /&gt;Sign on the road said:&lt;br /&gt; take us to Madre&lt;br /&gt;No one could save her&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;           &lt;br /&gt;Todas as dúvidas em relação a Orlando brevemente suspensas. Os inúmeros registros das ligações do inspetor da polícia federal permanecerão sem respostas. Agora, a única coisa importante é a diversão. Mas é impossível se divertir sozinha. As companhias possíveis registradas na agenda do celular são inúteis: amigas falsas, coroas com suas pílulas de viagra e cartões de crédito. Ela não precisa de dinheiro. Só quer uma presença legal, alguém que não dê nada em troca além da sincera admiração. Nesse momento, só existe uma pessoa capaz disso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Alô... Leandro, como está?... Então, vamos sair... Quero dançar, estou tão entediada! Topa?... Daqui a meia hora passo na sua casa!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso desligou o telefone surpreso e desconfiado. Olhou para as unhas sujas de graxa. Tinha pouco tempo para se arrumar. Começou fazendo a barba, depois cuidou das mãos, ligou o chuveiro: sabonete, condicionador, perfume. Experimentou uma, duas, três camisas... E a campainha tocou! Saiu correndo vestindo apenas a calça, abriu a porta...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Que recepção!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Achava que fosse demorar mais um pouco... Entre.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Pode terminar de se arrumar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diana se sentou no sofá, abriu a bolsa, pegou um estojo dourado, retirou um baseado, acendeu e, depois da primeira tragada, ofereceu a Parafuso, que recusou. Ela não sabe, mas o uso de drogas arruinou o seu casamento e quase o levou à sarjeta. Só os fortes sobrevivem – diria Keith Richards.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Estou pronto! Para onde vamos?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Ao &lt;em&gt;Pow Pow Club&lt;/em&gt;... E eu dirijo!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso pensou em encostá-la na parede, tirar a verdade como um dentista tira um dente, porém ela abriu aquele sorriso lindo e o lembrou o quanto esperou por isso. Ah, deixa o interrogatório para amanhã. Antes de entrar no carro, ele averiguou a rua para se certificar se havia algum carro estranho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: O que foi?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Nada! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ela deu a partida, fez a curva a 80 e esticou a 100 quando entrou na avenida principal, cantando junto com Iggy Pop:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;callin' from the fun house with my song.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;we been separated baby far too long.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;callin' all you whoop-de pretty things.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;shinin' in your freedom come and be my rings.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;           Enquanto esta amazona do século XXI dirigia elétrica, Parafuso voltava os olhos para trás de modo tenso e obsessivo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Tem alguma coisa te preocupando?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não! Por quê? Deveria?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Você não mudou nada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ela sorriu, passou levemente as mãos pela cabeça do carona. Depois acendeu o baseado que começara a fumar na casa do velho amigo, sem perceber que logo a frente havia...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Uma blitz da polícia! Puta-que pariu, apaga essa porra!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Relaxa, meu querido. Você está comigo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diana apontou para um adesivo colado no canto esquerdo do vidro da frente do carro. Parafuso reconheceu o símbolo. Ao verem a inscrição “poder judiciário”, os policiais abriram passagem. Para provocá-los, ela abriu o vidro do motorista, deixando sair o forte cheiro da erva, fez um sinal de continência e seguiu com o som no volume máximo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não precisava abusar. Se eu fosse um deles, te parava na hora!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Ainda bem que você está do meu lado, não é?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ele não respondeu, apenas acendeu um cigarro e ficou imaginando o que ainda estava reservado para a noite. Esperava amanhecer com ela nua em sua cama. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O &lt;em&gt;Pow Pow Club&lt;/em&gt; é um lugar onde os extraordinários se encontram. Na entrada há uma placa na qual se lê: &lt;em&gt;celebridades não entram&lt;/em&gt;. É preciso muito mais do que dinheiro ou fama para entrar. É necessário algo a mais para dançar no salão. Sua localização é um segredo guardado a sete chaves. Eça de Queiroz gastaria páginas e mais páginas descrevendo cada detalhe do recinto – que pena que ele não está aqui. Quando um estranho aparece, não importa com quem esteja acompanhado, só entra se passar pelo crivo do proprietário – o Esfinge. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Que lugar é esse?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diana coloca a mão no peito do amigo, indicando para esperá-la na entrada. Ela conversa com o porteiro. Este pega o celular. Parafuso faz um sinal para a amiga se aproximar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Qual é a desse porteiro?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Aqui é um clube seleto... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Um sujeito baixo surge na porta de entrada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Esfinge&lt;/strong&gt;: Diana... Minha princesa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Eles se abraçam como velhos conhecidos e conversam rapidamente. O desconfiômetro de Parafuso ultrapassa o limite vermelho, ainda mais depois deste diálogo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Este é Leandro... Somos amigos de infância.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Esfinge&lt;/strong&gt;: Ele não está vestido apropriadamente, tem um cabelo horrível, a coluna torta e é manco! Não sei... Eu gosto tanto de você, mas...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Analisou o mecânico de cima para baixo. Parafuso também cravou o olhar sobre o proprietário do clube, que vestia um terno preto listrado, lenço vermelho dobrado em v no bolso, calça de brim engomada, estilo mafioso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Para mim, você com que essa estampa &lt;em&gt;don Corleone&lt;/em&gt;, saiu do desenho da &lt;em&gt;Penépole Charmosa&lt;/em&gt;... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diana fez um esforço para não rir. O porteiro lançou um olhar pouco amistoso e escondeu uma das mãos na cintura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Esfinge&lt;/strong&gt;: Me dê um bom motivo, além de sua bela companhia, para deixá-lo entrar.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Eu estou aqui por acaso e não vou voltar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Após segundos de silêncio, o proprietário sorriu, deixando à mostra os dentes caninos afiadíssimos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Esfinge&lt;/strong&gt;: Boa resposta... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diante da situação inusitada, Parafuso esperava encontrar um ambiente de luxúria e perversão. Tudo era absolutamente normal. A música era boa e muito alta. As pessoas eram bonitas, e é claro olhavam com estranheza para ele. Havia um forte cheiro de cigarro misturado a álcool. “Mas pelo amor-de-Deus” – pensou – “isso é igual a qualquer lugar!”. Nada justificava a cena da entrada. Outra vez ela o submetia aos seus caprichos, por isso segurou firme o braço dela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Qual é?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Nem tudo é o que parece.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Por que me trouxe aqui?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diana o beijou na boca. O gosto agridoce dos seus lábios o remeteu a outro lugar, não era nem o passado e nem o presente, um espaço prazeroso no qual se sentia como um guerreiro, um instante que não deixaria acabar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Agora quero dançar! Pega uma bebida para gente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Como uma criança com a primeira bicicleta, Parafuso foi até o bar. “Que bebida eu levo?” – boa pergunta, afinal o que significa “uma bebida para gente”. Ah, ela é uma lady! Pegou a carta de bebidas, correndo o dedo pelos preços percebeu o significado de “clube seleto”. Ainda bem que Orlando havia depositado o adicional pelo trabalho sujo. Uh, péssima lembrança. Não! Pensamos nisso amanhã, sem dramas esta noite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Barman&lt;/strong&gt;: O que o senhor vai querer?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Um coquetel de morango com vodka... E um &lt;em&gt;black label&lt;/em&gt; caprichado...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ao passar pela pista até Diana, tentou preservar ao máximo o seu destilado, pois “cada gota está valendo o salário dos meus empregados”. Ao chegar, ela tomou de sua mão o copo de uísque. Após um longo gole, sussurrou ao seu ouvido: “ADORO JORGE BEN. VOCÊ GOSTA?”. Como um bom roqueiro das antigas, Parafuso não tinha o menor interesse por nada ligado a samba ou suingue; no entanto, tinha que ser sincero.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Acho legal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Menina gata Augusta, menina Augusta gata&lt;br /&gt;Menina, menina&lt;br /&gt;O que ela vai comprar eu não sei&lt;br /&gt;Mas se ela quiser comprar o meu amor&lt;br /&gt;Eu lhe daria de graça&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;                       &lt;br /&gt;            Sem lá muito ritmo para o samba rock, enjoado com o coquetel de morango, Parafuso voltou ao bar. Duplo black label. Ao voltar, encontrou Diana com uma mulher que o deixou sem oxigênio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Vou ao banheiro... Não fuja! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A mulher olhou para ele com um indisfarçado desdém. E as duas seguiram sorrindo em trenzinho pelo salão. Ao entrar no reservado, a amiga esticou duas carreiras de cocaína, menor apenas que o seu sarcasmo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amiga&lt;/strong&gt;: Fofa, o que é essa pessoa ao seu lado? O&lt;em&gt; Sherek&lt;/em&gt;?!?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Se você ler Vitor Hugo, saberá que uma aparência grotesca esconde uma alma bela.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amiga&lt;/strong&gt;: Não é preciso leitura para saber que está com esse ogro por carência...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A frase foi uma dura estacada em seu orgulho. Enquanto a amiga da onça limpava o nariz diante do espelho, Diana via o reflexo de sua fragilidade e não se reconhecia. Ela deixou a fútil...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amiga&lt;/strong&gt;: Ei, disse alguma coisa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Voltou ao salão...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Leandro, vamos embora...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Demorou...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O caminho de volta foi lento e silencioso. Cada um imerso em seus dilemas. Antes de abrir a porta de sua casa, Parafuso se deu conta de um fato: “Ela sempre me chamou pelo meu nome”. A constatação cobriu como um véu sua desconfiança.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Leandro&lt;/strong&gt;: A casa está meio bagunçada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Não tem importância.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O sol nascia iluminando seus corpos nus.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Leandro&lt;/strong&gt;: Sonhei por esse momento durante anos. Apesar de tudo, Orlando sempre foi o meu melhor amigo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Os melhores amigos são os maiores traidores.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(a seguir: &lt;em&gt;uma aula de política com o Senador&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-4575227004501470054?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/4575227004501470054/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/09/malditos-cap-xv.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/4575227004501470054'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/4575227004501470054'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/09/malditos-cap-xv.html' title='Malditos - Cap. XV'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-3626348170989211612</id><published>2009-08-31T06:26:00.000-07:00</published><updated>2009-09-01T11:36:34.571-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - cap. XIV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Só elas são felizes&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orlando viveu com sua mãe até os sete anos. Tudo de útil aprendeu com ela: falar, escrever, analisar as pessoas. Agora, dirigindo rápido e ansioso, esperando reencontrá-la depois de décadas, ouve voz dela e sente o cheiro ausente do seu colo. Essa lembrança é doce e serena, o quinhão de sua glória, cujo cego destino pretende privá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mãe embalou seu sono com as narrativas dos mestres da narrativa infantil. Adulto, estudou a fundo o imaginário de Perrault, Grimm e Andersen - os prediletos da casa. Quem os leu, sabe: a infância é uma peça de terror, cheia de privações e violência, sofrimento e abandono. Na estrada, Orlando lembra do pai voltando tarde do trabalho, com os desinteressantes almanaques do Capitão-América, os quais vendia aos colegas da escola.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Acelerava o Mercedes. Os carros a sua frente iam para o lado direito da pista, como zebras diante de leões famintos. Vários motoristas sentem esse tipo de superioridade nas rodovias, a sensação de perigo, espécie de teste de coragem ou a última gota de audácia reservada ao homem comum. Nada disso importa para Orlando e seu velocímetro – 120, 140, 180... Absorto no passado, o tempo corre devagar. Ele ainda tem nove anos, está sozinho no quarto, sem sono e sem histórias, o pai bêbado na sala.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A cada curva, uma velha recordação e um novo significado. Quando a mãe, pela primeira noite não amanheceu em casa, ninguém lhe disse a verdade. Nos dias seguintes, as tias e tios respondiam que ela voltaria logo. A criança perguntava se seria amanhã, a única resposta era um olhar de pena. O menino dormia e acordava esperando encontrá-la em qualquer canto da casa. Um dia, seu pai chegou com outra mulher.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Demorou anos para Orlando compreender a realidade a sua volta. Ao entrar na adolescência, como se sua vida fosse uma quebra-cabeças, começou a combinar peças. Às perguntas sem respostas, formulou hipóteses. Tornou-se arredio e analítico. Nas festas familiares, nada falava e tudo observava. Eram nessas ocasiões que mais sentia vergonha do pai. Sobre ele, os comentários giravam em círculo: “Não merecia”, “um homem bom”, “trabalhador”, “ainda encontrará alguém que o mereça”. Cresceu ouvindo essas qualificações e outras mais, para que se orgulhasse do genitor. Ocorreu o contrário. O filho relacionou “humilde” e “honesto” a uma vida medíocre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tinha vinte anos quando seu pai morreu de cirrose hepática. Os dois mal se falavam. Faleceu lamentando o fato do filho ter saído o inverso dele. Enquanto lançavam a pá de cal, os parentes estranharam a ausência de uma lágrima no ingrato. Quando partiu do enterro, antes de todos, ele ainda pode ouvir a avó paterna: “É igual à mãe, sem coração”. Esse foi o último contato com sua família. Em seu julgamento final, o pai foi o único culpado pelo afastamento da mãe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas é solução fácil atribuir ao outro a causa de nosso sofrimento. A vida é quebra-cabeça que não se encaixa ou resposta desagradável a uma pergunta inconveniente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Orlando nasceu com uma inteligência notável. Desde criança aprendia rápido. Na faculdade, logo se destacou e, muito antes de receber o diploma, seus professores já o indicavam a clientes especiais, como o seu futuro sogro. Atração pelo desafio e o amor à glória. Por isso os altos membros da Ordem estão dispostos a ignorar alguns fundamentos da tradição, para ter entre eles alguém com o espírito do século XXI. Somente ignoram que esse ser excepcional nunca conseguiu responder à questão mais importante e elementar de sua vida: “por que ela me abandonou?”. Convenhamos que isso é bem compreensível, afinal, nem Jesus Cristo aceitou bem a rejeição. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Encontrá-la tornou-se uma obsessão. Trabalhou duro para obter os meios necessários. Uma busca difícil, para alguns impossível, não possuía nenhum retrato da mãe, todos queimados pelo marido em uma noite de fúria. Nos últimos anos, Orlando chegou à conclusão que, a ausência de uma resposta, o tornaria idêntico ao pai, um homem fraco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, depois de sete horas dirigindo, chegou ao ponto marcado pelo detetive: um restaurante na estrada. Ele já o esperava na porta. Antes de abri-la, Orlando voltou por um segundo ao último encontro entre eles. Abriu o vidro do carro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: O senhor chegou bem mais rápido que eu esperava. Eu posso entrar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Abriu a porta desconfiado, uma dúvida o incomodava: esse senhor foi humilhado, é natural que tente uma vingança, e há muitas pessoas que matam barato. Orlando conhece dezenas delas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Sua mãe está em lugar um pouco longe daqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estava óbvio demais. Por um instante, considerou a hipótese de chutá-lo para fora. Fora estúpido. Regra número um: nunca confie em alguém que te enganou.. Ligou o carro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Dobre aqui... Vamos até o final desta estrada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eles entraram em uma estrada de chão. Uma paisagem bucólica e abandonada se abria aos olhos de Orlando. Se estivesse de férias, admiraria o verde da montanha, a água cristalina descendo melodiosa pelo riacho, se sentiria tocado com a dignidade no olhar doce dos poucos moradores, em suas humildes casas. Mas para ele, esse cenário era o enredo da traição. Enquanto seguia pelo caminho indicado, com o detetive insistindo para diminuir a velocidade, procurava atrás de cada rocha, entre as árvores, alguém escondido, com a arma engatilhada e a mira feita. Se estivesse no banco do carona, faria assim, pois toda a humilhação exige uma reação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Pare! É aqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando olhou para o encardido muro de entrada, coberto por pichações adolescentes – &lt;em&gt;From Stª Rita das Flores to hell&lt;/em&gt;... Depois mirou para a inscrição no arco do portão: &lt;em&gt;Asilo Michel Foucault&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: O que é isso?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: O que o senhor imagina?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um hospital psiquiátrico. O mundo é um hospício. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No interior do asilo, a diretora os esperava na recepção. Ela vestia uma calça jeans surrada e uma hering branca, cabelo longo grisalho desgrenhado, parecia uma guerrilheira dos tempos de Medici. O detetive conversou a sós com ela durante alguns minutos, tudo cheirava a outra farsa. Em seu íntimo, Orlando desejava isso: outra encenação, outra quebra de dentes, outra oportunidade para encontrar a verdade confortável. Ao invés disso, a diretora se aproximou dele segurando um caderno de capa dura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diretora&lt;/strong&gt;: Há três anos não recebe uma visita... Ela foi internada aqui pelo marido, assinou todos os protocolos, e nunca mais voltou. Quer conferir os dados?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando conferiu o único documento existente sobre a paciente: Virgínia Maria Assis de Alencar. Tudo batia, o local e a data de nascimento, o nome de seus avós maternos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diretora&lt;/strong&gt;: Sua certidão de nascimento é o único documento...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não havia dúvida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: È a minha mãe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O coração do filho batia forte, o corpo inteiro tremia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Onde ela está?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes de responder, a diretora comparou os dados pessoais de Orlando com os da paciente, e só fez isso porque tinha antipatizado com ele. Feito o preenchimento dos protocolos, ela o encaminhou pelas dependências do asilo até o jardim. Sob a sombra da mangueira, uma mulher de rosto magro gesticulava no vazio como se regesse uma orquestra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diretora&lt;/strong&gt;: Pode ficar a vontade... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A diretora e o detetive voltaram para a recepção. Orlando tomou pelas mãos o rosto indiferente da moribunda. Os olhos, o desenho dos lábios e as mãos, tudo familiar. Havia uma única dúvida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Mãe... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mulher o olhou com uma expressão vazia e dopada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Louca&lt;/strong&gt;: Quem é você?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Sou seu filho...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Louca&lt;/strong&gt;: Filho?!? Qual? Eu tenho tantos... Está vendo aquele macaco, é meu filho! E aquele falcão voando no alto, é meu filho! E essa formiga...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao lado da mulher havia uma toalha estendida e maçãs repletas de formigas. Ela pegou duas delas e as comeu. Ao ver essa cena, o coração de Orlando gelou de pavor e nojo. Ele tomou o fruto da mão materna, soprou para longe todas as mordedoras até deixar a fruta limpa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Louca&lt;/strong&gt;: Seu burro!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mãe jogou para longe a maçã. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Louca&lt;/strong&gt;: Eu uso a maçã para atrai-las... As formigas! Huumm... Elas são deliciosas...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E soltou um riso insano...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Louca&lt;/strong&gt;: São crocantes... Delícia! Delícia!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando pegou as frutas e as lançou longe. Descontrolada, a mãe o agrediu com pontapés e palavrões, depois enfiou os dedos no solo retirando enormes pedaços de raiz de grama, os quais devorou até engasgar. Os enfermeiros chegaram, a amarram e aplicaram uma injeção. A diretora correu em direção ao filho aflito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diretora&lt;/strong&gt;: Deixe! Não há nada que você possa fazer agora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após ver sua mãe sedada em uma cama, ouviu a longa explicação psiquiátrica da diretora. E ainda mais: as dificuldades financeiras para manter a casa de repouso, o desinteresse dos familiares, e etc e etc e etc. Assinou um cheque considerável com o coração sangrando. Depois assinou outra folha para o detetive...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Isso é pelo seu silêncio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes de partir, deixou com a diretora seus números privados:&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Me ligue semanalmente... Vou enviar um psicólogo particular... Alguma oposição?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diretora&lt;/strong&gt;: Não, senhor!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entrou no carro sentindo um conflito de emoções, tristeza profunda misturada à revolta, sensação de desilusão e alívio. Havia atingido o objetivo desejado. Mas o troféu ardia em suas mãos. Quando finalmente as lágrimas brotaram em seus olhos foi com raiva. Pegou o celular à procura do número do psicólogo associado à Ordem, sua fama é notória, dizem que é um mestre da hipnose, seu nome: Pedro Cigano.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(a seguir: &lt;em&gt;uma noite quente com Diana&lt;/em&gt;).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-3626348170989211612?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/3626348170989211612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/08/malditos-cap-xiv.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3626348170989211612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3626348170989211612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/08/malditos-cap-xiv.html' title='Malditos - cap. XIV'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-457406440790706170</id><published>2009-08-13T14:08:00.000-07:00</published><updated>2009-08-13T14:23:23.682-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Vida em família&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;            Certa vez, indo para o trabalho, um homem pacato rabiscou a seguinte frase na poltrona do ônibus: quando julgar seus atos, seja tão severo quanto foi ao julgar os outros. Os passageiros não olharam espantados, nem o prenderam por vandalismo. Conheciam a reputação daquele homem. Talvez hoje sintam sua falta, ou se perguntem por onde anda sua criança. É! Ele teve um filho, uma família. Quando o bebê nasceu, queria chamá-lo Pedro, por causa da religião. Mas sua esposa preferiu outro nome: Orlando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;             Desde a adolescência, Orlando desenvolveu um sentimento de desprezo pela sociedade. E um desdém maior pelos seguidores dos preceitos democráticos. “É um regime covarde. Todos são um e um governa todos. Quando algum inconformado perturba a ordem do sistema, apela-se para o único meio conhecido de silenciá-lo: a calúnia. Eu nunca gostei de uma luta injusta”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            No colégio havia sempre um líder carismático, ele dizia: “vamos arrebentar aquele otário”, e nove camaradas caíam matando, enquanto o líder admirava o seu poder sobre os semelhantes. Esse foi o primeiro problema de Orlando com a sociedade, a coletividade precisa de uma figura carismática para representá-la. “É um regime de servidão” – pensa, enquanto organiza os livros em sua biblioteca, na companhia de sua esposa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: No fundo, tenho pena dos líderes carismáticos!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Os líderes carismáticos...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: O que tem eles?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: São uns tolos! Quando vão além dos seus limites, confiantes em seu poder sobre as pessoas, são jogados à realidade: a cabeça na guilhotina ou seu nome na malhação de Judas.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: E quando desagradam seus aliados, estes recorrem ao melhor instrumento de mudança no poder: a traição. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Esse comentário, aparentemente prosaico, encheu de graça os olhos frios de Orlando. Por isso se apaixonou por ela, a única pessoa com a qual conversa em pé-de-igualdade. Não que não seja bonita, pelo contrário. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Encontrou os livros da Virginia Woolf?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva:&lt;/strong&gt; Por que está tão obcecado? Seu nome de batismo foi uma homenagem ao romance? Eu já li...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Gostou?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Só da primeira parte. Eu não sei nada sobre a sua infância...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Já te disse: meus pais morreram quanto eu tinha dezoito anos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Morreram juntos?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Há ainda mais alguma coisa para conversarmos sobre isso?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ao longo desse diálogo, Eva permaneceu de joelhos, à altura da cintura do marido. Ela se levantou, girou as mãos sobre os ombros do companheiro, com um olhar doce e ameaçador, perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Você seria capaz de me trair?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Uma onda elétrica percorreu a espinha de Orlando. Sua primeira atitude foi desviar o rosto do olhar da esposa. Impressionado com a astúcia da mulher, andou alguns passos pela biblioteca. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Qual a razão de sua desconfiança?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por que não me responde.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Os negócios da Ordem têm tomado muito do meu tempo, temos conversado pouco, por isso...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Tem decidido por si só o que faremos na nossa cerimônia!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Ao ouvir essa frase, Orlando respirou aliviado, chegou quase a rir da ingenuidade da esposa. Em um ato espontâneo, apertou levemente nariz dela como se tratasse uma criança. Ela repeliu o gesto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Ei! Está naqueles dias?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Por que não deseja a presença do meu primo na cerimônia? Ah, perdeu o ar confiante.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu iria te consultar...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: E por que não consultou?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando passou da leveza à aspereza, em um segundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: CHEGA!... Eu não gosto do Elias, tenho motivos, você sabe!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Tem inveja dele! Inveja!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;             Tomado subitamente por uma raiva imprevisível, ele apertou o braço direito da esposa, seus olhos ardiam e a boca espumava:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Seu primo é um fraco! Um mimado. O que ele fez quando sua mulher mais precisou dele?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Não diga isso... Não diga!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: RESPONDA! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A mulher caiu em um choro convulsivo. Seus soluços, somados aos gritos do marido, ecoaram por toda a casa. A &lt;em&gt;menina&lt;/em&gt;, que assistia televisão, assustou-se. Mas como toda pequena, a curiosidade foi mais forte que a tremedeira. Quietinha, foi se esgueirando pela parede, até chegar à porta e ver o que acontecia lá dentro. Quando Orlando a encarou, o medo voltou. Ele gritou para governanta:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: A senhora pode tirar essa criança daqui! Leve-a para o quintal. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Eva se recompunha, secava as lágrimas com as mãos, respirava fundo, tentando retomar o controle da situação. Ele nunca agira de forma tão violenta. Aliás, até esse dia, exercia um domínio absoluto sobre o marido. Talvez fosse a proximidade da cerimônia – ela suspirou fundo – talvez a tensão do trabalho. Para entrar oficialmente na Ordem, tem sido exigido além do que qualquer outro foi. Percebendo o estado da esposa, Orlando se lançou aos seus pés, beijou as últimas lágrimas escorrendo dos seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Desculpe, minha querida... Eu devia ter te consultado.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Você não tem autoridade para vetar a presença do meu primo... Somente um membro da família tem essa autoridade. O nome disso é tradição&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;br /&gt;            Afastou-se do marido. Em silêncio, Orlando voltou o olhar para os livros na estante. Com o orgulho ferido, Eva saiu da biblioteca, não sem antes bater a porta. Entrou no quarto de casal, passou o trinco, sentou desoladamente na beira da cama. Olhando através da janela a paisagem do seu quintal, uma sensação de insegurança gelou seu coração. Depois da visita do primo, começou a sentir uma estranha palpitação, às vezes um vento gelado na nuca, uma espécie de má premonição ainda sem forma.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Orlando continuou na biblioteca, havia perdido o interesse pelo livro de Virginia Woolf. Uma dúvida surgiu: será que Elias pretende fazer a cabeça de sua esposa? Ele sentou em sua mesa, olhar fechado, batendo nervosamente os dedos sobre a madeira. Será que agira de modo precipitado? Mas o sogro concordara, a presença do sobrinho, além de desnecessária, poderá ser negativa. E se assim como ela, outros membros da Ordem considerarem um desrespeito a petição? Em meio há tantas indagações, não percebera a chegada da governanta:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Senhor, há um oficial da polícia federal na portaria... O que faço?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;               Era como se estivesse em uma montanha russa de emoções. Ou uma roleta russa. Evidentemente, trata-se do mesmo oficial que procurara Parafuso. Óbvio que seu nome deveria estar na lista de suspeitos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Senhor?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Peça para entrar e me encontrar aqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O inspetor Benedito e seu assistente esperavam no portão de entrada, após ouvir a confirmação da governanta, seguiram lentamente com o carro todo o percurso até a casa de Orlando. Observando a suntuosidade da residência, o oficial soltou o seguinte comentário:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: Oh, mundo injusto! Não é chefe? A gente pode trabalhar cem anos e não moraremos numa mansão como essa!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Por isso estamos aqui, para fazer justiça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ao estacionarem nos fundos da casa, um empregado os aguardava. Era um sujeito magro, vestia uma bermuda suja de terra. O jardineiro os encaminhou pela cozinha até o encontro de uma empregada, vestida em um impecável uniforme branco, parecia uma enfermeira. A copeira os levou até a biblioteca do patrão. As retinas dos dois policiais fotografavam cada detalhe da rica decoração: as esculturas africanas, os quadros – “seria aquele um Magritte legítimo?” -, nem uma partícula de poeira sobre os móveis. Um ambiente tão organizado e opulento que oprimia os visitantes.  A porta da biblioteca se abriu. Orlando recebeu os oficiais de um jeito casual. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: É uma bela biblioteca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            De fato. O casal a recebera de presente dos avós maternos da esposa. Para abrigar os mais de sete mil livros, escolheram a enorme sala no primeiro andar da casa, fartamente iluminada pela luz natural e bem arejada. As estantes foram construídas com madeiras de lei. Em uma rápida olhada, o inspetor pode ver – e tentou memorizar – títulos raros e desconhecidos: &lt;em&gt;O líber al vel legis&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Fama fraternitatis&lt;/em&gt; e o obscuro &lt;em&gt;Mutus líber&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Pois bem, senhores...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Certamente não imagina o motivo de nossa visita...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Internamente, Orlando comparava a presença do inspetor com a descrição que Parafuso lhe fizera. Parecia uma figura inofensiva – “Vê se ele não lembra o Jô Soares”, o parceiro lhe dissera aos risos. Porém, talvez a aparência inocente oculte uma serpente. Seu assistente o remetia diretamente aos milhões filmes policiais. Com toda a certeza, não estava diante de um &lt;em&gt;Dirty Harry&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Se o senhor pudesse ser mais direto ficaria grato, pois tenho alguns assuntos urgentes para tratar...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: É como se diz: advogado é igual a papel higiênico, quando não está enrolado, está na merda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;             Orlando mirou o engraçadinho, mas nada respondeu. O assistente, ainda com um riso irônico entre os lábios, mexia nos livros na estante. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: Há alguma &lt;em&gt;Playboy&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Na última estante há uma edição de Safo... Sabe ler em grego?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            E voltou para o inspetor um olhar ao mesmo tempo curioso e impaciente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Senhor Orlando, não gostaríamos de tomar muito do seu tempo, por isso evitamos o transtorno de intimá-lo, já que é um homem ocupado... E pelo visto, um pai de família.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O inspetor olhava pela janela a menina brincando com a governanta no quintal. Orlando se levantou da cadeira em que estava sentado e fechou a cortina.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: É a neta da governanta.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: E o pai mora nesta casa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A situação começava a ficar tensa. Estava claro que a função do assistente era incomodá-lo com provocações e piadinhas, enquanto o inspetor analisava suas reações. Orlando chama copeira:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Traga uma garrafa de café, uma de água e alguns biscoitos para as visitas... Creio que a conversa será longa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Nenhum detalhe gestual escapava dos olhos argutos do inspetor. O assistente insistia em se comportar de forma insolente, tanto que acedera um cigarro e, a pretexto de encontrar um cinzeiro, remexia nos objetos, por fim resolveu bater as cinza sobre o vaso de orquídeas. Cultivar orquídeas é uma paixão na vida de Orlando. Nada disso havia sido combinado entre o assistente e o inspetor. Poderíamos dizer que ocorria um belo improviso naquela biblioteca.    &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;    &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Senhor Orlando, não sei se está acompanhando o caso envolvendo a morte do secretário do meio ambiente...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Superficialmente!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Isso é espantoso, deveria ficar mais a par do processo...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O investigador interrompeu a frase para ficar olho a olho com o suspeito. Orlando não se esquivou, ao invés disso tentou penetrar fundo nos olhos do seu oponente. Era um homem inteligente, do tipo que arranca uma confissão sem tocar no colarinho do condenado. Desde de já lhe parecia desnecessário buscar a folha corrida do inspetor, ele respira honestidade por todos os poros – mas não custa nada fazer o dever de casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Afinal, o secretário vinha movendo um processo contra a empresa que o senhor representa juridicamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Essa informação foi suficiente para provocar uma fagulha de tremor no coração de Orlando. Afinal, sua ligação com Marinho &amp;amp; Santos era confidencial. Isso só poderia significar uma coisa, há um informante dentro do grupo. A constatação mudava por completo a cena e a sua atuação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: O senhor manteve algum contato com a vítima, algum encontro...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Nós encontramos apenas uma vez...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Encontro amigável, suponho!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando se levantou para fechar a porta da biblioteca, depois fechou as outras janelas. Voltou a sentar em sua cadeira, diante do investigador. Se isso fosse um jogo, se chamaria “desafiando o desafiador”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não foi uma conversa amigável. E nós não discutimos negócios.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Três testemunhas presentes no bar, local em que a vítima foi vista pela última vez com vida, asseguram que o senhor sacou uma arma. Por quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Imagino que o senhor deva conquistar muitas mulheres?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: Aí, chefe, o cara gamou!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Pergunto isso porque tem um jeito muito doce de intimidar. Tive uma discussão particular e ela não foi a causa da morte.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: Diz aí, só pra gente: o ambientalista tava pegando a sua amante...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: O senhor poderia, apenas para esclarecermos os fatos, dar o nome e o endereço da mulher que estava presente e, pelo visto, foi o motivo da discussão?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não. Sou um homem casado e não vou me expor dessa forma. Qualquer declaração, daqui em diante, só concedo em juízo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Pois bem, como queira... Vamos embora, lamento ter interrompido seus afazeres. Boa tarde!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;                Da janela, Orlando acompanhava a partida dos oficiais. O assistente falava e gesticulava freneticamente, o inspetor anotava algo em sua caderneta. Eles entraram no carro e partiram. Não restava nenhuma dúvida: ou o escritório no qual tivera a reunião com os membros da construtora estava grampeado ou há, entre eles, um traidor.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;                Em meio ao silêncio em que caíra, seu celular soou como as trombetas do apocalipse. Olhou o identificador de chamadas. Era o detetive que contratara para uma missão particular. A última vez que o encontrara, o havia espancado, porque tentara enganá-lo por causa de uma dívida de jogo. Não havia pior hora para ligá-lo; no entanto, o trabalho para o qual foi contratado está acima de tudo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Alô... Espero que não esteja tentando me enganar outra vez!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Eu a encontrei! Tenho certeza que encontrei a sua mãe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(a seguir: &lt;em&gt;só as mães são felizes&lt;/em&gt;).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-457406440790706170?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/457406440790706170/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/08/malditos-cap-xiii.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/457406440790706170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/457406440790706170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/08/malditos-cap-xiii.html' title='Malditos - Cap. XIII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-8232004434615742124</id><published>2009-07-25T10:22:00.000-07:00</published><updated>2009-07-25T11:04:26.452-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos - interlúdio</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;comunicado &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;o autor desse blog está desaparecido há semanas&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;suspeita-se que tenha sido sequestrado pelas forças ocultas&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;qualquer informação sobre seu paradeiro é válida&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-8232004434615742124?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/8232004434615742124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/07/malditos-interludio.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/8232004434615742124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/8232004434615742124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/07/malditos-interludio.html' title='malditos - interlúdio'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-6462931269187073873</id><published>2009-06-26T11:29:00.000-07:00</published><updated>2009-06-26T11:56:19.019-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Maldidos - Cap. XII</title><content type='html'>&lt;em&gt;Porfiri Pietróvitch&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Olá ouvintes da rádio KL9mil sintonizados no programa Mitos do Rock. Hoje contaremos a história do último poeta romântico do rock’n roll: Marc Bolan. Ele morreu em um trágico acidente de carro, quando ia ao encontro de sua mulher, que acabara de aceitá-lo de volta, depois de um ano de separação. E para começar, vamos ouvir “Buick Mackane”. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;                 Buick, Buick, Buick Mackane&lt;br /&gt;                 Will you&lt;br /&gt;                 Buick Mackane, will you be my girl&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Parafuso aumentou o volume do rádio no carro, talvez assim sua mente agitada se acalmasse. Finalmente chegara o dia de comparecer ao depósito da polícia federal, uma espera de pouco menos de 72 horas. Porém, enquanto aguardava ansioso, um fato novo surgiu, a confirmar uma velha máxima. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;                  Rainy lady, Queen of the Rock&lt;br /&gt;                 Will you help me roll&lt;br /&gt;                 Help me roll to my soul&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;No desejo, um dia todos erram, erraram e errarão sempre. Pois o desejo confunde os sentidos. E alguns só aprendem com o erro. Em resumo, esse era o argumento que Parafuso recorria para tentar amolecer o duro coração de sua ex-esposa. Mas nos últimos meses, já exausto e desmotivado, vinha aceitando a separação como fato consumado e definitivo. Até ontem à noite, quando Mirela o procurou, menos ressentida, disposta à reconciliação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Então, vejamos como o destino joga. No mesmo momento em que surge um prenúncio de paz, Parafuso dirige em direção à sua perdição. Por que aceitou participar dessa trama macabra se, desde o início, a achou arriscada e perigosa? Porque sua vida estava vazia. No final da tarde, era comum vê-lo fitando o nada, olhar tedioso e imóvel. A proposta de Orlando reacendeu a antiga chama, o ancestral apetite pela destruição. O dinheiro também foi estimulante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estacionou o carro em frente ao depósito. Faltavam cinco minutos para o horário combinado. Um imenso peso caiu sobre sua nuca. Uma poderosa corrente de adrenalina circulava pelo seu corpo. Depois, surgiram os tremores. Estava completamente tomado pelo sentimento de fuga: a vontade de voltar atrás, desfazer, viver em outro lugar diferente do presente. Ao caminhar para a entrada, evitava pensar na possibilidade de uma confissão, revia as alternativas, buscava respostas ideais para perguntas imaginárias. No meio de tudo isso, a imagem reconfortante de sua esposa e sua filha. Não podia tombar, não podia tremer. Abriu a porta com dificuldade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dentro do depósito, o inspetor Benedito Manso o aguardava. Seu assistente não entendia a estratégia do chefe. Para ele, era muito mais prático – e ortodoxo – intimar o suspeito. Para quê convocá-lo como “colaborador”? Talvez o investigador-chefe estivesse levando longe demais seu gosto pelo teatro. Nada disso, contudo, incomoda o mestre. Não é a confissão que interessa, mas o modo como se a obtém. É preciso sentir o cheiro da culpa, para depois fisgar o culpado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: Nosso homem chegou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O inspetor analisou Parafuso a cada passo, visivelmente vacilante, as mãos nos bolsos para controlar o nervosismo. Eles se cumprimentam.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: É um profissional pontual. O senhor foi muito prestativo em aceitar o convite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E como recusar sem que isso não significasse uma confissão prévia? Eis as sutilezas intelectuais do investigador.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Vamos lá ver a máquina.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Logo assim que viu o carro do ambientalista, Parafuso sentiu uma angustiante vontade de fugir. Por alguns segundos se imaginou voltando correndo para a entrada, os policiais atirando, ele saltando sobre o muro, ligando o carro, pegando a esposa e a filha, acelerando em alguma estrada perdida. Antes que fosse mais além em suas fantasias, Benedito Manso o segurou pelo braço. A esse gesto inofensivo, Parafuso reagiu com susto, fosse porque o despertasse do sonho, fosse porque anunciasse o futuro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Veja em que estado ficou... Completamente destruído. Nossos técnicos estavam prestes a desmontar o motor, quando pensamos no senhor... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O inspetor virou para o assistente e pediu para chamar os técnicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: São seus fãs! Será um grande aprendizado vê-lo trabalhar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O carro estava localizado no centro do galpão, três holofotes iluminavam todo o interior do motor, nem uma mosca passaria desapercebida. Antes de iniciar sua análise, sete policiais cercaram o especialista. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parafuso vasculhava o interior do veículo. Devido à tensão ou ao hábito, como este ato falho: abriu rapidamente a caixa de ferramentas e... retirou uma pequena lanterna! Essa cena provocou olhares risonhos entre os oficiais. Houve até um que falou baixinho: &lt;span style="font-size:78%;"&gt;“Por que a gente não prende logo ele”&lt;/span&gt;. Era tudo uma farsa, menos o suor descendo pelo rosto do mecânico. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Nossos mecânicos trabalham com a idéia de que houve uma falha no sistema de freios... Mas também há a hipótese de ter havido um curto no sistema elétrico. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele ouviu essa explicação como um condenado à forca sentindo a corda cair sobre seus ombros. Nada mais lhe passava pela cabeça. Era óbvio que haviam descoberto a sabotagem no automóvel. Chegaram através de Diana. Ela foi a última pessoa a ser vista em público com o ambientalista. Provavelmente, estava sendo seguida. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Deveria ter comparecido com um advogado, mas como tinha sido convidado, chegar com um significaria confissão prévia. Estava tudo claro. Réu confesso antes da confissão. Armadilha muito bem armada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Resignado, Parafuso corria as mãos sobre as peças familiares do motor, lembrava de sua infância. Na sua memória o sol brilhava em um momento na praia, quando tinha dezesseis anos e irradiava felicidade. Então, quando as luzes do passado se apagaram, seus olhos voltaram-se para a realidade, pousando, talvez aleatoriamente, sobre o eixo de direção, e notaram uma larga rachadura, envolta em...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: FERRUGEM!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tomado de alegria, Parafuso puxava os policiais pela gola, para mostrar sua descoberta. Um espectador alheio veria na animação do mecânico um comportamento típico dos especialistas, que ficam para lá de empolgados quando resolvem um problema insolúvel para os leigos. Como um professor orgulhoso, mostrava para os alunos os sinais de ferrugem e suas consequências...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Olhem, o pó tomou conta de toda essa área. O eixo de direção praticamente rachou por completo, por causa disso o motorista perdeu o controle – estava em uma curva?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O inspetor assistiu a cena surpreso e interrogativo. Como esses imbecis não perceberam isso? Há algum tempo seu assistente vinha desconfiando de dois agentes. Por outro lado, ver a demonstração de alívio do mecânico, confirmava todas as suspeitas. E ele tinha motivos para estar feliz. Afinal, quando prestar seu depoimento em juízo, alegará ao mal estado do veículo a causa do acidente. Não deixou de achar irônico o final: um ambientalista morreu ontem à noite, quem o matou? A Renault. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parafuso estendeu as mãos triunfantes para se despedir do inspetor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Creio que minha missão foi cumprida... Ou ainda há outras dúvidas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele encarou o detetive com uma certa arrogância e desprezo mal disfarçados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Pode ir! Como prevíamos, sua contribuição foi valiosa para a investigação. Gostaríamos apenas de arrolá-lo como depoente no encerramento do processo, portanto, qualquer viagem para fora da cidade, o senhor deverá nos comunicar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Estou a inteiro dispor da justiça. Boa-tarde!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Parafuso se dirigia saltitante para a saída, o assistente virou para seu superior.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: Ele deu sorte nessa, não?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O inspetor o ignorou, chamou o responsável pela perícia e o indagou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: É possível que essa rachadura tenha causado o acidente?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Perito&lt;/strong&gt;: É uma possibilidade remota... Mas nesse caso, não haveria capotamento... Teremos que voltar ao local do acidente... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O investigador fechou o capô do carro, secou o suor do rosto e coçou a cabeça. Os outros policiais se retiram, deixando-o apenas com seu assistente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assistente&lt;/strong&gt;: E agora, vamos intimar o peixe-grande, o tal Orlando?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor&lt;/strong&gt;: Sim. Porém, ele é o filhote, o peixe-grande é o sogro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(&lt;strong&gt;no próximo capítulo&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;Orlando, um homem de família&lt;/em&gt;). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-6462931269187073873?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/6462931269187073873/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/06/maldidos-cap-xii.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6462931269187073873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6462931269187073873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/06/maldidos-cap-xii.html' title='Maldidos - Cap. XII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-1887518308861738082</id><published>2009-06-14T13:47:00.000-07:00</published><updated>2009-06-14T14:07:28.785-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. XI</title><content type='html'>&lt;em&gt;Mr. Crowley&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;             A governanta perguntou outra vez para Elias:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: O senhor precisa se alimentar, desde ontem sentou nesse sofá e não fez outra coisa além de ver o vídeo do seu aniversário. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ela se sentia responsável pelo seu bem-estar, preocupar-se com ele é uma função que exerce há tantos anos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Durma um pouco, dê um descanso para os olhos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Preciso enxergar.     &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;    &lt;br /&gt;            Elias sempre a ouviu, sua voz protetora o acalentou em vários momentos de tristeza. Mas o tempo da boa fortuna se foi. Agora é preciso aprender a ver melhor, ouvir melhor, viver melhor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Pelos menos, abaixe um pouco o som, já ouvi o suficiente os lamentos do sr. Robert Johnson.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Vá descansar. Não há mais nada que possa fazer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Há dois dias e três noites, logo após o frustrado ritual, Elias não parou de ouvir as gravações do cantor do Mississipi, que vendera a alma ao demônio e morreu envenenado aos vinte e sete anos. É a trilha incidental para sua festa de aniversário projetada no plasma da tv.&lt;br /&gt;   &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;         No seu sétimo aniversário, duas coisas extraordinárias aconteceram, sendo uma delas capital para o futuro de Elias. O primeiro evento o aterrorizou. Um dos garçons, que também trabalhava como coveiro, sofreu um colapso nervoso. Sem nenhuma explicação, começou a quebrar os copos e garrafas. As mães assustadas vendavam os olhos ou tampavam ouvidos dos filhos. Os empregados não conseguiam acalmar o louco, que descalço andava sobre cacos de vidro, gritando as seguintes palavras: “eu sou um instrumento... um instrumento do poder... o poder conjurado... Aqui! Na sua presença”. E apontava para o convidado especial. Ele – o Maestro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A presença do Grão-Mestre da Ordem era significativa do prestígio da família, porém, Ele não se encontrava lá devido a honrarias fúteis. Não tinha tempo para isso. O pai do aniversariante havia solicitado uma visita, queria que o Maestro avaliasse o talento do filho para a música.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A criança foi conduzida a outra sala, longe dos convidados. Seu pai:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pai&lt;/strong&gt;: Filho, este é o grande mestre. Ele está aqui para ouvi-lo, toque para nós.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O filho, percebendo a importância da audiência e não querendo decepcionar o pai, tocou da melhor forma que sabia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O Maestro ouviu com atenção.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Maestro&lt;/strong&gt;: Bom... Continue... Continue.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O rosto do Maestro não se assemelhava a nada. Todos nós repetimos alguns padrões faciais, semelhanças físicas. E sua voz, uma melodia estranha, sinuosa, exalava um hálito gelado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Enquanto tocava, o mestre segurou sua mão esquerda, começou a lhe ensinar novos acordes e escalas. Depois a largou, o menino improvisava empolgado. Subitamente, Ele começou a cantar estas letras:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span &gt;                                 &lt;em&gt;If I had possession &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;em&gt;                                 over judgment day&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;em&gt;                                 If I had possession over judgment day&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;em&gt;                                 Lord, the little woman I'm lovin' wouldn't &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;em&gt;                                 have no right to pray &lt;/em&gt;     &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span &gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;            Hoje, o homem maduro procura no menino as pistas para o desengano que tem sido o seu destino.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;           A governanta volta a sala, e dessa vez não é recebida com a cordialidade de antes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O que foi agora? Já não lhe disse que não preciso de nada!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Senhor, a jovem Ana está na portaria insistindo para vê-lo. Não seria uma má idéia atendê-la...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias:&lt;/strong&gt; Hum! Está bem. Vou recebê-la.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;              Enquanto Ana era recepcionada, Elias caminhou até o bar, abriu o uísque, encheu o copo até o meio, jogou duas pedras de gelos e fez o som da cascavel.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            A governanta notou algo diferente em Ana, porém não sabia precisar o exatamente o que era, talvez fosse a ausência do gato.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Olá!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Elias percebeu logo um brilho novo em seu olhar. Talvez fosse o jeans e a camiseta, pois antes a vira com uma vestimenta mais marcante. O cabelo longo foi raspado. Era outra aparência.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Não esperava visitas...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Eu sei. Estou há dois tentando falar com você.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Elias voltou os olhos para a governanta, que em um gesto maternal os deixou a sós. Finalmente dormiria descansada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: E qual é o motivo da sua insistência em falar comigo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Eu rompi com a Ordem.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Acho que você deveria fazer o mesmo!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Você está louca! Tenho vínculos ancestrais...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Estava sendo preparada para ser alta-sacerdotisa, não há vínculo maior e mais ancestral que esse. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A firmeza na expressão o confundia. O que ela dizia traduzia uma série de pensamentos perturbadores e inexplicáveis para ele. Idéias desconexas e covardes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Por que está me dizendo isso?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: A Ordem não pode te dar mais nada além de sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: A vida é sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Não! A vida é iluminação. Você está nas sombras...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Por favor, vá embora!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Você deve sentir o que estou te dizendo... Eu vim aqui para te pedir para se juntar a mim, juntos podemos trilhar um outro caminho.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias:&lt;/strong&gt; Como eu poderia romper com Ordem?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Abdicando de tudo o que conquistou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Elias olhou em volta do seu apartamento, o disco de ouro no centro da sala, a festa do seu aniversário no projetor, seus familiares e o garçom...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Deve estar confuso, é natural... Aqui está meu telefone, se quiser vir comigo... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Sem dizer mais nada, ela lhe deu um beijo no rosto e partiu. Elias desligou o som, o aparelho de dvd. Tragado pelo silêncio, refletia sobre cada palavra que ouvira, imaginando suas conseqüências. “Talvez a morte fosse a melhor solução?”.       &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(&lt;strong&gt;a seguir&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;Parafuso enquadrado&lt;/em&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-1887518308861738082?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/1887518308861738082/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/06/malditos-cap-xi.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/1887518308861738082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/1887518308861738082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/06/malditos-cap-xi.html' title='Malditos - Cap. XI'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-5414794514179581109</id><published>2009-05-25T11:35:00.000-07:00</published><updated>2009-05-25T11:46:18.314-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos - Cap. X</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Perdas e danos&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Em busca do poder, Orlando trabalha para ser aceito por uma poderosa Ordem, porém terá que provar seu valor. Na sua jornada, envolveu um amigo e um amor do passado em um assassinato. Para ele, seu plano foi perfeito. Agora há um inspetor investigando seu comparsa, Parafuso, que acabou de entrar ofegante no escritório de Orlando. Esse não é o mundo da literatura realista dos anos 2000. Este é o mundo de &lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;malditos&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Preciso te contar como foram as minhas últimas quatro horas. No final, espero que entenda a situação em que me colocou e o preço que isso vai te custar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando ouviu o mito da cambaxirra e todos os blábláblás. Supersticioso demais. Quando mencionou o nome de Diana, se sobressaltou, ouviu atentamente cada palavra, pediu para repetir partes, confirmou impressões. Parafuso só não contou sobre a desconfiança dela. Isso era “segredinho de casal”. Por que ela o procurara? Aquela mulher usa um repertório infinito de recursos para obter qualquer coisa de um homem. Ainda mais um apaixonado. Portanto, o que estava acontecendo no escritório de Orlando não era bem uma conversa, mas um jogo de gato e rato.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: E vamos ao pior, ao superlativo. Depois que Diana saiu, um inspetor da polícia federal apareceu, adivinha para quê?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Algo relacionado ao acidente? Ou às suas atividades “extracurriculares”?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Você está tirando onda com a minha cara, mas vai comer aqui... Na palma da minha mão.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vai confessar sua participação na sabotagem de um carro, resultando em um acidente fatal?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Se essa for a última saída, sim! E não me venha falar em amizade, porque a jogou no lixo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você foi intimado?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Fui convocado a “colaborar”. Quer saber como?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto Parafuso explicava o convite para comparecer ao depósito da polícia federal, daqui a dois dias, para analisar o carro sabotado, a mente ágil de Orlando procurava, entre uma lista de rostos, um no departamento de investigação. Teria de ser alguém com teto de vidro, que não pudesse chantageá-lo no futuro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você presta serviço para muitos policiais, talvez tenha sido uma coincidência.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Por acaso existe acaso?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: É...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Eu quero duas coisas de você: proteção e dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Sabe que sou um cara muito precavido...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não tem parecido!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando:&lt;/strong&gt; Mas sou! Em todo plano, algo sai fora do previsto, porque não há como prever. Quando elaboro alguma coisa, começo pelo pior, e trato de evitá-lo desde o início, arranco a vitória das garras da derrota. Estou ciente sobre os seus gastos com a ex-esposa, a pensão para os filhos, entendo porque age dessa forma.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Esse inspetor reabriu a investigação sobre acidente do ambientalista, até o fim desse caso, eu quero sete mil reais em dinheiro, por mês, aqui na sua sala, a partir da data de hoje. E não estou agindo assim por mesquinhez, mas por profissionalismo, já que ser investigado pela polícia federal não estava no nosso contrato.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Está certo, certíssimo! Só espero que essa seja a última condição para sua “colaboração”. Caso contrário, vou passar a chamá-lo de &lt;em&gt;prego&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Depois disso, reinou o silêncio e um clima de animosidade. Ofensas implícitas foram trocadas, uma antiga amizade ganhou rachaduras em sua base, não houve abraços ou cumprimentos gentis na despedida. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;               Olhando as pilhas de papéis sobre sua mesa, Orlando imaginou uma cidade medieval. A torre mais alta – os processos relacionados a Ordem – o castelo. As pequenas pilhas – os processos conjugais e afetivos – as humildes casas de seus moradores. Em sua cidade não existia prisão. A cabeça doía. Tomou dois analgésicos junto com uma enorme xícara de café. Notou algo novo em seu organismo: mesmo vivendo uma situação de tensão, não sentiu vontade de fumar. Olhou para o relógio, consultou sua agenda, riscou todos os compromissos. Pegou as chaves do carro decido a encontrar Diana imediatamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            No caminho, Orlando sentiu remorso. Muito remorso remexido com medo. Diante do Destino e seu jogo misterioso, é muito difícil não tremer. Era comum, na Idade Média, pintar os seres humanos como fantoches do Destino. Enquanto dirigia, sentiu vontade de voltar ao tempo, desfazer, escolher outro caminho conduzindo à liberdade. Ao invés disso, vivia um momento de arrependimento, o primeiro sinal de fraqueza humana. Então, projetou duas realidades possíveis: uma na qual está comemorando sua consagração; outra que não conseguia imaginar. Essa capacidade de projetar sempre a vitória chamou atenção da Ordem para sua vocação. Nós chamamos isso de otimismo, eles chamam de positivismo. E nós podemos aprender muito da essência do positivismo observando o movimento de Orlando diante das conseqüências dos seus atos: um primitivo em fuga sentindo o bafo do mamute na sua nuca.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Diana cuidava dos pés de rosa no seu jardim. Sua empregada a auxiliava. Junto com elas um bebê no seu carrinho protegido do sol. Uma estranha planta estava se alastrando, como uma espécie de trepadeira, se alojando no tronco e caules de outras plantas. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Nunca vi... Você conhece?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empregada&lt;/strong&gt;: Conheço não senhora!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: A roseira está seca... Essa planta é uma parasita!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empregada:&lt;/strong&gt; Tem alguém chegando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            O barulho do motor do Mercedes de Orlando assustou a todos, principalmente o bebê, que começou a chorar. Ele saiu do carro como um raio, em segundos já estava diante de Diana, que ainda segurava nas mãos a estranha planta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Olá... A gente precisa conversar&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ele olhou surpreso para o bebê no colo da empregada, que o fazia parar de chorar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: É a filha da minha empregada. Você a assustou. Vamos conversar no salão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Era impressionante o modo como Diana transformou um sítio abandonado em um lugar de calma e paz. Olhando para variedade colorida de flores, roseiras, pés de goiaba, o som doce do riacho que corre além bosque, Orlando pensava: “É. O senador foi generoso”. Mas é sempre bom desconfiar da generosidade de um sovina. O sítio caiu nas mãos do senador. O casarão pertenceu inicialmente a um grande comerciante do século XIX, segundo as más línguas, traficante de escravos, enfim... O imóvel foi passando de geração a geração até que o perderam em uma mesa de pôquer. O senador fez algumas melhorias no início, mas logo desistiu do lugar. Ele tentou vendê-lo, poucos demonstram interesse devido ao modo como fora adquirido. Como o imóvel não constava em sua declaração de bens, e a oposição mordia seus calcanhares, o político começou a considerá-lo um elefante branco. No final das contas, o sítio foi útil para agraciar uma bela dama com um presente a altura.  &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Ao chegar ao salão, Orlando não se conteve mais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você acha que eu matei o ambientalista?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Parece que já admitiu isso para si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Quem matou aquele homem foi você!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Diana não se conteve, com os olhos lacrimejando e as palavras cheias de raiva.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: FILHO-DA-PUTA!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando se levantou com mais raiva e a esbofeteou. Ela caiu sobre o sofá chorando. Diante do ato impensado, ele se jogou aos seus pés.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Por favor, confie em mim... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ela o afastou, enxugou as lágrimas, respirou fundo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Você mudou muito...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Preste atenção: foi um acidente.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Tramado por você. Eu vi o Parafuso...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Quer saber o que eu planejei: você entregaria o pó para ele, quando estivesse voltando, o carro ia quebrar, eu o seguiria, chamaria um agente nosso da civil, o ambientalista seria revistado, preso por porte de droga, acabou.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Não sente culpa?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não! Eu não o matei. Foi ele que se matou! Com a sua ajuda. Por que deu conversa para ele? Por que não entregou a encomenda e saiu como o combinado?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Queria saber porque ele havia virado seu inimigo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Veja bem: ele se matou. Vamos voltar a cena. Eu lhe apontei uma arma, tirei você dos braços dele, o que fez? Poderia ter voltado ao bar, o mais sensato, chamado os seus amigos, a polícia e o escambau... Mas o que ele fez? Entrou no carro para dar mais uma cheirada... E depois saiu como um louco pela estrada. Não demonstrou nenhum apreço pela vida.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Que pessoa estranha você está engendrando dentro de si.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando nada respondeu, apenas olhou além do horizonte, com uma única convicção: é impossível voltar atrás, e o que está traçado, deverá ser cumprido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; (a seguir: &lt;em&gt;Welcome Mr. Robert Johnson&lt;/em&gt;)   &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-5414794514179581109?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/5414794514179581109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/05/malditos-cap-x.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/5414794514179581109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/5414794514179581109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/05/malditos-cap-x.html' title='malditos - Cap. X'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-2436553765428970014</id><published>2009-05-13T17:57:00.000-07:00</published><updated>2009-05-13T18:13:59.314-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos - Cap. IX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Todos têm um segredo, menos Lennon e seu macaco&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Sentado com os pés sobre a mesa, Parafuso abria o jornal do dia, quando uma cambaxirra voou através da janela e pousou sobre uma viga de madeira no lugar mais alto da sala.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Maldição.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O mecânico levantou rápido, enrolou o jornal em forma de cone e, aos pulos, tentou espantar o pássaro agourento. Seu pai lhe ensinou que o canto da cambaxirra trazia azar. Parafuso correu até a janela, após afastá-la, para se certificar se estava longe dos seus domínios. Depois olhou para baixo, para fiscalizar o trabalho dos seus empregados. Um deles trabalhava na suspensão de um Renault, quando uma garota de minissaia passou pela calçada. Ele fez uma gracinha, ela fez um sinal obsceno, os outros mecânicos riram, o estepe se desencaixou e o carro desceu pela calçada assustando os passantes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Puta-que-pariu!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O chefe jogou o jornal de lado e furioso desceu as escadas. O hilário acidente impediu que ele lesse a seguinte notícia: &lt;span &gt;&lt;em&gt;Associação de pescadores não aceita a hipótese de acidente.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Porra, ninguém trabalha direito!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empregado&lt;/strong&gt;: Pô, chefe, não sei o que aconteceu...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Você não calçou as rodas traseiras... Que burrice!... Quase matou aquela velhinha do coração! Como está o carro?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto checava o veículo, os outros empregados tiravam sarro com o colega burro: “Foi gastar a cocata” “É muito otário!”. “A garota derrubou o macaco com a força do pensamento!” “É a Jean Grey!”. “Ooolha issooo!” Parafuso voltou sua atenção para a origem do espanto dos empregados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Que surpresa!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Queria conversar com você.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Vamos para o meu escritório.   &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Diana detestou o ambiente. Era difícil andar entre as caixas com peças, as pilhas de bateria, o arquivo com as gavetas abertas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Desculpe a bagunça... Pronto! Sente aqui... Então, aconteceu alguma coisa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Antes de responder, ela procurou nos olhos do mecânico o antigo e reprimido sentimento. Parafuso a achou mais bonita do que antes, quando a conheceu, como namorada do seu melhor amigo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Leandro... Estou preocupada. Acho que Orlando me envolveu em uma situação perigosa. Por isso vim aqui, você sabe em que estamos envolvidos?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Como?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Por favor, diga pelos menos algo que me tranqüilize.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não estou te entendo...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Eu te vi, naquela noite, entrando no carro do ambientalista, saindo, e depois voltando... Te vi entrando e saindo do bar... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ainda fingindo, Parafuso voltou à cena do crime, tentando imaginar em qual lugar ela poderia ter se escondido?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Você ficou bastante tempo do outro lado da rua, meio nas sombras, antes do bar abrir. Tinha um carro na frente da árvore, lembra? Você até fumou um cigarro encostado nele. Eu estava lá dentro, deitada no banco de trás, coberta com uma manta negra, protegida pelo vidro escuro.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Ali era realmente o melhor ponto de observação.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Leandro, em que estamos metidos?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não estou envolvido em nada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: ESTÁ SIM! Você participou de um assassinato.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Fale baixo, pelo amor de Deus! Não diga essa palavra! Eu não sei, juro! Mas vou procurar saber. Agora fique calma. Quer uma bebida?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Uma água... Se houver algum copo limpo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto Diana se acalmava bebendo água gelada direto da boca da garrafa, um estranho senhor chegou à oficina. Ele se vestia de modo antigado, usava um lenço para secar o suor do rosto, tinha uma barba grisalha bem cuidada, bochechas levemente rosadas e um olhar bonachão. O tipo se dirigiu a um dos empregados. Este gritou para alto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empregado&lt;/strong&gt;: Chefe, tem um cliente aqui embaixo... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso se encheu de raiva depois de ouvir o grito estridente, pois interrompeu um raro momento de privacidade e cumplicidade com a desejada mulher.      &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana:&lt;/strong&gt; Vou indo&lt;strong&gt;...&lt;br /&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Deixa o número do seu telefone... Caso eu descubra algo novo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana:&lt;/strong&gt; 6016-3306.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Vou te acompanhar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;            &lt;/strong&gt;Ao passar pela porta, Parafuso adotou a convenção do cavalheiro: “primeiro as damas”. Diana aceitou e desceu a escada com um sorrisinho satisfeito, enquanto ele olhava para sua bunda. O cliente os esperava no último degrau da escada. Parafuso o encarou com implícita antipatia.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso:&lt;/strong&gt; Só um minuto, vou levá-la até o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Antes de abrir a porta, Diana se despediu do velho amigo, deslizando a mão pelo rosto dele, o olhou com ternura e lhe deu um beijo no canto dos lábios.&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana: &lt;/strong&gt;Vamos voltar a ser amigos... Precisamos confiar um no outro, porque não confio mais no Orlando.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Não se preocupe. Eu juro.&lt;/div&gt;&lt;strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;            O cliente os observava curioso como um biólogo ao descobrir uma nova espécie. Parafuso se aproximou:&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Pois não, em que posso lhe ser útil?&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O senhor ensaiou um clima amistoso. Observando os empregados, os vários carros na oficina, simpático brincou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cliente:&lt;/strong&gt; Vejo que a crise internacional não chegou ao seu terreno.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Que crise? Não há crise nenhuma. Os donos dos jornais - esses sim! – ganham dinheiro com essa crise.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso parou no início da escada, encostou o braço sobre o corrimão, fitou sério o cliente, jamais o levaria para o seu escritório. Qualquer negócio resolveria ali mesmo, no meio da graxa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Cliente: &lt;/strong&gt;Eu o procurei em busca de uma opinião técnica, afinal o senhor é “o melhor mecânico da cidade”. A fama precede o homem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso o ouvia com visível impaciência: “Eis aqui um sujeitinho cheio de rodeios!”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cliente: &lt;/strong&gt;Oh, perdão, ainda não me apresentei. Meu nome é Benedito Ramos Soares Manso, sou Inspetor da Polícia Federal, fui convocando para retomar as investigações sobre o acidente que vitimou um funcionário da prefeitura, parece que algumas evidências ainda estão nebulosas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A cada palavra o coração de Parafuso batia mais forte, ao final da apresentação, seus batimentos estavam mais rápidos do que o piscar dos seus olhos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso:&lt;/strong&gt; Podemos conversar no meu escritório. Acho mais apropriado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O mecânico voltou a subir as escadas, tentava controlar o nervosismo, mas só em imaginar (e não conseguia pensar em outra coisa) que, talvez, o inspetor já estivesse na oficina quando Diana falou aquela palavra... Esse pensamento o fazia suar frio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Por favor, sente-se.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor:  &lt;/strong&gt;O senhor está com frio? Parece que está tremendo...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso:&lt;/strong&gt; Não! Ah, sim... Uma pequena infecção na garganta... Estou tomando um antibiótico... Eu ainda não tomei o comprimido... Muito trabalho... Só vou pegar o comprimido... Aqui está!... Uma água, uma água... Pronto!... Pois bem...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inspetor: &lt;/strong&gt;Não coloque o trabalhe acima de sua saúde. Não vou tomar mais o seu tempo. O senhor poderia prestar uma colaboração à investigação, analisando o carro da vítima, seu talento é uma unanimidade, por isso será de grande valor uma opinião eminente e definitiva... Poderíamos agendar um dia?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso:&lt;/strong&gt; Sim... Estou ao seu inteiro dispor.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;            &lt;/strong&gt;O inspetor anotou o dia e o horário, mas seus olhos não estavam na agenda. Parafuso, em curtos intervalos, coçou várias vezes a cabeça. Isso era digno de nota. Por fim, o agente, sempre simpático, se despediu com um forte aperto de mão. O mecânico ficou alguns minutos sentado, enquanto o oficial descia. Tão logo se certificou da partida, correu para a porta e a fechou aflito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso andava de um lado para outro, derrubando caixas, espalhando peças pelo chão, buscava organizar os pensamentos, enfim, lutava contra o medo. Profundamente supersticioso, procurava respostas através de sinais. Estranha coincidência. Diana e a polícia aparecem no mesmo dia e na mesma hora. Será que a seguiram? Sim! Claro! Eles já sabem tudo. Eles não sabem nada. Não há nada. Não há impressões digitais. Ninguém o viu? Ela. Não! Todos a viram com o ambientalista no bar. Orlando... Orlando!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O mecânico pegou as chaves do carro, desceu correndo os degraus, chamou seu empregado de confiança: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Ó Camundongo... Vem cá! Dá uma lubrificada no meu rifle Rossi e o deixe em cima da mesa no meu escritório... Depois feche a oficina, vou demorar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Parafuso saiu acelerando o Maverick preto. No primeiro sinal vermelho, colocou uma música para se acalmar – &lt;em&gt;Evil woman&lt;/em&gt;, Black Sabbath. Pisava fundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso: &lt;/strong&gt;Maldita cambaxirra!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt; (no próximo capítulo:&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;causa e conseqüência&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;).&lt;/strong&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-2436553765428970014?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/2436553765428970014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/05/malditos-cap-ix.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/2436553765428970014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/2436553765428970014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/05/malditos-cap-ix.html' title='malditos - Cap. IX'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-5989624587747158077</id><published>2009-05-01T12:22:00.000-07:00</published><updated>2009-05-01T13:31:11.157-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos - cap. VIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Almas gêmeas&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora são dezoito horas e trinta minutos. O céu vermelho de outono enegrece. O vento frio balança as cortinas das poucas janelas abertas. Os fantasmas chegam com a noite. Elias está sentado no centro da sala de sua cobertura. Ele vê as luzes da cidade se acendendo junto com o primeiro brilho das estrelas, a consciência voltada para o passado. Em suas mãos, o retrato da esposa. Ela está radiante. Dezoito anos. Verão na praia. A foto foi tirada no dia em que se conheceram. Eternamente linda. “Qual o seu nome?”. “Anita”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Elias e Anita eram primos, mas nunca tinham se visto até aquelas férias. A família conspirou para o encontro. Os longos passeios à tarde, as expedições em busca de lugares exóticos, às noites regadas a vinho e violão. Ela adorava sua voz e foi conquistada por aquela doce melodia. Ele se sentiu imediatamente atraído pela beleza e desafiado pela inteligência da prima. Era perfeita.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O pai de Elias, um homem muito apegado aos costumes, era um ferrenho defensor da união entre parentes, para manter o sangue familiar limpo. Era bom que o filho homem casasse cedo, pois devido às suas tradições, deveria contar com a confiança absoluta da esposa, tal comprometimento não se consegue na união fora do restrito círculo. Há uma série de complicações: pertencendo a uma outra classe, também pertenceria a outro sistema religioso, o que implicaria em outro sistema moral. Para aceitá-la, precisaria se converter. Mas sobre o convertido sempre pairam desconfianças, a principal diz respeito à lealdade, pois se foi capaz de abandonar suas tradições para adotar outra, qual garantia de que não fará outra vez? Desde os dez anos, o filho ouvia esses ensinamentos, e nunca duvidou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O casamento foi festejado durante dois dias e três noites. Após a lua-de-mel, o casal dedicou seus primeiros sete anos de união ao cumprimento dos deveres para com a tradição, estavam ansiosos para realizar as obrigações espirituais e viver livres.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No sétimo ano de casamento, Elias entrou para a lista dos dez cantores mais ouvidos do país. O preço do sucesso foi as longas ausências de casa. Anita estava grávida. A gravidez, contudo, foi conturbada e dolorosa. A esposa sentia a falta do marido, que vivia viajando de cidade em cidade. Sentia-se abandonada. A família tentava esfriar a situação, esse era o trabalho dele, o sustento da família. Diante desse quadro, com todas as cores da tragédia, Elias decidiu encurtar a turnê. Seu empresário tentou dissuadi-lo, temia o desgaste prematuro da imagem. Mas o motivo, no final das contas, foi entendido pelo público como um ato nobre. Isso só aumentou seu fã-clube.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A criança nasceu sadia. Uma linda menina. Rita. Durante o primeiro ano de vida de sua filha, Elias montou um estúdio em sua casa, escreveu uma série de canções para violão, guitarra, percussão e piano. As canções foram lançadas no álbum &lt;em&gt;O mito de Sísifo&lt;/em&gt;. A crítica considerou o disco “sublime”. O público o abraçou como abraçamos parentes distantes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já Anita... Vivia no inferno. Os médicos chamaram de “depressão pós-parto”. A mãe tinha aversão pela filha, parecia sentir medo dela. Elias ouviu dos psicólogos vários relatos semelhantes. A causa para o distúrbio, quase sempre, se originava a partir de algum trauma durante a gravidez. Apesar do esforço dos terapeutas, mês após mês, Anita evitava ao máximo o convívio com a filha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em meio aos preparativos para sua volta aos palcos, Elias lutava para manter sua família integrada, a batalha ficou mais violenta quando Anita lhe propôs o divórcio. Ela só poderia estar louca. E não apenas o marido, mas o sogro e a sogra pensaram interná-la. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Anita parecia uma ruína. O olhar radiante virou uma expressão perdida e vazia. Uma magreza anoréxica tomou conta dos seus músculos. Vivia trancada em seu quarto, só saía de lá quando tinha certeza que a filha não estava. Nesses momentos, ia para o jardim, caminhava entre as plantas e conversava com o vento. Todos se perguntavam por que razão chegara a esse ponto. Só ela sabia a resposta. A ventura sempre cobra um sacrifício.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há dois anos, Elias chegou em casa após uma caminhada matinal. Perguntou a um empregado sobre a filha, já que não a encontrava em nenhuma parte da casa. “Ela está caminhando com a mãe pelo jardim”. Ao ouvir essa frase, o coração do pai gelou. Ele as procurou por cada canto verde do bosque em volta da mansão. Quando as encontrou: Ritinha estava de pé, segurando a barra do vestido da mãe, pendurada inerte no ar por uma corda em volta do seu pescoço. A pequena, ao vê-lo, disse: “Papai, a mamãe não quer descer”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desde o primeiro momento, quando seus músculos paralisaram e um clarão cegou seus olhos, Elias nunca entendeu a trágica cena. . Por quê? Ele vem se perguntando. Por que ignorou os sinais?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma noite, antes do desesperado ato, Anita acordou o marido e falando baixo, como um assassino, o puxou pelo braço até o quarto da filha. Ela dormia como um anjo iluminado pela lua. Apontando para criança, a mãe lhe disse: “É a culpada”. Quase não ouvia sua voz, como se suspeitasse ouvintes invisíveis. Passado o espanto, Elias analisou friamente aquela situação, o contraste entre a inocência e a loucura. Intimamente, escolheu a primeira. Não restava mais dúvidas, conversaria com os familiares e a internaria em uma clínica de confiança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após o suicídio da esposa adorada, Elias mergulhou em uma profunda depressão. Foi Pedro Cigano quem começou a resgatá-lo. Ele apareceu indicado pela Ordem, com a objetiva missão de guiá-lo de volta à luz, como Virgílio guiou Dante. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora encontramos Elias aqui, sentado em sua poltrona, com a fotografia da amada nas mãos, disposto a mais um sacrifício para trazê-la de volta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, a governanta surge na sala para anunciar a chegada de um convidado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Governanta&lt;/strong&gt;: Elias, o sr. Pedro Cigano está na portaria.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Peça para subir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele retira a foto do porta-retrato, a dobra e a coloca no bolso da calça. Vai até o bar e se serve de uma dose de uísque. Enquanto isso, a governanta recebe Pedro Cigano e Ana, a condutora, e os leva para a sala. Ana carregava no seu colo um gato branco. Mas o que chamou a atenção da serviçal foram os anéis nos dedos do Cigano.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: É quase meia-noite, está pronto?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Estou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Elias não conseguiu esconder seu espanto com o gato. Ana percebeu e logo tratou de esclarecer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: É meu animal de estimação, quero que vocês cuidem dele.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Vou pegar as chaves do carro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele preferiu ir dirigindo até o cemitério onde sua mulher está enterrada. No caminho, Pedro Cigano explicava os pormenores do ritual de transmigração de almas. Pelo espelho retrovisor interno, Elias observava Ana e seu gato. Havia em seu íntimo uma satisfação pelo fato dela ser tão bonita. Por outro lado, não conseguia compreender como alguém tão jovem se dispõe a querer viajar para o reino dos mortos. Outra suicida. Talvez essa fosse a simetria necessária para o ritual.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eles param na entrada do cemitério. Pedro conversou com o vigia, que abriu os portões. Faltam cinco para meia-noite. Caminhando entre os túmulos, o Cigano questionou Ana.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: Quando sua alma abandonar o corpo e penetrar no reino dos espíritos, será uma viagem sem volta. Pela última vez lhe pergunto: é sua vontade?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Sim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os três pararam diante do túmulo de Anita Augusta Soulbley. Meia-noite. A cerimônia nigromântica se inicia. Antes de ser despida e preparada, Ana passa o gato para Elias. Acariciando o animal, ele acompanha a condução do ritual. Pedro Cigano pronuncia palavras em uma língua que para Elias é latim, mas na verdade é aramaico. Á medida que as palavras são pronunciadas com intensidade e fervor, Ana entra em transe, suas pálpebras se movimentam freneticamente. Tomado pela apreensão, Elias aperta a pele do gato. O corpo de Ana treme. Então, subitamente, o animal salta dos braços de Elias para o túmulo de Anita. Tomado de fúria, o felino se autoflagela. Em um movimento louco, o gato crava suas garras sobre a barriga, as pernas, até chegar ao pescoço e rasgá-lo em um corte fatal. O sangue escorre através do pêlo branco formando um estranho desenho sobre o mármore. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pedro Cigano olha para Elias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: O ritual foi realizado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Elias chega perto do corpo de Ana, a segura pelos ombros e num misto de apreensão e medo...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Anita... Anita...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ana&lt;/strong&gt;: Ela não está aqui. Sinto muito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(&lt;strong&gt;a seguir&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;Parafuso entra em parafuso&lt;/em&gt;).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-5989624587747158077?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/5989624587747158077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/05/malditos-cap-viii.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/5989624587747158077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/5989624587747158077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/05/malditos-cap-viii.html' title='malditos - cap. VIII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-3599566419930945237</id><published>2009-04-11T12:49:00.000-07:00</published><updated>2009-04-11T13:24:57.011-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos- cap. VII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Homens ocos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Elias correu os olhos sobre os livros na estante. Retirou um exemplar das poesias reunidas de T.S. Eliot. Abriu uma página a esmo e leu: “Nós somos os homens ocos, os homens empalhados, uns nos outros amparados, o elmo cheio de nada. Forma sem forma, sombra sem cor, força paralisada, gesto sem vigor”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Meu primo, que surpresa! Na minha casa, ainda mais as dez da manhã!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O abraço quente de sua prima, o doce toque de seus lábios no canto de sua boca, as mãos delicadas descendo pelo seu peito, fragmentos fugazmente eternos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Vim de surpresa, pois tenho um assunto urgente a tratar com seu marido.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Infelizmente, ele recebeu um telefonema misterioso, saiu... Disse que passará o dia inteiro fora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sobre a escrivaninha havia um retrato de Eva e Orlando, tirado no dia do casamento. Elias o analisou atentamente. A postura rígida, a ausência de um sorriso no rosto, era um homem oco. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Por que Orlando não quer a minha presença em sua consagração?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma corrente elétrica e raivosa correu pela espinha de Eva. O fato de Orlando fazer algo sem consultá-la, ainda mais envolvendo um evento tão importante, foi suficiente para resgatar velhas dívidas, e levantar novas desconfianças. Ela sentou, respirou fundo, se recompôs da surpresa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Ele não te contou! Procurou o seu pai para tentar me convencer... Seu casamento foi um erro.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Primo, em nome de todo nosso afeto, por mim... Compreenda o Orlando.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Você poderia ter se casado com alguém da nossa linhagem.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: São novos tempos. Nós somos frutos das eras. Você é especial...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Aceitaria casar comigo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Veja nossos primos: vivem à sombra do pai. São preguiçosos, acomodados, fracos. Estão preparados para esse tempo? Não. Alguns estão endividados.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Olho para aquela foto ali, sabe o que vejo: um mercenário. Ele não tem nobreza de espírito.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Tem ambição. É obstinado, inteligente, leal. Vai nos levar mais longe. Por isso, casei com ele.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Se quer viver como Lady Macbeth, o problema é seu... Mas seu enredo não está sendo escrito por Shakespeare.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E finalmente perceberam a silenciosa presença dela, na porta de entrada do escritório. A menina. Elias voltou os olhos atentos para os cabelos dela, longos e crespos. Eva a encarou de modo recriminador. A criança tremendo fala:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Menina&lt;/strong&gt;: Posso ver desenho?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como quem afasta um cachorro vira-lata, Eva diz: “Vai”. Ela sai correndo pelo corredor. Essa cena tocou em algum lugar adormecido na mente de Elias. Um lugar inóspito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Foi bom ter vindo. Queria mesmo conversar com você, afinal há quanto tempo...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Trabalhei demais nos últimos dois anos. Sabe como é: “abelha atarefada não tem tempo para tristezas”.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Estou muito preocupada... Mês passado tive um sonho com você tão estranho...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: De suas preocupações, sou a menor.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva&lt;/strong&gt;: Tem visto a sua filha?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Ah, por favor... Estou no fim de uma longa turnê! Ela está com os avós, os tios, os amigos da escola... Para eu compreender, preciso primeiro ser compreendido.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eva:&lt;/strong&gt; Está certo!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Minha querida prima, preciso ir. Desculpe a visita inesperada. Ah, vou levar esse livro comigo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um pouco embaraçados, os primos se despedem. Sozinha no escritório, Eva se aproxima do foto do casamento. Para ela, por alguns segundos, aquele casal fotografado pareceu dois perfeitos estranhos. Pegou o telefone, discou para o marido. Este celular está temporariamente fora da sua área de cobertura. Com um suspiro profundo, levantou e foi ordenar à cozinheira qual seria o almoço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Longe da esposa, Orlando cuidava de um problema particular. Ninguém conhece seus propósitos, nem mesmo o detetive contratado, que não para de tagarelar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: É longe o lugar, se quiser posso dirigir um pouco...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Gosto de pilotar.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Deve ser uma pessoa muito importante, para o senhor largar imediatamente seus compromissos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não gosto de perder tempo, nem de adiar as coisas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O detetive era uma velha raposa criada no departamento de investigação da polícia civil. Há poucos anos se aposentou e começou a prestar serviços particulares para gente graúda. Ele tem por hábito, antes de prosseguir com um caso, investigar o contratador. Questão de precaução. Logo, através de uma simples dedução, sabe quem Orlando procura. Também imagina o quanto quer encontrar essa pessoa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Vire nesta estrada de chão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O investigador tem pressa em resolver o caso, tem urgência em pegar o dinheiro e saldar aquela dívida do pôquer, antes que os cobradores entrem em sua casa, revelem para a sua mulher que ele nunca se curou do vício. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: É esta a casa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele toca a campainha, uma adolescente atende e os encaminha para a sala de estar. Depois de acomodá-los, disse: “Vou chamar a vovó”. Orlando não conseguia disfarçar a ansiedade, suas mãos suavam, o coração batia acelerado, cada segundo de espera torturante. Então, a garota surge, empurrando uma cadeira de rodas. A velha sentada nela olhou para Orlando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Velha&lt;/strong&gt;: Meu filho... Ó bom Deus, trouxe meu filho de volta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tomado pelo susto, Orlando correu até a senhora, se ajoelhou e a encarou, procurando, sob os desenhos das rugas, o antigo rosto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Velha&lt;/strong&gt;: Não sabe o quanto me arrependo tê-lo abandonado...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E por trás das palavras, o som da antiga voz. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não é ela!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: Como não?!?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Velha&lt;/strong&gt;: Meu filho...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Cale-se! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Para espanto dos presentes, Orlando retirou o talão de cheques, preencheu uma quantia, virou para a senhora na cadeira de rodas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Tome isso como um cachê pela sua representação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E olhando para o detetive:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vamos embora!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No jardim da entrada da casa, o investigador buscava uma explicação convincente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Detetive&lt;/strong&gt;: O senhor deve entender que esse tipo de equívoco é comum em uma investigação na qual não temos um retrato da pessoa desaparecida e...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes que terminasse a confusa oração, Orlando desferiu-lhe um soco no estômago. Em seguida, passou-lhe uma rasteira, depois um chute no fígado e um soco no nariz. O sangue ainda descia sobre sua face, quando o agressor empurrou um cheque pela sua goela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Isso é para pagar a sua dívida. Agora, tem a obrigação moral de encontrá-la.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Furioso, entrou no carro, deixando o investigador caído na grama do jardim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Que eu jamais me aproxime do reino de sonho da morte. Que eu possa trajar ainda esses tácitos disfarces: pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas. E comportar-me num campo como o vento se comporta. Nem mais um passo. Esta é a terra morta. Esta é a terra do cacto”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(&lt;strong&gt;a seguir&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;Ritual macabro&lt;/em&gt;) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-3599566419930945237?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/3599566419930945237/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/04/malditos-cap-vii.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3599566419930945237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3599566419930945237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/04/malditos-cap-vii.html' title='malditos- cap. VII'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-275274793847396264</id><published>2009-04-04T11:57:00.000-07:00</published><updated>2009-04-04T12:14:04.627-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. VI</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Showbusiness&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Clap! Clap! Clap!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Elias ainda ouvia o som dos aplausos, sentado sozinho em seu camarim, meia hora depois da apresentação. Seu rosto refletido no espelho de armação iluminada. Há dez minutos faz a mesma coisa, acende e apaga as lâmpadas, para ver o que o espelho reflete na luz e na sombra. Ele acende e se vê refletido no palco, o microfone a sua frente, o silêncio na platéia, os breves segundo até abrir a boca para cantar, os breves segundos de vazio. Apaga, o espelho mostra o corpo dela, seus lábios secos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Toc! Toc! Toc!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O que foi?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: O pessoal está esperando &lt;em&gt;demais&lt;/em&gt;. Daqui a pouco o champagne vai acabar...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Só mais um minuto e estou indo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Na sala anexa ao camarim, dezenas de altos funcionários de uma companhia telefônica, e algumas celebridades, esperavam para apertar a mão do seu ídolo, trocar meia dúzia de palavras com ele, tirar algumas fotos simulando intimidade, depois postar isso em seus blogs ou no you tube. Elias e seu empresário chamam esse momento pós-show de “olá-boa-noite-como-vai”. E algumas pessoas pagam para isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Ele sempre fica assim depois do show, é muita energia, precisa de um tempo sozinho para descarregar, sabia que o Caetano... Olhe: lá está ele!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Desde o início de sua carreira, tocando em clubes pequenos, Elias descobriu que a relação entre artista e público é tudo, menos uma coisa amistosa. Foi nesse período, aos dezenove anos, que conheceu o seu empresário. Este tinha por volta de trinta e poucos anos. Hoje, passados quatorze anos, ele se tornou uma figura peculiar, com sua baixa estatura, sua calvície disfarçada, seu cavanhaque sempre impecável, e as intermináveis histórias sobre namoradas famosas, de preferência modelos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Vem cá, garoto, quero te apresentar a uma pessoa...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Quando viu Elias pela primeira vez, logo lhe saltou aos olhos a beleza do jovem. Sua namorada na época comentou: “Parece uma estátua grega bronzeada”. Depois prestou atenção na música. Elias tocava guitarra acompanhado por um percursionista, o repertório agradava, havia muitas meninas na platéia. Potencial enorme para o sucesso, mas tinha um problema. O astro tratava os fans com desdém. Por isso, uma de suas primeiras lições foi: “Seja educado, gentil, simpático”. Mas a premissa de cumprir o impossível não é obrigatória.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Elias, este é o &lt;em&gt;manager&lt;/em&gt; da empresa, o homem que está revolucionando o circuito de grandes festivais do país.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Manager&lt;/strong&gt;: O show foi fantástico. Na minha opinião, atualmente, você está vivendo seu auge criativo, não acha?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Antes de responder, Elias mergulhou neste monólogo interior: “O que mais me irrita é que imagina que estamos no mesmo nível. É arrogância demais. Seria a mesma coisa se achasse que estou no mesmo nível do Dylan só porque gosto da música dele”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Você conhece aquela história do Matisse? Não! Vou te contar. Um camarada, um industrial talvez, comprou um quadro do artista, As meninas. É uma pintura famosa. Pois bem, o comprador elogiou as cores, o talento do pintor, etc, mas tinha uma crítica: aquilo não eram meninas. Mattise respondeu: “Não! Aquilo é um quadro”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Manager&lt;/strong&gt;: Interessante, mas...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O que quero dizer é: nós nunca sabemos quando estamos no nosso auge criativo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;              Pressentindo o prenúncio de uma confrontação desnecessária, o empresário acenou para o fotógrafo da revista de celebridades.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Ei, meu chapa, tire uma foto de nós três!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O empresário se posicionou estrategicamente atrás dos dois, os uniu com seu abraço, como era menor em estatura, quase desapareceu da foto. Suas mãos foram as únicas parte do seu corpo fotografado. Um observador desatendo poderia facilmente ver Elias e o &lt;em&gt;manager&lt;/em&gt; amigavelmente abraçados; e no lugar da mão do empresário ao redor da cintura deles, ver uma afinidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Elias se desembaraçou do &lt;em&gt;manager&lt;/em&gt;, lançou um olhar panorâmico sobre as vinte pessoas reunidas na sala, até encontrar a única que convidara: Pedro Cigano, o ocultista. Ao seu lado estava uma jovem, muito atraente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Olá, Pedro, fico feliz pela sua presença.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: Saudações, meu amigo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Senhorita...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;: Ana. Ela será a condutora no ritual. É por isso que estou aqui, creio que podemos realizá-lo na próxima sexta-feira.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Daqui a dois dias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ao longe, o empresário observava os três, principalmente o Cigano, pois o considerava um “charlatão” se fazendo passar por guru de celebridades. Se fosse há tempos atrás, “Elias o escorraçaria”. Mas desde o fatídico dia, o músico tornara-se mais introspectivo e estranho. Foi nesse momento que o “pseudo-místico” começou a se aproximar do cantor. Sobre o que eles conversam?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pedro Cigano&lt;/strong&gt;:... e assim se fará. Se não me engano, aquele senhor elegante, conversando com o seu empresário, é o seu tio? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Sem dúvida. O que seu tio faria aqui? Uma situação bem incomum. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tio&lt;/strong&gt;: Olá, Elias, tenho um assunto de família a tratar, se você ficasse em casa ou atendesse ao telefone não precisaria vir aqui para tomar o seu precioso tempo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Tanto o Cigano quanto o empresário fingiram discrição, mas no fundo queriam cada detalhe daquele assunto particular, qualquer coisa valeria ouro na disputa pela confiança do astro. Elias levou seu tio para o camarim anexo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Então, tio, o que está acontecendo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tio&lt;/strong&gt;: È sobre Orlando... Ele é um bom genro. Está crescendo...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Sempre foi muito ambicioso.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tio&lt;/strong&gt;: Enfim, ele advogou do direito de não convidá-lo para sua cerimônia de consagração.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Infelizmente, nós dois sabemos disso, ele não tem esse direito.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tio&lt;/strong&gt;: Meu sobrinho, seja razoável, o que a cerimônia significa para você? Nada. Desde aquela tragédia, se afastou da Ordem. A única razão para não aceitar o pedido é o orgulho. Sabe o quanto te admiro, entre todos, sempre foi meu preferido, mas lhe peço...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: O senhor se engana, estou muito interessado na cerimônia. Orlando não compreende a natureza da consagração, e mais uma vez me prova isso. Se ao menos viesse pessoalmente discutir a questão... Ele não está preparado! O senhor sabe.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tio&lt;/strong&gt;: Meu filho, sente! Vamos tentar entender...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elias&lt;/strong&gt;: Não há nada a ser entendido. Amanhã conversarei pessoalmente com Orlando. É preciso ter mais respeito com um membro de sangue da Ordem. Mas foi bom ter vindo, porque tenho um outro assunto, mais importante, a tratar com o senhor. Na verdade, eu queria conselho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;strong&gt;no próximo capítulo&lt;/strong&gt;: Conflito de classes).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-275274793847396264?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/275274793847396264/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/04/malditos-cap-vi.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/275274793847396264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/275274793847396264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/04/malditos-cap-vi.html' title='Malditos - Cap. VI'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-9072709748573020998</id><published>2009-03-25T07:33:00.000-07:00</published><updated>2009-03-25T07:40:00.783-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>malditos- cap.V</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Um lance de dados jamais abolirá o acaso&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Há uma fera a solta na madrugada nessa cidade. Seus olhos são frios. Seus gestos são calculados e violentos. Sua alma é alimentada com fogo. Seu destino é caçar e dominar. Esse animal selvagem, puro em seu ódio, é um ser humano. Está acuado. Seu nome é Orlando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O reflexo dos letreiros dos bares brilha no pára-brisa do carro em trânsito. A meia-hora atrás havia deixado Diana e respondido com silêncio a todas as suas perguntas. Dentro do peito, Orlando arde em mil considerações. Ele dobra à esquerda para alongar o caminho de volta para casa. Na avenida os travestis pedem carona. Por que seguiu por esse caminho? Ele não sabe. Para alguém que está investindo tudo no poder, é angustiante agir sob ordens superiores, ser uma marionete. Árduo o caminho de quem vem de baixo. Seria mais digno aceitar a sua parte no quinhão, dormir sem questionar nada. Não! Isso é ser escravo, empregado, submisso. Não! Aos quinze anos Orlando jurou que não seria um escravo. Só o poder emancipa o homem nessa sociedade, foi algo que ele deduziu assistindo às aulas de filosofia. Só deixará de ser escravo quando atingir o poder. Sua cerimônia será sua alforria. Mas para chegar até lá, terá que provar o seu valor, duas vezes mais do que os seus antecessores. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ele chega em casa. Acende a luz da sala, pára admirando a elegância dos móveis e a tecnologia dos aparelhos elétricos. De repente, a imagem da casa de seu pai surge como uma projeção fantasmagórica. A riqueza de sua residência se fundia à pobreza do lar de seu pai. Sua cabeça doía. Foi à cozinha, tomou dois analgésicos, abriu a geladeira. A governanta aparece silenciosa, com sua voz austera:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aparecida&lt;/strong&gt;: Deseja que faça algo para o senhor comer?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            De costa para ela, respondeu:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando:&lt;/strong&gt; Não! Pode voltar para cama.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;               Ele abre a porta do quarto. Eva, sua esposa, dorme profundamente, a respiração ofegante, as pupilas agitadas, sonhos intensos. Fecha a porta, segue pelo corredor, pára em frente ao quarto da menina, segura a maçaneta, sente vontade de abrir, mas não tem força para isso. Sobe as escadas para o terraço. Sua consciência é um mar revolto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Se não vivesse o período da “abstenção”, abriria uma garrafa de uísque e a beberia até o sol nascer. Esta é a primeira lição a aprender esta noite: o álcool torna o homem fraco. Mas é preciso algo que acalme os nervos, relaxe o corpo, alguma coisa prazerosa. Então, sem avisar, outra vez, a imagem aparece à sua frente: o carro... girando... pumb! pumb! pumb!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;            Sufocado, Orlando tira sua roupa e gira em círculo pelo terraço, tendo o sol nascente como juiz. Ele anda em círculo, repetindo a frase “vou vencer, vou vencer, vou vencer”... como uma mantra. Então... Pumb! Pumb! Pumb!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ele levanta a cabeça, sobre seus olhos uma revoada de pássaros, tantos cantos diferentes, tantos timbres. Uma hora se passa, sem que perceba, ouvindo os cantos dos pássaros. Como se estivesse entorpecido, levanta e corre para o depósito, à procura do antigo gravador de rolo: “Eu preciso gravar isso, eu preciso gravar isso, eu preciso gravar isso”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Após localizar o gravador, gastou tempo buscando um bom lugar para a gravação. Depois deitou no chão. Voltou o sentimento de fuga. Junto com os pássaros, sentiu seu espírito voando no céu. Sensação confortável. Nenhuma voz, nenhuma lembrança, somente o vasto e vazio céu, um gravador gravando o silêncio. No entanto, sem avisar, obsessivamente... Bump! Bump! Bump! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;  &lt;br /&gt;            Uma hora depois, Orlando se encontra espremido na parede, sentado com os braços ao redor dos joelhos, encolhido, tremendo. Emoções há anos reprimidas vem à tona.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Á sua mente volta a imagem de seu pai no caixão. Orlando não chorou sua morte. Não o admirava. Logo, diante de si, vê o reflexo de sua infância, a alegria que sentia quando Ele chegava do trabalho. O abraço de seu pai exalava um cheiro embriagante de felicidade. Nunca mais voltou a sentir esse cheiro. Nem a ter orgulho dele. Quando faleceu, o único sentimento pelo pai era vergonha. Essa lembrança o torturava. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            “Preciso falar com ela”, Orlando repetia, chorando e com raiva. “Tem que dizer”. “Só ela pode explicar”.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Desse momento em diante, explodiu em um choro ressentido e delirante. Sentiu-se vagando no centro de uma tempestade, lutando debilmente contra ela. Fora de seu alcance, girava a chave e o baú onde guardava seus rancores e esperanças. Depois tombou. Seu corpo ardeu sobre o mármore frio. Seu espírito caíra do céu até o sétimo círculo das profundezas da terra. Até à inconsciência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Orlando despertou com pontapés na barriga e o som de uma voz firme e grave:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro:&lt;/strong&gt; Levante! Vamos, de pé!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Do ângulo de visão em que se encontrava, deitado no chão, seu sogro lhe parecia um gigante. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Aparecida me disse que estava aqui. Talvez ela o tenha visto nessa posição humilhante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Instintivamente, levantou-se. Seu sogro era muito magro, mas não fraco, magreza imponente, sempre elegante e esguio. Orlando o encarou, depois de despertar do pesadelo, e o sogro já não era mais o mesmo, agora ele era “O manipulador”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vou tomar um banho. Peça para governanta subir com o café da manhã. Vamos conversar aqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ao voltar do banho, Orlando encontrou uma farta refeição. Enquanto comia, seu sogro o analisava. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Já leu o jornal de hoje? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            E lançou sobre a mesa o exemplar do Notícias Matutinas. Orlando leu a chamada da primeira página: &lt;em&gt;Doidão de pó, secretário sofre acidente fatal na estrada do Contorno.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A matéria pintou o morto como lobo em pele de cordeiro. Reportagem totalmente tendenciosa, como não poderia deixar de ser, afinal o jornal é de propriedade de um dos sócios do sogro. O ambientalista havia infringido o código de trânsito, ao dirigir embriagado e sem o cinto de segurança; e o código civil ao usar substâncias ilegais, pondo a vida de terceiros em risco. Em um cantinho de página há uma declaração do presidente da associação de pescadores, se dizendo “perplexo e horrorizado”. A vítima sempre fora um motorista prudente. Orlando ri. No período de duas semanas em que seguiu todos os passos do secretário, percebeu que ele sempre usava o cinto. Investigando sua ficha no Detran, constatou que, em dez anos de carteira, nunca tomara uma multa. Se estivesse usando o cinto e dirigindo na velocidade permitida, estaria vivo. Talvez nesse exato momento, estivesse dando uma entrevista para justificar a presença de cocaína no seu sangue. Essa era a etapa final do plano, a exposição pública, afinal, subornara um enfermeiro do pronto socorro para isso. Não se pode dizer que não tenha feito o seu trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Foi um acidente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Ao ouvir essa frase, os olhos do sogro se inflamaram, levantou-se abruptamente com um soco sobre a mesa, e segurou Orlando pelos ombros, como se quisesse despertá-lo de um estado letárgico.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Você matou esse homem. Não seja fraco. Está preste a ser consagrado, assuma o seu feito. Diga: Eu matei aquele ambientalista de merda! Diga: Eu matei! Era uma pedra no meu caminho, eu chutei! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Seguem-se segundos de silêncio, interrompido pelo som estampido de uma tecla. Plec! A tecla stop do gravador escondido no banheiro. Orlando encara o seu sogro. Se algo além acontecer, seu discurso, gravado na fita, bem editado, será uma confissão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Que barulho foi esse?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Deve ser a menina brincando, ela derruba tudo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Agora diz: Eu matei aquele safado.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando:&lt;/strong&gt; Eu matei. Mas preferia que estivesse vivo. Morto, fica a imagem de mártir.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: Isso não interessa. O importante é que agora há uma vaga e vamos colocar alguém nosso nela. O Senador já está conversando com o prefeito. Você foi brilhante! Todos estão impressionados com a sua eficiência. Sua cerimônia será grandiosa, ainda mais levando em conta sua origem.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Por falar nisso, queria lhe fazer um pedido: gostaria que Elias não participasse da consagração, tenho direito a vetar um nome.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sogro&lt;/strong&gt;: O quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; (a seguir: &lt;em&gt;Apresentando Elias, o garboso&lt;/em&gt;)  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-9072709748573020998?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/9072709748573020998/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/malditos-capv.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/9072709748573020998'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/9072709748573020998'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/malditos-capv.html' title='malditos- cap.V'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-3049855229464788479</id><published>2009-03-14T11:15:00.000-07:00</published><updated>2009-03-14T11:29:15.113-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. IV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Estrada para perdição&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Sentado na mesa 04 do Satyrico’s bar, esperando. O relógio marca 19:30. Orlando mais ansioso do que noivo no altar. Não é para menos. O projeto Nova Gênese é o mais importante da empresa neste ano. Em seu início, seu nome nem sequer foi mencionado. Devido à sua magnitude, só os altos membros participaram da idealização do projeto. Agora que o empreendimento empacou, foi chamado. E pior, no seu período de “preparação” para a cerimônia, quando deveria estar em retiro, é testado em uma missão suicida. Seu celular toca como se o despertasse de um transe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Olá, Maninho! O cidadão te ligou?... Ótimo!... Ele está na fissura... Você marcou com ele no Satiryco, às oito? Ótimo... Preste atenção: daqui a pouco chegarão duas gatinhas à sua casa, um presentinho adicional... Divirta-se!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;19:45. Através da janela do bar, Orlando vê Parafuso se esgueirando sob as sombras das árvores que praticamente escondem a entrada do bar. Ele chegou antes, como sempre, para averiguar o lugar. Desconfiança é ouro nesse mundo. Seu celular toca novamente, olha para o visor: sogro chamando. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: O meu plano está correndo como o previsto... Se meus ajudantes chegaram? Já... Não, esse ainda não.... Espere, o alvo chegou! Vou desligar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O ambientalista entrou no bar saudando seus companheiros de luta, os pescadores da região, os moradores dessa lucrativa vila. Ele é geólogo e foi nomeado secretário ambiental, cargo criado pelo prefeito para ficar bem com o ministério do meio ambiente. Há alguns anos atrás, descobriu-se na região uma imensa jazida de diamantes, muitos pescadores tornaram-se garimpeiros, e rapidamente alguns comerciantes começaram a negociar com joalheiros internacionais. Tal descoberta chamou atenção dos capitalistas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A empresa a qual Orlando representa realizou um estudo secreto sobre o solo da região, que apontou para a existência de uma mina de urânio. Somente dez pessoas sabem dessa informação. Orlando não está entre elas. Foi nesse momento que se elaborou o projeto Nova Gênese, cujo objetivo é: comprar as terras onde se localizam as minas, monopolizar o negócio de diamantes, construir uma fábrica e uma usina, empregar a mão de obra local no trabalho pesado, enfim, por ordem na casa. Tudo ia bem, com o Senador facilitando o diálogo com os políticos locais, até o secretário começar a agitar a massa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ambientalista bateu de frente com a construtora Marinho &amp;amp; Santos, representada pelo empreiteiro e o empresário. Como podemos observar no início, ambos foram inábeis para lidar com o secretário. Na verdade, subestimaram o carisma do oponente. Em um mês, o idealista conseguira inflamar a população. Sua popularidade foi tema de uma reportagem da revista. Ele alcançou esse status a partir de hábitos rotineiros, como ir todas as quintas ao Satyrico’s bar, onde os trabalhadores se reúnem para discutir política e beber algumas cervejas antes de voltar para casa. Ir uma vez por semana foi importante para criar expectativa entre os freqüentadores, e o bar tem ficado mais cheio nessas noites. Seus admiradores apenas não sabem sobre seu vício em cocaína. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Orlando foi incumbida a missão de resolver o imbróglio, para tanto, armou o plano que se desenrola diante de nossos olhos. Primeiro entrou em contato com Maninho, o traficante, que só venderia a droga para o ambientalista na quinta-feira, em um encontro no Satyrico’s bar. Enquanto isso, Parafuso realiza seu trabalho. Tudo sob a supervisão do sogro de Orlando, que o indicou para a missão. Mas para que o ardil se realize à perfeição, precisa de Diana. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;20:00. Orlando liga para ela, ouve a mensagem informando o telefone desligado, abre dois chicletes anti-nicotina de uma vez. Sua fissura só não é maior do que a do geólogo. A pouco levantou a voz para um companheiro, fato que surpreendeu a todos, pois sua fala sempre foi mansa e educada. Agora mesmo pegou o celular e foi para fora do bar. Em sua mesa estratégica, Orlando observa suas inúteis tentativas para se comunicar com Maninho. Há deleite em seu olhar ao vê-lo levar as mãos trêmulas ao cabelo e voltar ao bar, impaciente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;20: 25. Nada corre bem. A peça final para realização de seu plano ainda não chegou, o celular desligado. O idealista começa a tratar rispidamente alguns companheiros, parece inconformado com raciocínio lento deles. Parafuso entra no estabelecimento, olha de soslaio para Orlando, discretamente faz sinal de positivo, depois senta no balcão, pede um maço de cigarros, uma cerveja em lata, pergunta pelo resultado do jogo. Seu trabalho já está pronto, cinco minutos antes do previsto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao sair, Parafuso envia a seguinte mensagem para Orlando: “Seu erro é o excesso de autoconfiança”. Orlando desliga o celular. Quando pensava em atirá-lo pela janela, Diana entra no bar. Boa fisionomista, ela reconhece o ambientalista na primeira olhada. Ao contrário do combinado, não se aproxima dele, apenas senta no balcão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pelo plano de Orlando, ela o procuraria discretamente, se apresentado como enviada do traficante, lhe entregaria o produto, e sairia. Ação simples. Por que ele não poderia executá-la? Correria o risco, depois, de ser reconhecido. Nunca correr riscos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O ambientalista levanta de sua mesa para ir ao banheiro, no caminho Diana o segura pelo braço e cochicha algo em seu ouvido. Seus companheiros se exaltam. Ele retorna à mesa, inventa uma desculpa, retorna à companhia de Diana sob os aplausos dos amigos. A frieza de Orlando chega ao seu limite. O que ela falou? Por que sentar em outra mesa? E, ainda por cima, de costas para ele? O viciado toma a direção do banheiro, com uma das mãos fechadas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No banheiro, o idealista lança a cocaína sobre sua carteira, como um esfomeado avançaria sobre um prato de comida. Aspira fundo uma, duas, três vezes. “Valeu a pena esperar!” Volta ao salão sorrindo, abraça quem antes tratara com rispidez, canta o antigo sucesso do grupo Brylho: “A noite vai ser boa, de tudo vai rolar, de certo que as pessoas devem se conhecer...” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diana o aguardava imaginando Orlando se remoendo em sua mesa. Ele estava furioso, sentia vontade de arrastá-la a porradas, mas não podia por seu plano a perder, pois embora demorasse além do combinado, ela havia entregado a encomenda. Agora os dois conversavam sem que pudesse ouvi-los. Que angústia!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Quando me pediram para te encontrar, quase não acreditei... Sou sua fã.&lt;br /&gt;Sob o pretexto de retocar o batom, a bela retirou de sua bolsa o espelho para mirar Orlando.Talvez tenha considerado o atraso um meio para provocá-lo, tolo presunçoso, só queria mais tempo para investigar sobre o homem que encontraria. O ambientalista, fascinado pelos seus ombros desnudos, nem percebeu que ela procurava um ângulo de observação. Satisfeita, fechou o estojo de maquiagem, abriu um sorriso charmoso para o interlocutor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Qual sua motivação nessa campanha, é política?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ambientalista&lt;/strong&gt;: É humanista!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Naquela matéria da revista, você faz algumas acusações....&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ambientalista&lt;/strong&gt;: A construtora Marinho &amp;amp; Santos está trabalhando para um poderoso grupo econômico chamado Gênese. É um conglomerado formado por políticos, investidores internacionais, intelectuais, que pretendem explorar as riquezas minerais da região.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Você reconheceria algum membro se estivesse aqui?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Intrigado, o geólogo olha em volta, sem reconhecer nenhum membro da construtora, os únicos que conhece ligados ao grupo Gênese. Seus companheiros sentados em outra mesa fazem sinal de positivo, um deles, mais folgado, imita com as mãos o ato de felação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ambientalista&lt;/strong&gt;: Vamos conversar em outro lugar...&lt;br /&gt;Ao perceber o garçom encerrando a conta do casal, Orlando sai do bar, para esperá-los do lado de fora sob a penumbra das árvores. Em dois minutos surgem, quando Diana prestes a entrar no carro é puxada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ambientalista&lt;/strong&gt;: Que porra é essa?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Entre no seu carro, isso não é assunto seu!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Me deixa!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nada ocorre como o previsto, por causa dela! Não queria se revelar, agora o ambientalista tenta empurrá-lo. Orlando levanta a blusa deixando visível a pistola nove milímetros na sua cintura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ambientalista&lt;/strong&gt;: Ela não que ir com o senhor!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Entre no seu carro e suma! Se não, te dou um tiro na cara, agora!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As sombras das árvores não permitem que as pessoas no bar vejam a arma apontada para o rosto do ambientalista.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ambientalista&lt;/strong&gt;: Ele é seu marido?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Vá embora, será melhor!&lt;br /&gt;Orlando segura fortemente o braço de Diana, arrastando-a para seu carro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Com que tipo de gente está envolvido? Acha que pode me usar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele nada responde. Através do espelho retrovisor, vê o ambientalista se drogando mais. Então, das sombras, surge um bêbado. Diante de sua aparição, o geólogo liga seu carro e parte cantando pneu. Orlando o segue.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: O que está acontecendo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Você estragou tudo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Para que segui-lo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O limite de velocidade da estrada do Contorno é de 80km. Ao perceber o carro atrás, o ambientalista pisa fundo. 100 km. Orlando quase derrapa em uma curva. A estrada é traiçoeira. O secretário conhece cada curva. 140km. Exímio motorista. Não pisa no freio, mas quando o faz pela primeira vez, não há resposta. Seu coração gela. Ao tentar reduzir a marcha, ouve um barulho estranho vindo do câmbio de direção.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Meu Deus! Ele capotou! Pára o carro, Orlando... Pára!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Não. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O carro virou cinco vezes até sair da estrada. Nervoso, Orlando pega o celular.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Para quem você está ligando?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Para o resgate. Alô, Chicão... Vem para a estrada do Contorno, aconteceu o acidente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(&lt;strong&gt;no próximo capítulo&lt;/strong&gt;: eu lhe disse para não abrir esta porta). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-3049855229464788479?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/3049855229464788479/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/malditos-cap-iv.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3049855229464788479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/3049855229464788479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/malditos-cap-iv.html' title='Malditos - Cap. IV'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-6708158917052037646</id><published>2009-03-07T08:37:00.000-08:00</published><updated>2009-03-07T08:59:43.718-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><title type='text'>Malditos - Cap. III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Velhos companheiros&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A comissão era tentadora. Ela disse sim. Por outro lado, não estava disposta a entregar todos os pontos. Diana sabia farejar segredos. Além disso, se algo secreto a envolvia, o próprio senso de sobrevivência a exigia saber mais. Ele não lhe escondeu nada, mas também não revelou tudo.&lt;br /&gt;Orlando despediu-se dela na porta do carro, com o motor já roncando. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Eu preciso ir... Depois a gente conversa... Não se esqueça, as oito da noite, &lt;em&gt;Satyrico’s bar.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Diana não disse nada, nem precisava. Estava tudo escrito no seu olhar. E no mínimo detalhe do movimento do seu corpo. Enquanto o Mercedes levantava poeira e o motor rugia como um animal furioso indo à caça, ela subiu lentamente as escadas, mirando as nuvens, o contorno das montanhas.&lt;br /&gt;Orlando dirigia rápido, olhando o relógio, analisando cada elemento envolvido em seu plano. Não queria incluir Diana. Mas sem seus sócios de confiança, não logrará sucesso. Para ele, nesse momento, pior que uma peste somente o fracasso. Outra conversa difícil pela frente.&lt;br /&gt;Diana sentada no degrau da escada, virando e revirando o celular: ligo, não ligo. A dúvida corroia seu peito até sentir calafrios. Por que aceitou? Pela comissão... Francamente, ela mente melhor para os outros. Ligo, não ligo. E se acontecer algum acidente? Por que aceitou? Uma proposta infame. “Será que ele me vê como uma prostituta?”. Ligo, não ligo. Ele não iria tão longe, não seria tão vulgar. Mas que tipo de situação, ou gente, o forçaria a tomar uma decisão relutante? E ainda por cima irá se encontrar com Parafuso, aquele marginal! Não ligo.&lt;br /&gt;Quando estacionou o carro e viu Parafuso, com sua velha camisa dos Ramones e seu andar coxo, Orlando não evitou um sorrisinho sarcástico. Algumas coisas nunca mudam, são duras como as rochas e burras como os cavalos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: E aí meu caro Orlando, o garboso! Gostou do visual do bar?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Já estive em puteiros melhores.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Ih, tô te estranhando! Sempre soube que um dia você se revelaria.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: É um prazer revê-lo, senhor Leandro Álvares Pimenta – o enroscado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os dois se conheceram no colégio, quando tinham quatorze anos. A alcunha surgiu devido a uma frase que Leandro repetia em todas as situações: “eu tô enroscado, tenho que ir”. Para Orlando, “quem vivia enroscado era parafuso. Tá aí! Leandro Parafuso, o meu camisa 9”. O apelidou pegou. Como essas mentes tranquilas, que sabem tirar o proveito das coisas, anos depois, Leandro passou a usá-lo profissionalmente: “Parafuso, o melhor mecânico da cidade”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vamos conversar em um lugar mais discreto. Tenho um negócio importante a te propor e pouco tempo para realizá-lo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Está me convidando para um quarto?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Estamos perdendo tempo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Relax, brother! Dois caras conversando em lugar público chama menos atenção do que conversando em um beco escuro. Além do mais, quem prestará atenção em nós no meio de tanta mulher bonita, olha só! Pode falar, sou todo ouvidos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parafuso nasceu dotado de inteligência prática. Aos sete anos já sabia desmontar um motor. Seu pai era mecânico, e ele idolatrava o pai. O menino tornou-se um homem pragmático e desconfiado. Para ele, não há nenhuma desonestidade em superfaturar as notas do conserto, ou eventualmente repassar carros roubados, nada disso... Trata-se de um adicional pelo talento. Achou arriscada a proposta de Orlando, mas a comissão parecia segura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: Não acredito que você me fez essa proposta! Que tipo de empresa está trabalhando que te obriga a isso?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: O tipo de empresa que oferece essa quantia de dinheiro, aqui dentro dessa mala ao meu lado. Negócio limpo e rápido. Daqui a duas horas a gente se encontra, em meia hora já terminou o serviço e volta para casa... Nem o vento saberá.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parafuso&lt;/strong&gt;: E a Diana, e se ela não aparecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;strong&gt;a seguir&lt;/strong&gt;: Maldito hippie sujo)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-6708158917052037646?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/6708158917052037646/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/cap-iii-velhos-companheiros.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6708158917052037646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6708158917052037646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/cap-iii-velhos-companheiros.html' title='Malditos - Cap. III'/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-1456469488459745527</id><published>2009-03-01T07:27:00.000-08:00</published><updated>2009-03-01T13:47:40.890-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;"&gt;MALDITOS&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Capítulo II&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Just like a woman&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ao sair da reunião, Orlando telefonou para sua casa à procura da esposa. Aparecida atendeu. Algo sempre o incomodou nela, sua única serviçal. A explicação para tal incômodo, como quase tudo na vida, não se limita a um único fator. Antes, a senhora trabalhara para seu sogro. Foi ama-de leite de sua esposa. Quando se casaram, ela foi transferida para sua casa, por vontade do sogro. Nunca concordou com isso, mas seria impossível contrariar sua mulher, seu sogro, sua sogra. Isso é o que se pode chamar de costas quentes. Além disso, há o modo como ela o trata: aquele olhar frio, as frases soltas...E acima de tudo, o maior incômodo, a relação da governanta com a menina.&lt;br /&gt;Olhou para o relógio, já passavam do meio-dia e ainda faltavam duas visitas. Entrou no carro. Tantas coisas para fazer, conversas difíceis à frente. E dirigir, sempre gostou de fumar dirigindo. Qual seria a verdadeira natureza da provação? Envolto em incertezas, acelerava para esquecer a fissura da nicotina, o paradeiro da esposa, a governanta...&lt;br /&gt;À medida que o velocímetro avançava, Orlando sentia outra vez a estranha sensação de fuga, uma ilha deserta. A miragem logo se dissipou ao se encontrar em frente ao portão dela.&lt;br /&gt;Vale a pena morar longe da cidade, principalmente quando se vive em um casarão colonial, com um bom pedaço da mata atlântica no quintal. É bem melhor acordar ao som de canários e sabiás. Essa partícula do paraíso lhe foi dada de presente. Ela tem estilo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Ora, ora... Eis que recebo a visita de Orlando, o misterioso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela vestia um vestido muito bem decotado, branco. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: A que devo a honra?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Preciso da sua colaboração em um negócio urgente, uma boa comissão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando olhou para o interior da enorme sala, procurava um lugar para se sentar, mas os dois sabiam que buscava esconderijo. Diana caminhou em direção à estante, pegou a caixa forrada com veludo negro, retirou um baseado. Sentou em sua cadeira de balanço, de frente para ele. Acendeu o cigarro, deu uma longa tragada, abriu um pouco as pernas, o vestido deslizava sobre suas coxas, soprou a fumaça como uma provocação. Havia algo diferente no olhar dela, poderia ser raiva ou desprezo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Você quer me propor um “negócio”, por “uma boa comissão”... É só isso que tem a me oferecer, depois de... Quanto tempo que não nos vemos? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Doze meses.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Muita coisa acontece com uma mulher durante esse período, sabia?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Orlando e Diana se conheceram na adolescência. Os dois se viram pela primeira vez no corredor do teatro da escola estadual. Uma agência de modelos promovia um desfile de verão entre os alunos. Espremidos em uma fila dupla, trocaram algumas palavras, riram da situação em que se encontravam, seminus, vestidos como índios. Naquele momento nasceu uma afinidade, uma atração, “uma identificação cósmica” segundo Diana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Me ausentei porque foi preciso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Para quê? Qual a finalidade? Mereço maior atenção.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela deu outra longa tragada, o vestido desceu até os quadris. Seus gestos eram movidos pelo cálculo e o desejo. Para Orlando, não havia dúvida, a natureza da provação – finalmente - começava a se revelar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Estou vivendo um momento crucial da minha vida, um período de estágio para entrar em uma grande empresa, por isso não te procurei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Já acabou o estágio?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Quase.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Então, por que me procurou?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Preciso de você. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: Há quanto tempo está me usando?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Este é apenas um momento, depois, tudo será melhor para nós dois. Agora, só preciso que me diga sim ou não. Vai me ajudar? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diana&lt;/strong&gt;: O que ganho com isso?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(no próximo capítulo: um plano sinistro se inicia)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-1456469488459745527?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/1456469488459745527/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/capitulo-ii-just-like-woman-ao-sair-da.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/1456469488459745527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/1456469488459745527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/capitulo-ii-just-like-woman-ao-sair-da.html' title=''/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5582989726962289503.post-6323858121438238992</id><published>2009-03-01T07:14:00.000-08:00</published><updated>2009-03-01T07:25:48.849-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='malditos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anderson pires da silva'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;                                                        &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;                                                       MALDITOS&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prólogo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Qual é o prêmio dessa luta feroz chamada vida? A felicidade. Quem não quer ser feliz, mesmo que isso seja uma batalha sangrenta? Mas existem aqueles que querem mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Astrólogo&lt;/strong&gt;: Maestro! Fiz e refiz os cálculos, as estrelas não estarão alinhadas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Ele prefere ser chamado de “maestro”. Somente seus exímios músicos imaginam o sentido da composição, a ópera reconciliadora com o paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Astrólogo&lt;/strong&gt;: Talvez seja melhor adiar a cerimônia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Sua voz é lenta e grave. O raciocínio rápido como uma serpente. Ele veio de um lugar distante. Conhece muitas pessoas, e cada uma o chama por um nome diferente.&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Maestro&lt;/strong&gt;: A cerimônia deve ser realizada, talvez nos ensine um ritmo novo.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo I&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O ambicioso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Orlando abre outro chiclete, faltam poucos dias para o ritual de sua consagração, a cerimônia. Inesperadamente, sente uma estranha e confortável sensação de fuga. Ele retira outra goma, pensa em ligar para o fabricante do adesivo antifumo, pois não está funcionando como devia. Olha para o relógio, ainda tem alguns minutos antes da reunião.&lt;br /&gt;No elevador, voltou a pensar sobre a verdadeira natureza da cerimônia. É um teste de resistência? Qual o propósito da abstenção do fumo, do álcool, do sexo? Ou é um teste de vontade? Força ou potência?&lt;br /&gt;            A porta do elevador se abre para sala onde seus clientes o aguardam. A secretária o guia até o grupo. Seria melhor não ter prestado atenção à malícia de seus olhos. Impossível. O teste. A prova de resistência. Entrou na sala, deixando a secretária com a sensação de ter sido ignorada, mas que tipo de homem a ignoraria? Como urubus ao redor da carniça, seus clientes avançam em sua direção.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Espero que comprove a confiança depositada no senhor...&lt;br /&gt;            Orlando ouvia e pensava: “Ele fala mais alto, grita, gesticula como um boi lutando contra o abate final. É o mais burro”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Esta é maior obra dessa cidade... O prefeito precisa de um aval para assinar a licitação... Não é possível que uma comunidade de pescadores atrapalhe tanto!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            “Agora falou a raposa. Ele emposta a voz. Por quê? Talvez seja enrustido. Talvez eu deva chamá-lo rapouso”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Arquiteto&lt;/strong&gt;: O projeto urbanístico está pronto, podemos começar amanhã.&lt;br /&gt;            “Por fim, o cordeiro. Chego a ter pena deles, porque eu sou uma serpente: devoro o boi, pico a raposa e enveneno o cordeiro”.    &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vocês não souberam lidar com esse ambientalista. Ele se transformou em uma figura midiática. Já deu entrevistas para jornais, rádio, tvs. A pior conseqüência disso foi ter chamado atenção para o nosso projeto. Desde o início concordamos que agiríamos em silêncio, nas sombras. Para finalizar, aparece essa acusação de suborno aos funcionários do Ibama. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Ainda não tem nada comprovado. A mídia só está fazendo barulho!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Com a sua voz gravada ao telefone.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Não tire onda com a minha cara! Fale como homem, e não como uma bichinha engomada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Se há algo que tira Orlando do sério é ser chamado de “bicha” ou qualquer variante. Até brigar, já brigou. Mas agora vivia seu período de provação. Autocontrole e firmeza.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Com todo o respeito, o senhor agiu sem pensar. E não negue que aquela não é a sua voz. Ao menos que queira duvidar da competência dos técnicos da Unicamp? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Talvez seja melhor adiarmos a construção, deixar a coisa esfriar...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Você está delirando! Venha cá... Vamos conversar um momento a sós.&lt;br /&gt;            Os dois sócios se retiram para o banheiro. Orlando olha para a direita, o arquiteto para esquerda, ambos fingem desinteresse, enquanto do reservado escapam algumas palavras, notas de uma composição óbvia para ouvidos atentos. O empreiteiro é Tim Maia: “é minha última grande chance, vamos pressionar”. O empresário é João Gilberto: “Não podemos perder o controle da situação”. &lt;br /&gt;            Voltaram à sala visivelmente em desentendimento. O empreiteiro suava, abria os botões da blusa até saltar uma massa de gordura sobre o cinto. O empresário, sem nenhuma mancha de suor, aliás, muito magro, tomou a palavra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Eu e meu sócio chegamos a um impasse. Diante de todos os acontecimentos, da considerável soma injetada pela instituição a qual o senhor representa, acho prudente esperar a poeira baixar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Por quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: Se empurrarmos o empreendimento, quais são as garantias de que não procurarão outra construtora?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Nenhuma. Particularmente, os senhores estão agindo como amadores, sentimentais. Amadorismo e sentimentalismo são características que não combinam nesse tipo de empreendimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: O senhor está dizendo que devemos começar as obras? Com pescadores acampados na área, gente armada, grupo de ambientalistas, jornalistas... Você está louco!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Esse ambientalista se transformou numa pedra em seus sapatos, porque conquistou a opinião pública. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empresário&lt;/strong&gt;: Olhe esta foto, no principal jornal da cidade, é assim que a população o vê...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Arquiteto&lt;/strong&gt;: O rosto, o cabelo, a barba... A reportagem o compara a Tiradentes!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: E se revelarmos seu outro lado, o negativo? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Empreiteiro&lt;/strong&gt;: O que o senhor está dizendo, exatamente?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Orlando&lt;/strong&gt;: Vamos aguardar os próximos dias: mantenham a calma, sem atos desesperados, vamos dar andamento às questões de ordem jurídica, porque aqui a maré está a nosso favor. Boa tarde.&lt;br /&gt;                                                                                                                          (continua)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5582989726962289503-6323858121438238992?l=signodeplutao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://signodeplutao.blogspot.com/feeds/6323858121438238992/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/malditos-prologo-qual-e-o-premio-dessa.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6323858121438238992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5582989726962289503/posts/default/6323858121438238992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://signodeplutao.blogspot.com/2009/03/malditos-prologo-qual-e-o-premio-dessa.html' title=''/><author><name>Anderson Pires da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17746235435133834427</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_0CBytyQdWFk/TIVU92U2yQI/AAAAAAAAAFI/YVON4DxDY24/S220/img011.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
