quarta-feira, 21 de abril de 2010

Malditos - Cap. XX

Mais estranho do que o Paraíso

Orlando entrou em casa como um ladrão, sem avisar, na surdina, pela porta dos fundos. Há muito tempo algo o inquietava. Porém, a sucessão dos fatos inesperados dos últimos meses havia ocupado todo seu tempo. Agora, afastado dos negócios da Ordem, podia se ocupar desta pequena dúvida, “a desconfiança típica dos maridos”: o que sua mulher faz nas tardes de quinta-feira? O leitor atento talvez não se lembre, mas no início do relato sobre os acontecimentos narrados no segundo capítulo, ele havia ligado para a casa a procura da esposa. Ela não estava. Assim como nas quintas seguintes.

Logo de manhã notou que Eva ansiosa, talvez por causa de suas férias inesperadas, por isso inventou um compromisso perto da hora do almoço. “Não almoçarei em casa e só voltarei à noite” – ele disse e quase pôde ouvir a respiração dela aliviada. Planejava flagrá-la se preparando para sair.

Circulou pelos cômodos, nenhum vestígio da mulher, apenas ouvia a voz da governanta, na varanda, contando a história de Chapeuzinho vermelho para a menina. A velha escolheu a versão de Charles Perrault, mais assustadora. Ao final, a criança lhe perguntou: “Por que o lobo comeu a Chapeuzinho?”. Com uma voz terna respondeu: “Porque essa era a natureza do lobo”. Ao se aproximar delas, se assustaram, a menina correu para os braços da governanta, que olhou intrigada para o patrão.

Orlando: Onde Eva está?
Governanta: Ela saiu.

Essa resposta tão natural foi dita com um sorriso oculto nos lábios. Ela não tinha o menor respeito por ele. “Por qual razão?” – Orlando elucubrava consigo mesmo – “Será por causa de minha origem modesta, aliás, como a dela? Velha idiota. Incrível como os empregados, com o tempo, assumem a mesma arrogância dos seus patrões. Deixe estar, em breve, não precisarei mais aturar a sua presença”.

É difícil saber se a governanta captou os pensamentos de Orlando, seja como for, ela tomou a menina pelas mãos.

Governanta: Vem, meu anjinho, vamos brincar na piscina... Você quer?

A menina correu alegre pela grama, o sol brilhava sobre seus cabelos loiros encaracolados, e a olhando assim, sob a luz do dia, ela bem parecia a figura daqueles anjos renascentistas de Rafael.

Orlando pegou o celular e discou para a esposa. Esse número se encontra desligado ou fora da área de cobertura.

Taciturno, voltou ao interior da casa, passou pelo bar montado na sala de estar, sentiu vontade de abrir uma garrafa de uísque, acender um cigarro... Mas não! O seu corpo deve estar limpo até a realização da cerimônia, daqui a poucas semanas. Entrou na biblioteca, retirou da estante o Paginarium fulvarum, deveria estudar mais sobre os fundamentos da Ordem.

Quando já se encontrava absorto na leitura, seu celular tocou: um número desconhecido no visor.

Orlando: Alô?

Era Parafuso. Falava mastigando as palavras. Queria vê-lo urgentemente. Anotou o endereço, uma vila distante. “Que esperto” – pensou – “Ninguém imaginaria que poderia estar escondido ali”. Talvez tenha sido levado pela vontade de conversar com um amigo, ou mera necessidade de sair de casa, pois imediatamente fechou o livro, pegou a chave do carro e partiu.

Ao chegar ao local indicado, Orlando quase não acreditou no que viu, a ponto de conferir três vezes o endereço escrito no papel. Era uma casa muito humilde, com uma cerca gasta de arame farpado, Parafuso estava levando a sério demais o seu disfarce. Como não havia campainha ou qualquer coisa do tipo, bateu palmas na esperança de um equívoco. A figura que surgiu na porta lhe gelou a alma.

Era o velho amigo Leandro e, ao mesmo tempo, não era mais. Estava em uma cadeira de rodas. Com a voz trêmula, perguntou:

Orlando: O que aconteceu?
Parafuso: Entre...

Fazia exatamente três meses desde o acidente. Parafuso não foi muito preciso nos detalhes, contou que havia acordado em um hospital.

Parafuso: Fui salvo por um casal de idosos. Eles vinham na minha contramão, quase bati no carro deles... Pararam, desceram pelo barranco em que capotei e me encontraram inconsciente. Eles poderiam ter pego a bolsa com o dinheiro e me deixado lá... Por que não? Quase os matei. Chamaram o socorro e... A bolsa está aqui, intocada. Essa é a casa deles. Quero ajudar a reformar, não aceitam... Você está surpreso?
Orlando: Eu... Eu... Não sei... Sinto muito.
Parafuso: Por quê?
Orlando: Se não tivesse te envolvido...
Parafuso: Confesso que pensei muito sobre isso... Em alguns momentos, desejei o inferno para você... Mas esse casal tem me ensinado muito sobre a vida. Eles me acolheram. Não aceitam nada além de minha gratidão. “Não é com dinheiro que irá nos recompensar” – me dizem... Mas há aí um pouco de teimosia. Não saio daqui enquanto não aceitarem minha ajuda para melhorar a casa... Tem uma linda horta lá nos fundos, um galinheiro meio caído e um chiqueiro pior ainda... Enfim, eles comem o que plantam, têm ovos, carne... Você fala tanto sobre liberdade, autonomia, não ser empregado de ninguém... Então, será que não têm o que tanto procura? Foi por isso que te chamei. Meus filhos estão aqui, e minha mulher também... Quanto tempo perdido buscando isso? Mas já sei o que está pensando, te conheço, devo ser algo mais ou mais menos assim: “Só há solidariedade na tragédia” ou “todos têm pena de um aleijado” ou “agora ele vai abrir a Bíblia e ler algum versículo para mim”... Eu te chamei aqui para dizer que não tem nenhuma responsabilidade sobre o que aconteceu comigo. E também para olhar pela última vez nos seus olhos, porque gosto de você, e acho que nós dois precisamos de um abraço... Não sei com o que está metido ou quem, mas desconfio que a liberdade que tanto deseja não está onde procura...
Orlando: E nem aqui!
Parafuso: Não seja arrogante.
Orlando: Preferia que tivesse aberto a Bíblia e lido algum versículo. Foi pela nossa amizade que te pedi para sair da cidade. E esse foi o abraço mais forte que lhe dei. Fico feliz que seus filhos estejam aqui com você, mas fico triste que tenha me chamado para me dar um sermão sobre “o valor das coisas simples da vida” e, do alto de um lugar superior, tenha aproveitado a ocasião para romper a nossa amizade.
Parafuso: Não confunda as coisas...
Orlando: Bem, então, como posso entender “o olhar pela última vez nos meus olhos”?
Parafuso: Por que não sairá vivo dessa situação.

Os dois se olharam profundamente, muita coisa passou – carinho, mágoa, cumplicidade, desconfiança – e se dissipou rapidamente.

Parafuso: Acho que não irá querer conhecer a horta.
Orlando: Acho que não irá me negar o último abraço.

Despediram-se em silêncio. Tão logo se encontram a sós – Parafuso olhando para a horta e as formigas comendo várias folhas de verduras; Orlando dirigindo de volta para casa, ofuscado por faróis – um peso enorme se abateu sobre a consciência de ambos, questões e respostas contraditórias.

Enquanto ocorria esse encontro, em outro lugar, Eva vivia seu dilema particular, ou seja, a resposta à pergunta de seu marido: “o que ela faz nas tardes de quinta?”. Há meses e meses, desde o início de nossa história, secretamente, ela se dirige a um determinado lugar, porém nunca consegue atravessar o portão. Houve vezes em que ficou horas diante da entrada até desistir. Contudo, no que parece ser um dia diferente, hoje ela resolveu entrar, deixando para trás a placa prateada chumbada no muro, onde se lê: Dr. Gianne Casanova, ginecologista.
(a seguir: Qualquer um perdoa, menos Deus).


sábado, 3 de abril de 2010

Malditos - Cap. XIX

Motivo condutor

Os ventos da revolta voltam a soprar, arrombando as portas de nossa percepção, despertando os bondosos do seu sono, tornando real o pesadelo dos maus.

No teatro lotado, o Maestro retira sua guitarra do estojo, a voz sinuosa volta a cantar, o sibilo de uma cascavel, nos lembrando como tudo começou e como tudo vai terminar.

A primeira canção é sobre um homem ambicioso chamado Orlando e a encruzilhada na qual se encontra. Ele entregou sua devoção a uma mulher e seu desejo a outra. Ah, essa parte é tão comum! Até os versos seguintes sobre o profundo desprezo da personagem pela ordem social, pelas classes, sua busca primordial por poder, que o levou a assinar um contrato, para não ser nem escravo e nem senhor, para além do bem e do mal, apenas um homem livre, forçando os limites de sua vontade, elegendo o misterioso e temperamental Destino como oponente.

Ó suave e malicioso menestrel, cante uma balada de amor, aquela sobre as duas mulheres, Eva e Diana, a senhora e a princesa. Quem orienta a vontade feminina? A serpente ou a vingança? Porque, segundo a canção, uma sente o ambíguo desejo de romper com sua tradição e, ao mesmo tempo, teme a punição de sua própria tradição. A outra deseja ferir o seu amante, uma reação ao desprezo pelo seu amor, mas a cada ferida no corpo do amado é o seu coração que sangra.

Depois dessa bossa, vem o blues sobre o amaldiçoado, Elias – o belo, profeta da tristeza. Talvez se Helena fosse feia, não haveria a Ilíada. Essa é uma canção sobre outro menestrel, que aprendeu a tocar com o próprio Maestro. Ele encontrou o verdadeiro amor, a cara-metade como dizem por aí. Provando ser fora do comum, alcançou também o sucesso, pois os homens ordinários têm uma coisa ou outra. Como os antigos heróis gregos, a Glória foi sua madrinha. Porém, Elias não tinha em seu sangue o gene de um Ulisses, mas sim o de um Orfeu, por isso enterrou sua esposa suicida meses depois dela dar a luz à sua única filha, a qual não consegue olhar, porque cada traço lhe lembra o rosto falecido. Sufocado pelo peso do luto, vive entregue à crença nos seus mitos, na esperança que sua mulher possa renascer nos olhos da jovem profetisa Ana. Tudo é engano ou descoberta. Ana pretende levá-lo para outro caminho, sem misticismos, mas o peso da tradição dele o imobiliza. Ao invés da paz que anseia, o novo só lhe promete incertezas.

O maestro aumenta o volume da guitarra, vamos ouvir uma canção política. O Senador, do topo de sua cobertura, vomita enojado o licor doce da democracia. O seu braço direito, menino prodígio, Alexander C. Shelley bebe devagar, dizendo que é preciso mudar para manter tudo igual. È uma velha máxima. Ao redor deles, ovelhas furiosas: prefeitos, empresários e empreiteiros querem lucrar, dinheiro sujo e imagem limpa. Todos reunidos ao redor da mesa de negócios. Na mira, uma mina de urânio escondida sob os pés de pescadores, que acreditam serem os peixes sua única riqueza. Como seria fácil deixá-los pescar, mas sempre aparece um ambientalista para perturbar, um tipo que atira ali e acerta em outro lugar, sabe falar e sorrir para os fotógrafos. Um sujeito assim é difícil encarar, porém, disse Orlando, em uma sociedade democrática, todos devem esconder seus vícios, e nosso idealista tinha os seus. Nessa sociedade, o mais importante é a aparência, concluiu Orlando, sem discordâncias. Logo, bastava criar uma situação para o ambientalista com sua cocaína aparecer e o jornalista fotografar. Quem segue os passos de santo com pés de barro? Mas quando se luta contra o Destino, nada sai como o previsto, não é mesmo?

“Agora Maestro, por favor, desligue a guitarra! Deixe-me entender, que trama louca! O ambientalista morreu, os pescadores clamam por justiça, a polícia suspeita de crime premeditado, e ainda por cima existe essa tal Ordem, tipo uma seita secreta. No resumo estava escrito novela de horror... Tirando algumas passagens, como a do cemitério, ou Orlando encontrando sua mãe louca... É uma narrativa policial? Claro que não!”

E no silêncio do auditório, alguns ouvintes levantando, outros permanecendo, por puro respeito ao compositor, as cortinas se fecham. Devo ir embora? Muitos saem do teatro reclamando. Aqueles que ficam vêem o Mestre de Cerimônias se aproximar do microfone, em dúvida se ele vai explicar ou seguir com o espetáculo: “a parte XI ao XVIII, foi um improviso, para o baterista e o baixista solarem, agora retornaremos ao nosso leitmotiv”.

As cortinas se abrem novamente. O menestrel volta a ligar sua guitarra, o pé esquerdo sobre o pedal de distorção.

A primeira música é um rock’n roll sobre um cara comum chamado Parafuso. É uma história sobre amizade e desconfiança, lealdade e menosprezo, sobre uma mulher, sobre esta certeza: em uma situação perigo, é melhor salvar a própria pele. Esse enredo começa no exato momento em que Parafuso, fugindo de todas as conseqüências descritas acima, capotou com seu carro, açoitado por visões fantasmagóricas, cegado por uma luz intensa e, quase surdo, uma voz estrangeira recita estas palavras: “A morte perderá o seu domínio. Nus, os homens mortos irão confundir-se, com o homem no vento e a lua do poente; quando, descarnados e limpos, desaparecem os ossos, e nos seus pés e braços brilharem as estrelas”.


(na próxima semana: enterrado vivo em uma terra estrangeira).

sexta-feira, 12 de março de 2010

Homenagem a Glauco, morto hoje.

Homenagem a Glauco

Nós acordamos inquietos
Surpresos tentamos entender
A triste notícia anunciada por um âncora na tv
E com nosso olhar pesado como chumbo no mar
Afundamos.

As portas da recepção estavam sempre abertas
E as portas da sala de estar também
No final,
O algoz foi aquele que recebeu o abraço mais forte.

Nós estamos de luto
Pelo assassinato do grande Glauco e seu filho
Que as portas do paraíso se abram.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Malditos - Cap. XVIII

Uma volta no parafuso


Orlando entrou no escritório carregando o adicional cobrado por Parafuso. Porém, havia o dobro de dinheiro na bolsa, mais uma passagem e um contrato de trabalho temporário. Chegou sem aviso e cinco dias antes do combinado. Diante disso, Parafuso só pensou uma coisa: “Ele descobriu sobre mim e Diana”.

Dormira mal, pouco menos de três horas, torturou seu coração a noite inteira com perguntas: o estado de sua mãe, seus sentimentos em relação à Eva e Diana, a realização da cerimônia.

Parafuso: Adiantou o pagamento. Por quê? Vai sair da cidade?

Assumiu um jeito irônico e desconfiando, uma máscara para esconder o sentimento de vergonha diante do amigo.

Orlando: Por que você não senta? Vamos conversar. Quero te propor uma coisa, na verdade, um pedido: saia da cidade por uns tempos, até a poeira baixar. Tem um bom dinheiro aqui para três meses de férias... no Caribe, se quiser.

Parafuso soprou a fumaça do cigarro pelas narinas.

Parafuso: Se eu sair da cidade, passo de testemunha a suspeito... É isso?

Orlando se levantou com um soco na mesa, girou pela sala bufando, esfolou alguns dedos na parede, rugiu:

Orlando: Você é meu amigo... É isso! Tem um contrato de trabalho aqui. Deixe seus telefones com a porra desse inspetor, quando te chamar, você vem.
Parafuso: Com que tipo de gente você está trabalhando?
Orlando: Porra, você sabe! Para eles, quanto menos pessoas para falar, melhor! Pensa nisso. O dinheiro está aqui. Porque eu não voltarei mais.

Orlando saiu da sala pensando: “Idiota!”. Às vezes, não basta fazer o bem para as pessoas, devemos também convencê-las disso.

Quando a noite chegou, foi a vez de Parafuso torturar a sua consciência insone com perguntas: será que quer me afastar de Diana? Ou haverá uma queima de arquivo? Passou horas com o retrato dos filhos nas mãos. Então, uma imagem gelou sua alma: os filhos chorando sobre seu túmulo. Ao nascer do sol, não tinha mais dúvidas.

Sua ex-esposa se assustou ao encontrá-lo em sua porta às sete. “Quero ver as crianças”. Brincou a manhã inteira com os filhos, depois explicou a viagem a trabalho, deixou uma boa quantia com a mulher e, ao sair, sugeriu que passassem algumas semanas na praia junto com os filhos – ela poderia ir se quisesse.

Voltou à oficina.

Parafuso: Camundongo vem cá... Vou te deixar responsável pela oficina...

Explicou ao braço direito todos os detalhes, exigiu o envio semanal dos custos, enfim, mesmo longe estaria de olho. Liberou todos os empregados mais cedo. Sozinho, olhou com satisfação cada centímetro de sua oficina. Nela via refletida o seu ideal de vida, a realização de sua autonomia.

Já caía o crepúsculo quando fechou o último portão. Porém, antes de entrar no carro, avistou um jovem estudante de farmácia, que há muito mora em um prédio vizinho à oficina. Ao vê-lo, um impulso o dominou, uma vontade irracional de homenagear os velhos tempos. O jovem entrava no elevador quando Parafuso o segurou pelo braço.

Parafuso: Vamos até o seu apartamento.
O morador se assustou e subiu inquieto até o seu andar. Muitos clientes de Parafuso são policiais, por causa disso, o estudante sempre desconfiou que ele pudesse ser um informe ou qualquer coisa do tipo. Entraram no apartamento. Parafuso olhou a bagunça em volta e disparou:

Parafuso: Por quanto você me vende um baseado?

Já mais relaxado, o jovem riu consigo mesmo.

Estudante: Acho que se enganou...

Parafuso lançou as mãos sobre o peito do moleque, que caiu de bunda no chão com um olhar assustado.

Parafuso: Tu vende maconha para essa galera toda aí... Por que não pode me vender um baseado?
Estudante: Calma, cara! Não tenho! Não sou traficante, sou estudante...
Parafuso: Vou sentar aqui, se você não me arrumar um baseado, vou ligar para um camarada meu, aí vamos ver... Não é possível que não tenha nada aí!
Estudante: Calma, cara! Nunca te fiz mal, meu pai até consertou o carro dele com você...
Parafuso: Então, por que não quer me vender um simples...
Estudante: Eu não tenho erva... Mas tenho uma coisa similar, uma raiz...
Parafuso: Tipo Daime?
Estudante: Não! O nome da raiz é Sulamericana... Os índios a usam misturada com café, por isso eu chamo de café sulamericana. É uma onda boa.

Parafuso olhou para o moleque e, de alguma forma, tentou esconder o seu ridículo. Agora, para não parecer mais maluco, convinha aceitar o café. Além do mais, queria fumar um cigarro. O acadêmico preparou a bebida.

Estudante: A gente costuma misturar com leite, para dar uma quebrada...
Parafuso: Puro! Não sou o tipo café-com-leite.

Antes do primeiro gole, Parafuso olhou fundo nos olhos do anfitrião:

Parafuso: Você não colocou nenhum tipo de veneno?
Estudante: Você é desconfiado pra cacete, hein!

Ele tomou a xícara das mãos de Parafuso e a virou em um gole. Logo após beber o café, tratou de se despedir:

Parafuso: Sinto muito pelo minha truculência... Você é um moleque bacana!

Antes de ir para “onde quisesse”, Parafuso deveria passar em Cabo Frio para assinar uma papelada na empresa, ou seja, “forjar um álibi”. Seriam horas dirigindo.

O café é realmente bom, uma onda de alegria, uma satisfação eufórica, na estrada deserta à noite, Parafuso sorria e aumentava o som, a onda é boa mesmo, quando entrou no perímetro urbano, ficou maravilhado com as luzes da cidade, como uma criança olha para tudo como novidade e se encanta, onde estavam os problemas?

O café é bom mesmo, quando saiu do perímetro urbano e mergulhou na estrada, cortando o interior e suas montanhas, as estrelas brilhando, um animal cruza o asfalto, mas que animal brilha daquele jeito? Parafuso olha para as cercas de arame farpado e parecem trabalhadores marchando, então começa a ouvir um assobio, parece um sussurro, vindo do banco do carona, a voz de Diana, dizendo: “Mais café! Mais Café!”. Espantado, fechou e abriu os olhos, à sua frente havia uma nuvem negra, se aproximando, se aproximando, até se revelar uma nuvem de corvos, que entram pelas as janelas abertas do carro, foi muito rápido, um segundo, até o carro capotar, capotar, capotar e só parar no tronco de uma enorme mangueira, e a cabeça de Parafuso bater definitivamente no vidro do pára-brisa e começar a sangrar.

(na próxima semana: Eu lhe disse que não queria vê-la em lugares sórdidos).

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Malditos - Cap. XVII

Retalhos


Elias: Troque o alvo!... Distancie mais... Mais... Ok.

BANG!

Treinador: Na mosca! Hoje você está impossível.
Elias: Distancie mais sete metros. Vou experimentar o rifle.


Enquanto checava a arma, a mente de Elias mergulhou no passado. Ele tem treze anos, seu pai o ensina, pela primeira vez, a manusear o Rossi, a firmá-lo corretamente no ombro para amenizar o coice do tiro. “Nós somos uma família de caçadores, meu filho!”. O hábito de caçar é uma herança duradoura entre seus familiares, talvez tenham sido os maiores exterminadores da onça parda na mata Atlântica.

Agora, caçar é uma atividade criminosa. Por isso, criaram o Clube do tiro, para simular a velha sensação. Elias é um exímio atirador. Quando se sente angustiado, vem aqui praticar. O tiro exige concentração, clareia a mente. E tudo que precisa é um pouco de silêncio, ainda mais depois das sementes que Ana plantara em sua consciência.

BANG!

No deserto, o Astrólogo desenha sobre a areia os símbolos do infinito e do acaso. Longe dele, o Maestro se aproxima do abismo, para melhor ouvir os músicos executando sua sinfonia. Que a cerimônia comece!

BANG!

Em sua casa, sentado no sofá da sala, Orlando lê distraidamente os jornais. Sua esposa está sentada em outro sofá, com uma revista de decoração nas mãos, mas apenas para disfarçar e espiar o marido. O que ele está pensando? O que conversa tão sigilosamente com seu pai?

Alheia aos dois, a menina brinca com seu carrinho das Super-espiãs, e ela é a mais audaciosa, a mais corajosa, seu carro salta sobre a televisão, o sofá, o tapete...

Eva: Assim você cai, filha.

Orlando olhou espantado para esposa, o gesto de cuidado com a criança, o rápido abraço de proteção. Ele amassou o jornal, pegou a mulher pelo braço e a levou para o quarto, fechou a porta.

Orlando: O que foi aquilo?
Eva: O quê?
Orlando: O modo como agiu...
Eva: Ah, por favor, ela iria cair...
Orlando: Você disse “filha”.
Eva: Isso é normal, um jeito de falar, não quer dizer...
Orlando: Quando a adotamos, concordamos que não a trataríamos assim, não desenvolveríamos sentimentos paternais! Você sabe o perigo disso!

Eva estava chegando ao seu limite. Há vários meses, uma angústia silenciosa e aguda castiga seu coração, provocando incerteza e calafrios. O comportamento cheio de mistérios do marido só piora a situação. Ela respira fundo, fala mastigando as palavras:
Eva: Eu não sei até onde agüento... Não assim, com você me tratando desse jeito agressivo...

A melancolia e o meio tom desesperado de sua voz o atingiram em cheio, despertou a compaixão guardada a sete chaves. Ele a pegou pelas mãos. Sentaram-se na beirada da cama. Com a voz clara e calma, começou:

Orlando: Preciso te confessar algo.... Preciso da sua sabedoria, como sempre tenho precisando... Quero te contar algo sobre minha mãe.

BANG!

Os dias passam, o inspetor Benedito e seu assistente seguem os passos do Sr. Shelley. Nesse ponto, o inspetor é um mestre. Seus colegas o chamam de “homem-invisível”, devido a sua exímia habilidade de ocultar-se na paisagem. Agora, eles se encontram a poucos metros da casa de Diana. Shelley a tem visitado regularmente. Benedito registrou cada visita em sua caderneta, o dia e a hora. E a cada visita, tem demorado mais. Após a anotação, fechou a caderneta e aumentou o volume do som, afinal esta era a sua preferida do vasto repertório de Bob Dylan.

And you know something is happenig here
But you don’t know what it is
Do you, mister Jones ?


Assistente : Pô, não tem outro cd? Esse cara é chato demais!

BANG!

Enquanto isso, no deserto, o Astrólogo termina o desenho das constelações na areia. Os cálculos foram vistos e revistos, dificilmente as estrelas se alinharão. Durante meses buscou uma explicação para o fenômeno, encontrou uma plausível no deslocamento de Plutão – por exemplo, os astrônomos descobriram outro planeta cuja antiga órbita de Plutão ocultava. No entanto, o Maestro compreendeu a questão pela teoria da relatividade de Einstein, a qual interpretou de forma peculiar baseado na teoria do acaso. Seja como for, para o Astrólogo não resta a menor dúvida: a cerimônia não deveria ser realizada.

BANG!

Dois dias após revelar para a esposa o demente estado em que encontrou sua mãe, Orlando conversa com Pedro Cigano. Caminhando pelo jardim da Casa Michel Foucault, o emérito psicanalista e ocultista tenta explicar, ao apavorado filho, que talvez seja melhor não penetrar nas profundezas de uma mente perturbada, pois o resultado final pode ser um permanente estado catatônico.

Orlando: Gostaria que tentasse...
Pedro Cigano: No estado mental em que ela se encontra, mesmo a hipnose profunda não garante uma possibilidade segura de regressão.
Orlando: Eu li seu artigo sobre hipnose e condicionamento, se o entendi bem, é possível, em casos extremos de esquizofrenia, condicionar o comportamento do doente em uma personalidade específica.
Pedro Cigano: É uma hipótese. Através da hipnose, podemos condicionar a um comportamento específico, no seu caso, podemos condicioná-la ao papel de uma mãe protetora, ou seja, o seu desejo. Porém, se não houver o sentimento materno em seu espírito, ela reagirá a sua presença como um robô. É isso que quer?
Orlando: Eu quero que ela me reconheça!
Pedro Cigano: E aí está seu erro. Encare os fatos por outra perspectiva - ela deve te conhecer. Em seu relatório, a psiquiatra responsável aponta que, em determinados momentos, a paciente se comporta de forma lúcida.
Orlando: Li o relatório, em nenhum momento menciona que tenha se lembrado de mim.
Pedro Cigano: O passado é uma prisão e a mente de sua mãe está livre.
Orlando: Espero algo além de uma frase de efeito.
Pedro Cigano: Não se apegue à possibilidade dela o reconhecer como filho, concentre-se na possibilidade dela te conhecer como outra pessoa, como um velho amigo ou um amante.
Orlando: Eu quero saber por que ela me abandonou! Se não me reconhecer, nunca poderá responder.
Pedro Cigano: E o que fará depois? Vai abandoná-la aqui? Ou integrá-la a sua vida? Depois da cerimônia, seu poder e influência atingirão outros patamares. Imagine seus inimigos, agindo nas sombras, o que farão depois de conhecê-la? Não será difícil descobrir o amante. Como irá agir quando disserem que sua mãe foi uma vadia?
Orlando: Está me ofendendo...
Pedro Cigano: Pois bem, se eu, que selei um pacto de silêncio com você, te enervei... Imagine seus inimigos? Irão te desestabilizar emocionalmente. Reflita um pouco mais. Já a encontrou, está sob sua proteção. Mantenha uma visita regular, seja próximo, embarque nos delírios dela... Assim talvez encontre o que procura, mas não faça a busca a causa de sua ruína.

BANG!

Nos dias seguintes, Elias finalmente ligou para Ana. Os dois passaram a fazer longas caminhadas, ao final da tarde, sempre escolhendo a esmo o caminho. Nessas ocasiões, Ana lhe explicava a causa de seu rompimento com a Ordem, e como encontrou uma nova orientação.

Ana: Nós vivemos em um mundo ainda ignorante e arrogante. Nós pedimos bem-estar e recebemos riquezas medidas apenas pelo ouro. Todas as promessas são cumpridas, e nós ganhamos, mediante nossos sacrifícios, sucesso e dinheiro. Nós não passamos fome, não temos patrões. Por isso, acreditamos que somos livres. E aí está a nossa fragilidade. Apesar de toda a nossa "riqueza e liberdade", não encontramos uma explicação confortável para as tragédias que nos aflige, agimos como cegos em um mundo de escuridão.

Elias ouvia essas palavras como um desesperado ouve o sermão do pastor. Pouco a pouco, começava a acreditar nelas. Em meio à melancolia que vivia desde a perda da esposa, os passeios com Ana arejavam o seu espírito. Um dia, ela lhe perguntou se gostaria de conhecer uma pessoa, o principal agente transformador de sua vida. Ele aceitou. No dia seguinte, foi apresentado a um sujeito baixo, com a pele do rosto roseada, a barba branca bem aparada, uma voz harmoniosa, cujo próprio sentido do nome aludia à boa palavra.

Elias: Foi um imenso prazer conversar com senhor... Benedito!

BANG!

(na próxima semana: Parafuso hesita).

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Malditos - Cap. XVI

A roda da fortuna

Enquanto Diana e Parafuso curtiam um embalo romântico, dois altos membros da Ordem se reuniam em uma cobertura. A reunião foi marcada em caráter extraordinário, sem muito tempo para os detalhes. O secretário particular rebolou para cuidar de tudo: a limpeza dos cômodos, a comida, a bebida, as garotas.

Secretário: Senador, finalmente consegui falar com o Esfinge. Em uma hora estará aqui...

A pauta da reunião: os desdobramentos relacionados ao acidente do ambientalista. O Senador ainda não compreende como um assunto local pode, de uma hora para outra, interferir tanto no maior projeto da Ordem. Para ele, é incompreensível o fato de um inspetor da polícia federal incomodá-los como uma mosca varejeira. Somente uma pessoa poderia esclarecê-lo: Alexander C. Shelley, o sogro de Orlando.

Shelley: Como estão as coisas no senado?
Senador: Pegando fogo! É como se andássemos descalços em um covil. Em cada sorriso, um punhal.

O Senador pediu duas doses de uísque ao secretário. Após servi-los, o serviçal se dirigiu à cozinha, resmungando consigo mesmo.
Senador: Como estão as coisas na cidade?
Shelley: Mais complicadas do que no senado!

Enquanto ouvia o relato dos últimos acontecimentos, o Senador foi um compêndio de gestos contraditórios. À morte do ambientalista, riu de canto de boca; à menção da investigação do inspetor, secou a bebida e bateu nervosamente o copo sobre a mesa.

Senador: Nós o deixamos ir longe demais... Não acha?
Shelley: Os tempos são outros, mestre... Vivemos em uma democracia...

O Senador o silenciou com um olhar severo. Depois se levantou, lançou algumas pedras de gelo no copo recém abastecido.

Senador: E você ainda casa sua filha com um...
Shelley: Não despreze o potencial de Orlando...
Senador: Como desprezar? Eu mesmo não assinei petição para sua admissão na Ordem? Eu mesmo não serei uma das testemunhas em sua cerimônia de consagração?
Shelley: São novos tempos...
Senador: Entendo bem os “novos tempos” e, sobretudo, a “democracia”. O que não entendo é como um negócio tão importante para Ordem, relativamente simples, ganhe tamanha dimensão. Seja sincero, esse investigador sabe algo sobre a mina de urânio?
Shelley: Se soubesse, já saberíamos!
Senador: Então...
Shelley: O homem é um obsessivo... Há anos vem nos investigando... Mas existe algo que o senhor ignora. Ele pertence à Ordem Iluminista. Se estivéssemos no século XV, talvez fosse o grande inquisidor.
Senador: Estamos no século XXI.
Shelley: Por isso precisamos de um guerreiro racional e místico... E não encontramos ninguém melhor do que Orlando.

O diálogo terminou em um silêncio interrogativo, quebrado pela entrada do serviçal.

Secretário: O prefeito acaba de chegar.

O Senador e Shelley levantaram-se imediatamente, se entreolhando curiosos e apreensivos.

Para monopolizar a mina de urânio, a Ordem precisa – legalmente – comprar o terreno onde a jazida se encontra. Seus altos membros devem agir rápido, antes dos técnicos do Ministério das Minas e Energia. Por isso acionaram um braço menor, a construtora Marinhos & Santos, encarregada de executar o projeto de construção de um complexo hoteleiro na vila Atlântida. Desse modo, enquanto ricos entediados praticam ioga e esportes radicais, seus técnicos estão lá, quietinhos, retirando urânio, bombardeando o urânio de nêutrons, negociando com os países carentes de energia nuclear.

Porém, para dar o primeiro passo, é preciso convencer as várias famílias de pescadores que moram na vila. O ambientalista, ignorando a mina de urânio, considerou o projeto uma exploração da terra, além de injusto com seus moradores, por isso resolveu defendê-los. Foi assim que entrou e morreu nessa história.

Rei morto, rei posto. Daí a necessidade de contar com o prefeito como aliado.

Senador: Como é esse prefeito?
Shelley: Politicamente correto.

Quando o prefeito surgiu, o Senador cravou seus olhos de águia sobre ele. Aparentava uns trinta anos, magro, cabelo bem cortado com alguns fios grisalhos. Shelley, após as saudações, foi direto ao assunto.

Shelley: O prazo que o senhor nos deu já expirou. Já se passaram cinco meses desde o acidente... Uma secretaria não pode ficar tanto tempo administrada interinamente... Enfim, irá aceitar ou não a nossa indicação?

Com uma voz educada e firme, o gestor se justificou:

Prefeito: Os senhores hão de convir que a situação mudou bastante. Não sei se estão a par de alguns detalhes sobre o caso, mas poucas horas antes do acidente, a vítima foi ameaçada de morte... Pelo seu genro!

Mais uma vez o silêncio se impôs. Ninguém na sala imaginava por que Orlando agira assim, porém, todos concordavam que fora uma atitude estúpida. Restou ao sogro a responsabilidade de explicar o inexplicável.

Shelley: A perícia comprovou que o acidente ocorreu devido ao rompimento da barra de direção. Além disso, a autópsia revelou que a vítima estava drogada.

O prefeito ponderou a situação. Sua intuição, no entanto, lhe dizia que havia mais, caso contrário, sua presença não seria tão importante. Embora ambicioso, não era um homem vaidoso. E nós sabemos que os vaidosos são os mais fáceis de serem manipulados.

Prefeito: Algumas críticas do falecido tinham fundamento, preciso considerá-las. Por exemplo, o município, ou pelo menos seu representante máximo, tem o direito ter acesso aos estudos geológicos dos seus técnicos.
Senador: Nós temos cara de mafiosos para o senhor?

A pergunta não só foi despropositada, como fora dita em tom imperativo. Era apenas um truque da velha raposa. Seu método consistia em dizer alguma frase ameaçadora, em tom grave e de forma inesperada, para testar psicologicamente o adversário.

Prefeito: Não estou aqui para acusações.... Porém... Não posso fechar um acordo de olhos vendados.

O Senador e o Shelley trocaram um olhar cúmplice. Em determinado momento da elaboração do projeto Nova Gênese, consideraram essa situação. Se não fosse pela audácia do ambientalista, seria desnecessário um acordo com o prefeito. Senador pensava: “Até morto o maldito hippie sujo atrapalha”.

Shelley: Por isso marcamos esta reunião: para acertamos detalhes, esclarecer dúvidas, enfim, selar definitivamente nossa aliança.

Mais uma vez o mordomo surgiu para anunciar dois aliados importantes: o Empresário e o Empreiteiro, os proprietários da construtora.

Reunidos em torno da mesa, os sócios discutiram a condução do projeto, analisaram planilhas de custos, divergiram nos números, encheram copos e mais copos de uísque, embora o prefeito tenha preferido água. Animado, Shelley propôs ligar imediatamente para o geólogo que pretendiam por no gabinete, mas o prefeito, com seu jeito suave, desviou a atenção para outra analisada nas planilhas.

Empreiteiro: Com todo respeito, mas o seu genro é um moleque estúpido!
Empresário: Não trato mais nenhum assunto com ele, aliás, sugiro seu desligamento do projeto.

Orlando devia satisfações ao grupo, principalmente ao Senador. Contudo, foi o último a comparecer. O Empreiteiro pretendia “humilhá-lo”. O Empresário não sabia “como lidar com ele sem entrar em atrito com o Shelley”. Por fim, quando apareceu na sala, sua aparência desleixada deixou todos perplexos. O Senador pensou: “Ele está acabado!”.

Sogro: Orlando... O que aconteceu?
Orlando: Não tenho tido muito tempo para um sono adequado.
Empreiteiro: Você é um incompetente... Um irresponsável!

Orlando olhou com raiva o interlocutor, não tratou de disfarçá-la.

Orlando: Qualquer associação entre a morte do ambientalista e a sua construtora será uma mera hipótese sem dados concretos para comprovação.

O Empreiteiro estava exaltado, batia o punho sobre a mesa, mordia as mãos, gritava:

Empreiteiro: Você apontou uma arma, tem testemunhas... Arrgh!

Embora tenha suas reservas em relação à personalidade de Orlando, principalmente devido às suas origens na classe média, o Senador gostou de sua reação diante do touro enfurecido.

Shelley: Orlando, você deverá se afastar do projeto. Além de ter cumprido sua função, neutralizar o ambientalista...
Empreiteiro: “Neutralizar?!?”... Porra, ele matou o cara!
Shelley: ... há outros assuntos importantes que exigem sua total dedicação.

O sogro se referia à proximidade da realização da cerimônia.

Orlando: Entendo. Tenho apenas uma última declaração: o inspetor Benedito tem um informante dentro do nosso grupo.
Senador: O quê?
Empreiteiro: Não confio em nada que sai da sua boca!
Senador: Qual o fundamento da suspeita?
Orlando: Quando me interrogou, o inspetor fez algumas perguntas que somente alguém com acesso a detalhes do projeto faria.

A convicção de Orlando encheu o ambiente de tensão. O prefeito começou a estalar os dedos e bater os pés. O empreiteiro esbravejava sem ninguém lhe dar atenção. O empresário riscava um nome com as unhas sobre a mesa, há algum tempo desconfiava. O Senador lançou a mão sobre a testa: “E mais essa! Bando de idiotas!”.

Como um sopro refrescante de ar, o mordomo anunciou: “O sr. Esfinge acaba de chegar”. Em visível mudança de humor, o Senador levantou as mãos para o alto.

Senador: Senhores, creio que merecemos um pouco de distração.

Quando se tratava do Senador, Esfinge sempre escolhia as garotas mais jovens e animadas. Suas reuniões eram dignas de figurar no Satyricon.

Senador: As minhas ninfetinhas queridas... Mas só vai ganhar pirulito quem for obediente.

Enquanto os convidados se divertiam, o sogro levou o genro para outro cômodo. Além da preparação para a consagração exigir a abstenção sexual, o patriarca – até mesmo por causa de uma preocupação paternal – queria algumas explicações.

Sogro: Por que ameaçou um homem cuja morte tramou tão meticulosamente?

Orlando voltou a explicar que o fim do ambientalista não estava em seus planos, mas não era isso que o sogro queria ouvir.

Sogro: Quero o endereço e o telefone dela... Como é mesmo o nome?... Diana.

O genro passou todos os dados, embora soubesse que já os tinha.

Sogro: Sua aparência está horrível. Tire algumas semanas de folga... E lembre-se: a menina precisa ser preparada.
Orlando: Creio que a governanta que pôs em minha casa está cuidando disso.

Nunca Orlando havia sido tão ríspido. Após anos, encontrar sua mãe louca em um hospício o abalou profundamente.

Sogro: Por que não a deixou entrar no carro com o ambientalista?
Orlando: Quando a conhecer, entenderá.

Voltaram para a sala principal. O Senador começava a narrar suas divertidas histórias.

Senador: Estávamos em Brasília... Eu e mais cinco senadores. Discutíamos se aprovaríamos ou não um projeto que propunha férias e décimo terceiro para as putas... Rárárárá... Já pensou Esfinge?.. Aqueles safados corruptos acharam o projeto uma imoralidade. Até o lelé-da-cuca foi contra.
Ninfeta: E o senhor?
Senador: Minha querida, sabe o que fiz? Tirei o pau para fora, bati uma punheta e, com a própria porra, escrevi: aprovado!... Ora, sou contra a exploração do trabalho infantil.

Todos caíram em uma gargalhada uníssona. Até Orlando. A bem da verdade, o prefeito riu amarelo. No fundo, sentiu-se constrangido, inclusive pensou em partir após a chegada de Esfinge e suas meninas, mas não podia, por isso puxou uma garota e resolveu fingir.

Duas horas depois dos convidados partirem, a sós com Shelley, o Senador confidenciou sua opinião.

Senador: Espero que a única coisa que esse prefeito esconda seja a rola!
Shelley: Quando o senhor lhe oferecer a vaga no Congresso, ele cederá... Mas uma coisa me preocupa...
Senador: O comportamento do seu genro?
Shelley: Confio em Orlando... Sei que está escondendo algo, mas confio nele...
Senador: O que o preocupa então? Ou quem.
Shelley: Elias!
Senador: O meu sobrinho-neto?!?
Shelley: Ele realizou um ritual de reanimação sem a nossa consulta. Está se tornando rebelde.

(a seguir: Elias, o franco-atirador).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Malditos - Cap. XV

As portas da percepção estão abertas

Diana aumentou o volume do aparelho de som, a voz grave de Jim Morrison surgia clara do além-túmulo:

She was a princess
Queen of the Highway
Sign on the road said:
take us to Madre
No one could save her

Todas as dúvidas em relação a Orlando brevemente suspensas. Os inúmeros registros das ligações do inspetor da polícia federal permanecerão sem respostas. Agora, a única coisa importante é a diversão. Mas é impossível se divertir sozinha. As companhias possíveis registradas na agenda do celular são inúteis: amigas falsas, coroas com suas pílulas de viagra e cartões de crédito. Ela não precisa de dinheiro. Só quer uma presença legal, alguém que não dê nada em troca além da sincera admiração. Nesse momento, só existe uma pessoa capaz disso.

Diana: Alô... Leandro, como está?... Então, vamos sair... Quero dançar, estou tão entediada! Topa?... Daqui a meia hora passo na sua casa!

Parafuso desligou o telefone surpreso e desconfiado. Olhou para as unhas sujas de graxa. Tinha pouco tempo para se arrumar. Começou fazendo a barba, depois cuidou das mãos, ligou o chuveiro: sabonete, condicionador, perfume. Experimentou uma, duas, três camisas... E a campainha tocou! Saiu correndo vestindo apenas a calça, abriu a porta...

Diana: Que recepção!
Parafuso: Achava que fosse demorar mais um pouco... Entre.
Diana: Pode terminar de se arrumar.

Diana se sentou no sofá, abriu a bolsa, pegou um estojo dourado, retirou um baseado, acendeu e, depois da primeira tragada, ofereceu a Parafuso, que recusou. Ela não sabe, mas o uso de drogas arruinou o seu casamento e quase o levou à sarjeta. Só os fortes sobrevivem – diria Keith Richards.

Parafuso: Estou pronto! Para onde vamos?
Diana: Ao Pow Pow Club... E eu dirijo!

Parafuso pensou em encostá-la na parede, tirar a verdade como um dentista tira um dente, porém ela abriu aquele sorriso lindo e o lembrou o quanto esperou por isso. Ah, deixa o interrogatório para amanhã. Antes de entrar no carro, ele averiguou a rua para se certificar se havia algum carro estranho.

Diana: O que foi?
Parafuso: Nada!

Ela deu a partida, fez a curva a 80 e esticou a 100 quando entrou na avenida principal, cantando junto com Iggy Pop:

callin' from the fun house with my song.
we been separated baby far too long.
callin' all you whoop-de pretty things.
shinin' in your freedom come and be my rings.

Enquanto esta amazona do século XXI dirigia elétrica, Parafuso voltava os olhos para trás de modo tenso e obsessivo.

Diana: Tem alguma coisa te preocupando?
Parafuso: Não! Por quê? Deveria?
Diana: Você não mudou nada.

Ela sorriu, passou levemente as mãos pela cabeça do carona. Depois acendeu o baseado que começara a fumar na casa do velho amigo, sem perceber que logo a frente havia...

Parafuso: Uma blitz da polícia! Puta-que pariu, apaga essa porra!
Diana: Relaxa, meu querido. Você está comigo.

Diana apontou para um adesivo colado no canto esquerdo do vidro da frente do carro. Parafuso reconheceu o símbolo. Ao verem a inscrição “poder judiciário”, os policiais abriram passagem. Para provocá-los, ela abriu o vidro do motorista, deixando sair o forte cheiro da erva, fez um sinal de continência e seguiu com o som no volume máximo.

Parafuso: Não precisava abusar. Se eu fosse um deles, te parava na hora!
Diana: Ainda bem que você está do meu lado, não é?

Ele não respondeu, apenas acendeu um cigarro e ficou imaginando o que ainda estava reservado para a noite. Esperava amanhecer com ela nua em sua cama.

O Pow Pow Club é um lugar onde os extraordinários se encontram. Na entrada há uma placa na qual se lê: celebridades não entram. É preciso muito mais do que dinheiro ou fama para entrar. É necessário algo a mais para dançar no salão. Sua localização é um segredo guardado a sete chaves. Eça de Queiroz gastaria páginas e mais páginas descrevendo cada detalhe do recinto – que pena que ele não está aqui. Quando um estranho aparece, não importa com quem esteja acompanhado, só entra se passar pelo crivo do proprietário – o Esfinge.

Parafuso: Que lugar é esse?

Diana coloca a mão no peito do amigo, indicando para esperá-la na entrada. Ela conversa com o porteiro. Este pega o celular. Parafuso faz um sinal para a amiga se aproximar.

Parafuso: Qual é a desse porteiro?
Diana: Aqui é um clube seleto...

Um sujeito baixo surge na porta de entrada.

Esfinge: Diana... Minha princesa.

Eles se abraçam como velhos conhecidos e conversam rapidamente. O desconfiômetro de Parafuso ultrapassa o limite vermelho, ainda mais depois deste diálogo.

Diana: Este é Leandro... Somos amigos de infância.
Esfinge: Ele não está vestido apropriadamente, tem um cabelo horrível, a coluna torta e é manco! Não sei... Eu gosto tanto de você, mas...

Analisou o mecânico de cima para baixo. Parafuso também cravou o olhar sobre o proprietário do clube, que vestia um terno preto listrado, lenço vermelho dobrado em v no bolso, calça de brim engomada, estilo mafioso.

Parafuso: Para mim, você com que essa estampa don Corleone, saiu do desenho da Penépole Charmosa...

Diana fez um esforço para não rir. O porteiro lançou um olhar pouco amistoso e escondeu uma das mãos na cintura.

Esfinge: Me dê um bom motivo, além de sua bela companhia, para deixá-lo entrar.
Parafuso: Eu estou aqui por acaso e não vou voltar.

Após segundos de silêncio, o proprietário sorriu, deixando à mostra os dentes caninos afiadíssimos.

Esfinge: Boa resposta...

Diante da situação inusitada, Parafuso esperava encontrar um ambiente de luxúria e perversão. Tudo era absolutamente normal. A música era boa e muito alta. As pessoas eram bonitas, e é claro olhavam com estranheza para ele. Havia um forte cheiro de cigarro misturado a álcool. “Mas pelo amor-de-Deus” – pensou – “isso é igual a qualquer lugar!”. Nada justificava a cena da entrada. Outra vez ela o submetia aos seus caprichos, por isso segurou firme o braço dela.

Parafuso: Qual é?
Diana: Nem tudo é o que parece.
Parafuso: Por que me trouxe aqui?

Diana o beijou na boca. O gosto agridoce dos seus lábios o remeteu a outro lugar, não era nem o passado e nem o presente, um espaço prazeroso no qual se sentia como um guerreiro, um instante que não deixaria acabar.

Diana: Agora quero dançar! Pega uma bebida para gente.

Como uma criança com a primeira bicicleta, Parafuso foi até o bar. “Que bebida eu levo?” – boa pergunta, afinal o que significa “uma bebida para gente”. Ah, ela é uma lady! Pegou a carta de bebidas, correndo o dedo pelos preços percebeu o significado de “clube seleto”. Ainda bem que Orlando havia depositado o adicional pelo trabalho sujo. Uh, péssima lembrança. Não! Pensamos nisso amanhã, sem dramas esta noite.

Barman: O que o senhor vai querer?
Parafuso: Um coquetel de morango com vodka... E um black label caprichado...

Ao passar pela pista até Diana, tentou preservar ao máximo o seu destilado, pois “cada gota está valendo o salário dos meus empregados”. Ao chegar, ela tomou de sua mão o copo de uísque. Após um longo gole, sussurrou ao seu ouvido: “ADORO JORGE BEN. VOCÊ GOSTA?”. Como um bom roqueiro das antigas, Parafuso não tinha o menor interesse por nada ligado a samba ou suingue; no entanto, tinha que ser sincero.

Parafuso: Acho legal.
Menina gata Augusta, menina Augusta gata
Menina, menina
O que ela vai comprar eu não sei
Mas se ela quiser comprar o meu amor
Eu lhe daria de graça

Sem lá muito ritmo para o samba rock, enjoado com o coquetel de morango, Parafuso voltou ao bar. Duplo black label. Ao voltar, encontrou Diana com uma mulher que o deixou sem oxigênio.

Diana: Vou ao banheiro... Não fuja!

A mulher olhou para ele com um indisfarçado desdém. E as duas seguiram sorrindo em trenzinho pelo salão. Ao entrar no reservado, a amiga esticou duas carreiras de cocaína, menor apenas que o seu sarcasmo.

Amiga: Fofa, o que é essa pessoa ao seu lado? O Sherek?!?
Diana: Se você ler Vitor Hugo, saberá que uma aparência grotesca esconde uma alma bela.
Amiga: Não é preciso leitura para saber que está com esse ogro por carência...

A frase foi uma dura estacada em seu orgulho. Enquanto a amiga da onça limpava o nariz diante do espelho, Diana via o reflexo de sua fragilidade e não se reconhecia. Ela deixou a fútil...

Amiga: Ei, disse alguma coisa?

Voltou ao salão...

Diana: Leandro, vamos embora...
Parafuso: Demorou...

O caminho de volta foi lento e silencioso. Cada um imerso em seus dilemas. Antes de abrir a porta de sua casa, Parafuso se deu conta de um fato: “Ela sempre me chamou pelo meu nome”. A constatação cobriu como um véu sua desconfiança.

Leandro: A casa está meio bagunçada.
Diana: Não tem importância.

O sol nascia iluminando seus corpos nus.

Leandro: Sonhei por esse momento durante anos. Apesar de tudo, Orlando sempre foi o meu melhor amigo.
Diana: Os melhores amigos são os maiores traidores.

(a seguir: uma aula de política com o Senador)