quarta-feira, 25 de março de 2009

malditos- cap.V

Um lance de dados jamais abolirá o acaso


Há uma fera a solta na madrugada nessa cidade. Seus olhos são frios. Seus gestos são calculados e violentos. Sua alma é alimentada com fogo. Seu destino é caçar e dominar. Esse animal selvagem, puro em seu ódio, é um ser humano. Está acuado. Seu nome é Orlando.

O reflexo dos letreiros dos bares brilha no pára-brisa do carro em trânsito. A meia-hora atrás havia deixado Diana e respondido com silêncio a todas as suas perguntas. Dentro do peito, Orlando arde em mil considerações. Ele dobra à esquerda para alongar o caminho de volta para casa. Na avenida os travestis pedem carona. Por que seguiu por esse caminho? Ele não sabe. Para alguém que está investindo tudo no poder, é angustiante agir sob ordens superiores, ser uma marionete. Árduo o caminho de quem vem de baixo. Seria mais digno aceitar a sua parte no quinhão, dormir sem questionar nada. Não! Isso é ser escravo, empregado, submisso. Não! Aos quinze anos Orlando jurou que não seria um escravo. Só o poder emancipa o homem nessa sociedade, foi algo que ele deduziu assistindo às aulas de filosofia. Só deixará de ser escravo quando atingir o poder. Sua cerimônia será sua alforria. Mas para chegar até lá, terá que provar o seu valor, duas vezes mais do que os seus antecessores.

Ele chega em casa. Acende a luz da sala, pára admirando a elegância dos móveis e a tecnologia dos aparelhos elétricos. De repente, a imagem da casa de seu pai surge como uma projeção fantasmagórica. A riqueza de sua residência se fundia à pobreza do lar de seu pai. Sua cabeça doía. Foi à cozinha, tomou dois analgésicos, abriu a geladeira. A governanta aparece silenciosa, com sua voz austera:

Aparecida: Deseja que faça algo para o senhor comer?

De costa para ela, respondeu:
Orlando: Não! Pode voltar para cama.

Ele abre a porta do quarto. Eva, sua esposa, dorme profundamente, a respiração ofegante, as pupilas agitadas, sonhos intensos. Fecha a porta, segue pelo corredor, pára em frente ao quarto da menina, segura a maçaneta, sente vontade de abrir, mas não tem força para isso. Sobe as escadas para o terraço. Sua consciência é um mar revolto.

Se não vivesse o período da “abstenção”, abriria uma garrafa de uísque e a beberia até o sol nascer. Esta é a primeira lição a aprender esta noite: o álcool torna o homem fraco. Mas é preciso algo que acalme os nervos, relaxe o corpo, alguma coisa prazerosa. Então, sem avisar, outra vez, a imagem aparece à sua frente: o carro... girando... pumb! pumb! pumb!
Sufocado, Orlando tira sua roupa e gira em círculo pelo terraço, tendo o sol nascente como juiz. Ele anda em círculo, repetindo a frase “vou vencer, vou vencer, vou vencer”... como uma mantra. Então... Pumb! Pumb! Pumb!

Ele levanta a cabeça, sobre seus olhos uma revoada de pássaros, tantos cantos diferentes, tantos timbres. Uma hora se passa, sem que perceba, ouvindo os cantos dos pássaros. Como se estivesse entorpecido, levanta e corre para o depósito, à procura do antigo gravador de rolo: “Eu preciso gravar isso, eu preciso gravar isso, eu preciso gravar isso”.

Após localizar o gravador, gastou tempo buscando um bom lugar para a gravação. Depois deitou no chão. Voltou o sentimento de fuga. Junto com os pássaros, sentiu seu espírito voando no céu. Sensação confortável. Nenhuma voz, nenhuma lembrança, somente o vasto e vazio céu, um gravador gravando o silêncio. No entanto, sem avisar, obsessivamente... Bump! Bump! Bump!

Uma hora depois, Orlando se encontra espremido na parede, sentado com os braços ao redor dos joelhos, encolhido, tremendo. Emoções há anos reprimidas vem à tona.

Á sua mente volta a imagem de seu pai no caixão. Orlando não chorou sua morte. Não o admirava. Logo, diante de si, vê o reflexo de sua infância, a alegria que sentia quando Ele chegava do trabalho. O abraço de seu pai exalava um cheiro embriagante de felicidade. Nunca mais voltou a sentir esse cheiro. Nem a ter orgulho dele. Quando faleceu, o único sentimento pelo pai era vergonha. Essa lembrança o torturava.

“Preciso falar com ela”, Orlando repetia, chorando e com raiva. “Tem que dizer”. “Só ela pode explicar”.

Desse momento em diante, explodiu em um choro ressentido e delirante. Sentiu-se vagando no centro de uma tempestade, lutando debilmente contra ela. Fora de seu alcance, girava a chave e o baú onde guardava seus rancores e esperanças. Depois tombou. Seu corpo ardeu sobre o mármore frio. Seu espírito caíra do céu até o sétimo círculo das profundezas da terra. Até à inconsciência.

Orlando despertou com pontapés na barriga e o som de uma voz firme e grave:

Sogro: Levante! Vamos, de pé!

Do ângulo de visão em que se encontrava, deitado no chão, seu sogro lhe parecia um gigante.

Sogro: Aparecida me disse que estava aqui. Talvez ela o tenha visto nessa posição humilhante.

Instintivamente, levantou-se. Seu sogro era muito magro, mas não fraco, magreza imponente, sempre elegante e esguio. Orlando o encarou, depois de despertar do pesadelo, e o sogro já não era mais o mesmo, agora ele era “O manipulador”.

Orlando: Vou tomar um banho. Peça para governanta subir com o café da manhã. Vamos conversar aqui.

Ao voltar do banho, Orlando encontrou uma farta refeição. Enquanto comia, seu sogro o analisava.

Sogro: Já leu o jornal de hoje?

E lançou sobre a mesa o exemplar do Notícias Matutinas. Orlando leu a chamada da primeira página: Doidão de pó, secretário sofre acidente fatal na estrada do Contorno.

A matéria pintou o morto como lobo em pele de cordeiro. Reportagem totalmente tendenciosa, como não poderia deixar de ser, afinal o jornal é de propriedade de um dos sócios do sogro. O ambientalista havia infringido o código de trânsito, ao dirigir embriagado e sem o cinto de segurança; e o código civil ao usar substâncias ilegais, pondo a vida de terceiros em risco. Em um cantinho de página há uma declaração do presidente da associação de pescadores, se dizendo “perplexo e horrorizado”. A vítima sempre fora um motorista prudente. Orlando ri. No período de duas semanas em que seguiu todos os passos do secretário, percebeu que ele sempre usava o cinto. Investigando sua ficha no Detran, constatou que, em dez anos de carteira, nunca tomara uma multa. Se estivesse usando o cinto e dirigindo na velocidade permitida, estaria vivo. Talvez nesse exato momento, estivesse dando uma entrevista para justificar a presença de cocaína no seu sangue. Essa era a etapa final do plano, a exposição pública, afinal, subornara um enfermeiro do pronto socorro para isso. Não se pode dizer que não tenha feito o seu trabalho.

Orlando: Foi um acidente.

Ao ouvir essa frase, os olhos do sogro se inflamaram, levantou-se abruptamente com um soco sobre a mesa, e segurou Orlando pelos ombros, como se quisesse despertá-lo de um estado letárgico.
Sogro: Você matou esse homem. Não seja fraco. Está preste a ser consagrado, assuma o seu feito. Diga: Eu matei aquele ambientalista de merda! Diga: Eu matei! Era uma pedra no meu caminho, eu chutei!

Seguem-se segundos de silêncio, interrompido pelo som estampido de uma tecla. Plec! A tecla stop do gravador escondido no banheiro. Orlando encara o seu sogro. Se algo além acontecer, seu discurso, gravado na fita, bem editado, será uma confissão.

Sogro: Que barulho foi esse?
Orlando: Deve ser a menina brincando, ela derruba tudo.
Sogro: Agora diz: Eu matei aquele safado.
Orlando: Eu matei. Mas preferia que estivesse vivo. Morto, fica a imagem de mártir.
Sogro: Isso não interessa. O importante é que agora há uma vaga e vamos colocar alguém nosso nela. O Senador já está conversando com o prefeito. Você foi brilhante! Todos estão impressionados com a sua eficiência. Sua cerimônia será grandiosa, ainda mais levando em conta sua origem.
Orlando: Por falar nisso, queria lhe fazer um pedido: gostaria que Elias não participasse da consagração, tenho direito a vetar um nome.
Sogro: O quê?

(a seguir: Apresentando Elias, o garboso)

sábado, 14 de março de 2009

Malditos - Cap. IV

Estrada para perdição

Sentado na mesa 04 do Satyrico’s bar, esperando. O relógio marca 19:30. Orlando mais ansioso do que noivo no altar. Não é para menos. O projeto Nova Gênese é o mais importante da empresa neste ano. Em seu início, seu nome nem sequer foi mencionado. Devido à sua magnitude, só os altos membros participaram da idealização do projeto. Agora que o empreendimento empacou, foi chamado. E pior, no seu período de “preparação” para a cerimônia, quando deveria estar em retiro, é testado em uma missão suicida. Seu celular toca como se o despertasse de um transe.

Orlando: Olá, Maninho! O cidadão te ligou?... Ótimo!... Ele está na fissura... Você marcou com ele no Satiryco, às oito? Ótimo... Preste atenção: daqui a pouco chegarão duas gatinhas à sua casa, um presentinho adicional... Divirta-se!

19:45. Através da janela do bar, Orlando vê Parafuso se esgueirando sob as sombras das árvores que praticamente escondem a entrada do bar. Ele chegou antes, como sempre, para averiguar o lugar. Desconfiança é ouro nesse mundo. Seu celular toca novamente, olha para o visor: sogro chamando.

Orlando: O meu plano está correndo como o previsto... Se meus ajudantes chegaram? Já... Não, esse ainda não.... Espere, o alvo chegou! Vou desligar.

O ambientalista entrou no bar saudando seus companheiros de luta, os pescadores da região, os moradores dessa lucrativa vila. Ele é geólogo e foi nomeado secretário ambiental, cargo criado pelo prefeito para ficar bem com o ministério do meio ambiente. Há alguns anos atrás, descobriu-se na região uma imensa jazida de diamantes, muitos pescadores tornaram-se garimpeiros, e rapidamente alguns comerciantes começaram a negociar com joalheiros internacionais. Tal descoberta chamou atenção dos capitalistas.

A empresa a qual Orlando representa realizou um estudo secreto sobre o solo da região, que apontou para a existência de uma mina de urânio. Somente dez pessoas sabem dessa informação. Orlando não está entre elas. Foi nesse momento que se elaborou o projeto Nova Gênese, cujo objetivo é: comprar as terras onde se localizam as minas, monopolizar o negócio de diamantes, construir uma fábrica e uma usina, empregar a mão de obra local no trabalho pesado, enfim, por ordem na casa. Tudo ia bem, com o Senador facilitando o diálogo com os políticos locais, até o secretário começar a agitar a massa.
O ambientalista bateu de frente com a construtora Marinho & Santos, representada pelo empreiteiro e o empresário. Como podemos observar no início, ambos foram inábeis para lidar com o secretário. Na verdade, subestimaram o carisma do oponente. Em um mês, o idealista conseguira inflamar a população. Sua popularidade foi tema de uma reportagem da revista. Ele alcançou esse status a partir de hábitos rotineiros, como ir todas as quintas ao Satyrico’s bar, onde os trabalhadores se reúnem para discutir política e beber algumas cervejas antes de voltar para casa. Ir uma vez por semana foi importante para criar expectativa entre os freqüentadores, e o bar tem ficado mais cheio nessas noites. Seus admiradores apenas não sabem sobre seu vício em cocaína.

A Orlando foi incumbida a missão de resolver o imbróglio, para tanto, armou o plano que se desenrola diante de nossos olhos. Primeiro entrou em contato com Maninho, o traficante, que só venderia a droga para o ambientalista na quinta-feira, em um encontro no Satyrico’s bar. Enquanto isso, Parafuso realiza seu trabalho. Tudo sob a supervisão do sogro de Orlando, que o indicou para a missão. Mas para que o ardil se realize à perfeição, precisa de Diana.

20:00. Orlando liga para ela, ouve a mensagem informando o telefone desligado, abre dois chicletes anti-nicotina de uma vez. Sua fissura só não é maior do que a do geólogo. A pouco levantou a voz para um companheiro, fato que surpreendeu a todos, pois sua fala sempre foi mansa e educada. Agora mesmo pegou o celular e foi para fora do bar. Em sua mesa estratégica, Orlando observa suas inúteis tentativas para se comunicar com Maninho. Há deleite em seu olhar ao vê-lo levar as mãos trêmulas ao cabelo e voltar ao bar, impaciente.

20: 25. Nada corre bem. A peça final para realização de seu plano ainda não chegou, o celular desligado. O idealista começa a tratar rispidamente alguns companheiros, parece inconformado com raciocínio lento deles. Parafuso entra no estabelecimento, olha de soslaio para Orlando, discretamente faz sinal de positivo, depois senta no balcão, pede um maço de cigarros, uma cerveja em lata, pergunta pelo resultado do jogo. Seu trabalho já está pronto, cinco minutos antes do previsto.

Ao sair, Parafuso envia a seguinte mensagem para Orlando: “Seu erro é o excesso de autoconfiança”. Orlando desliga o celular. Quando pensava em atirá-lo pela janela, Diana entra no bar. Boa fisionomista, ela reconhece o ambientalista na primeira olhada. Ao contrário do combinado, não se aproxima dele, apenas senta no balcão.

Pelo plano de Orlando, ela o procuraria discretamente, se apresentado como enviada do traficante, lhe entregaria o produto, e sairia. Ação simples. Por que ele não poderia executá-la? Correria o risco, depois, de ser reconhecido. Nunca correr riscos.

O ambientalista levanta de sua mesa para ir ao banheiro, no caminho Diana o segura pelo braço e cochicha algo em seu ouvido. Seus companheiros se exaltam. Ele retorna à mesa, inventa uma desculpa, retorna à companhia de Diana sob os aplausos dos amigos. A frieza de Orlando chega ao seu limite. O que ela falou? Por que sentar em outra mesa? E, ainda por cima, de costas para ele? O viciado toma a direção do banheiro, com uma das mãos fechadas.

No banheiro, o idealista lança a cocaína sobre sua carteira, como um esfomeado avançaria sobre um prato de comida. Aspira fundo uma, duas, três vezes. “Valeu a pena esperar!” Volta ao salão sorrindo, abraça quem antes tratara com rispidez, canta o antigo sucesso do grupo Brylho: “A noite vai ser boa, de tudo vai rolar, de certo que as pessoas devem se conhecer...”

Diana o aguardava imaginando Orlando se remoendo em sua mesa. Ele estava furioso, sentia vontade de arrastá-la a porradas, mas não podia por seu plano a perder, pois embora demorasse além do combinado, ela havia entregado a encomenda. Agora os dois conversavam sem que pudesse ouvi-los. Que angústia!

Diana: Quando me pediram para te encontrar, quase não acreditei... Sou sua fã.
Sob o pretexto de retocar o batom, a bela retirou de sua bolsa o espelho para mirar Orlando.Talvez tenha considerado o atraso um meio para provocá-lo, tolo presunçoso, só queria mais tempo para investigar sobre o homem que encontraria. O ambientalista, fascinado pelos seus ombros desnudos, nem percebeu que ela procurava um ângulo de observação. Satisfeita, fechou o estojo de maquiagem, abriu um sorriso charmoso para o interlocutor.

Diana: Qual sua motivação nessa campanha, é política?
Ambientalista: É humanista!
Diana: Naquela matéria da revista, você faz algumas acusações....
Ambientalista: A construtora Marinho & Santos está trabalhando para um poderoso grupo econômico chamado Gênese. É um conglomerado formado por políticos, investidores internacionais, intelectuais, que pretendem explorar as riquezas minerais da região.
Diana: Você reconheceria algum membro se estivesse aqui?

Intrigado, o geólogo olha em volta, sem reconhecer nenhum membro da construtora, os únicos que conhece ligados ao grupo Gênese. Seus companheiros sentados em outra mesa fazem sinal de positivo, um deles, mais folgado, imita com as mãos o ato de felação.

Ambientalista: Vamos conversar em outro lugar...
Ao perceber o garçom encerrando a conta do casal, Orlando sai do bar, para esperá-los do lado de fora sob a penumbra das árvores. Em dois minutos surgem, quando Diana prestes a entrar no carro é puxada.

Ambientalista: Que porra é essa?
Orlando: Entre no seu carro, isso não é assunto seu!
Diana: Me deixa!

Nada ocorre como o previsto, por causa dela! Não queria se revelar, agora o ambientalista tenta empurrá-lo. Orlando levanta a blusa deixando visível a pistola nove milímetros na sua cintura.

Ambientalista: Ela não que ir com o senhor!
Orlando: Entre no seu carro e suma! Se não, te dou um tiro na cara, agora!

As sombras das árvores não permitem que as pessoas no bar vejam a arma apontada para o rosto do ambientalista.

Ambientalista: Ele é seu marido?
Diana: Vá embora, será melhor!
Orlando segura fortemente o braço de Diana, arrastando-a para seu carro.

Diana: Com que tipo de gente está envolvido? Acha que pode me usar?

Ele nada responde. Através do espelho retrovisor, vê o ambientalista se drogando mais. Então, das sombras, surge um bêbado. Diante de sua aparição, o geólogo liga seu carro e parte cantando pneu. Orlando o segue.

Diana: O que está acontecendo?
Orlando: Você estragou tudo.
Diana: Para que segui-lo?

O limite de velocidade da estrada do Contorno é de 80km. Ao perceber o carro atrás, o ambientalista pisa fundo. 100 km. Orlando quase derrapa em uma curva. A estrada é traiçoeira. O secretário conhece cada curva. 140km. Exímio motorista. Não pisa no freio, mas quando o faz pela primeira vez, não há resposta. Seu coração gela. Ao tentar reduzir a marcha, ouve um barulho estranho vindo do câmbio de direção.

Diana: Meu Deus! Ele capotou! Pára o carro, Orlando... Pára!
Orlando: Não.

O carro virou cinco vezes até sair da estrada. Nervoso, Orlando pega o celular.

Diana: Para quem você está ligando?
Orlando: Para o resgate. Alô, Chicão... Vem para a estrada do Contorno, aconteceu o acidente.
(no próximo capítulo: eu lhe disse para não abrir esta porta).

sábado, 7 de março de 2009

Malditos - Cap. III

Velhos companheiros


A comissão era tentadora. Ela disse sim. Por outro lado, não estava disposta a entregar todos os pontos. Diana sabia farejar segredos. Além disso, se algo secreto a envolvia, o próprio senso de sobrevivência a exigia saber mais. Ele não lhe escondeu nada, mas também não revelou tudo.
Orlando despediu-se dela na porta do carro, com o motor já roncando.

Orlando: Eu preciso ir... Depois a gente conversa... Não se esqueça, as oito da noite, Satyrico’s bar.

Diana não disse nada, nem precisava. Estava tudo escrito no seu olhar. E no mínimo detalhe do movimento do seu corpo. Enquanto o Mercedes levantava poeira e o motor rugia como um animal furioso indo à caça, ela subiu lentamente as escadas, mirando as nuvens, o contorno das montanhas.
Orlando dirigia rápido, olhando o relógio, analisando cada elemento envolvido em seu plano. Não queria incluir Diana. Mas sem seus sócios de confiança, não logrará sucesso. Para ele, nesse momento, pior que uma peste somente o fracasso. Outra conversa difícil pela frente.
Diana sentada no degrau da escada, virando e revirando o celular: ligo, não ligo. A dúvida corroia seu peito até sentir calafrios. Por que aceitou? Pela comissão... Francamente, ela mente melhor para os outros. Ligo, não ligo. E se acontecer algum acidente? Por que aceitou? Uma proposta infame. “Será que ele me vê como uma prostituta?”. Ligo, não ligo. Ele não iria tão longe, não seria tão vulgar. Mas que tipo de situação, ou gente, o forçaria a tomar uma decisão relutante? E ainda por cima irá se encontrar com Parafuso, aquele marginal! Não ligo.
Quando estacionou o carro e viu Parafuso, com sua velha camisa dos Ramones e seu andar coxo, Orlando não evitou um sorrisinho sarcástico. Algumas coisas nunca mudam, são duras como as rochas e burras como os cavalos.

Parafuso: E aí meu caro Orlando, o garboso! Gostou do visual do bar?
Orlando: Já estive em puteiros melhores.
Parafuso: Ih, tô te estranhando! Sempre soube que um dia você se revelaria.
Orlando: É um prazer revê-lo, senhor Leandro Álvares Pimenta – o enroscado.

Os dois se conheceram no colégio, quando tinham quatorze anos. A alcunha surgiu devido a uma frase que Leandro repetia em todas as situações: “eu tô enroscado, tenho que ir”. Para Orlando, “quem vivia enroscado era parafuso. Tá aí! Leandro Parafuso, o meu camisa 9”. O apelidou pegou. Como essas mentes tranquilas, que sabem tirar o proveito das coisas, anos depois, Leandro passou a usá-lo profissionalmente: “Parafuso, o melhor mecânico da cidade”.

Orlando: Vamos conversar em um lugar mais discreto. Tenho um negócio importante a te propor e pouco tempo para realizá-lo.
Parafuso: Está me convidando para um quarto?
Orlando: Estamos perdendo tempo.
Parafuso: Relax, brother! Dois caras conversando em lugar público chama menos atenção do que conversando em um beco escuro. Além do mais, quem prestará atenção em nós no meio de tanta mulher bonita, olha só! Pode falar, sou todo ouvidos.

Parafuso nasceu dotado de inteligência prática. Aos sete anos já sabia desmontar um motor. Seu pai era mecânico, e ele idolatrava o pai. O menino tornou-se um homem pragmático e desconfiado. Para ele, não há nenhuma desonestidade em superfaturar as notas do conserto, ou eventualmente repassar carros roubados, nada disso... Trata-se de um adicional pelo talento. Achou arriscada a proposta de Orlando, mas a comissão parecia segura.

Parafuso: Não acredito que você me fez essa proposta! Que tipo de empresa está trabalhando que te obriga a isso?
Orlando: O tipo de empresa que oferece essa quantia de dinheiro, aqui dentro dessa mala ao meu lado. Negócio limpo e rápido. Daqui a duas horas a gente se encontra, em meia hora já terminou o serviço e volta para casa... Nem o vento saberá.
Parafuso: E a Diana, e se ela não aparecer?

(a seguir: Maldito hippie sujo)

domingo, 1 de março de 2009

MALDITOS
Capítulo II
Just like a woman


Ao sair da reunião, Orlando telefonou para sua casa à procura da esposa. Aparecida atendeu. Algo sempre o incomodou nela, sua única serviçal. A explicação para tal incômodo, como quase tudo na vida, não se limita a um único fator. Antes, a senhora trabalhara para seu sogro. Foi ama-de leite de sua esposa. Quando se casaram, ela foi transferida para sua casa, por vontade do sogro. Nunca concordou com isso, mas seria impossível contrariar sua mulher, seu sogro, sua sogra. Isso é o que se pode chamar de costas quentes. Além disso, há o modo como ela o trata: aquele olhar frio, as frases soltas...E acima de tudo, o maior incômodo, a relação da governanta com a menina.
Olhou para o relógio, já passavam do meio-dia e ainda faltavam duas visitas. Entrou no carro. Tantas coisas para fazer, conversas difíceis à frente. E dirigir, sempre gostou de fumar dirigindo. Qual seria a verdadeira natureza da provação? Envolto em incertezas, acelerava para esquecer a fissura da nicotina, o paradeiro da esposa, a governanta...
À medida que o velocímetro avançava, Orlando sentia outra vez a estranha sensação de fuga, uma ilha deserta. A miragem logo se dissipou ao se encontrar em frente ao portão dela.
Vale a pena morar longe da cidade, principalmente quando se vive em um casarão colonial, com um bom pedaço da mata atlântica no quintal. É bem melhor acordar ao som de canários e sabiás. Essa partícula do paraíso lhe foi dada de presente. Ela tem estilo.

Diana: Ora, ora... Eis que recebo a visita de Orlando, o misterioso.

Ela vestia um vestido muito bem decotado, branco.
Diana: A que devo a honra?

Orlando: Preciso da sua colaboração em um negócio urgente, uma boa comissão.

Orlando olhou para o interior da enorme sala, procurava um lugar para se sentar, mas os dois sabiam que buscava esconderijo. Diana caminhou em direção à estante, pegou a caixa forrada com veludo negro, retirou um baseado. Sentou em sua cadeira de balanço, de frente para ele. Acendeu o cigarro, deu uma longa tragada, abriu um pouco as pernas, o vestido deslizava sobre suas coxas, soprou a fumaça como uma provocação. Havia algo diferente no olhar dela, poderia ser raiva ou desprezo.
Diana: Você quer me propor um “negócio”, por “uma boa comissão”... É só isso que tem a me oferecer, depois de... Quanto tempo que não nos vemos?

Orlando: Doze meses.

Diana: Muita coisa acontece com uma mulher durante esse período, sabia?

Orlando e Diana se conheceram na adolescência. Os dois se viram pela primeira vez no corredor do teatro da escola estadual. Uma agência de modelos promovia um desfile de verão entre os alunos. Espremidos em uma fila dupla, trocaram algumas palavras, riram da situação em que se encontravam, seminus, vestidos como índios. Naquele momento nasceu uma afinidade, uma atração, “uma identificação cósmica” segundo Diana.
Orlando: Me ausentei porque foi preciso.

Diana: Para quê? Qual a finalidade? Mereço maior atenção.

Ela deu outra longa tragada, o vestido desceu até os quadris. Seus gestos eram movidos pelo cálculo e o desejo. Para Orlando, não havia dúvida, a natureza da provação – finalmente - começava a se revelar.
Orlando: Estou vivendo um momento crucial da minha vida, um período de estágio para entrar em uma grande empresa, por isso não te procurei.

Diana: Já acabou o estágio?

Orlando: Quase.

Diana: Então, por que me procurou?

Orlando: Preciso de você.

Diana: Há quanto tempo está me usando?
Orlando: Este é apenas um momento, depois, tudo será melhor para nós dois. Agora, só preciso que me diga sim ou não. Vai me ajudar?

Diana: O que ganho com isso?

(no próximo capítulo: um plano sinistro se inicia)

MALDITOS


Prólogo


Qual é o prêmio dessa luta feroz chamada vida? A felicidade. Quem não quer ser feliz, mesmo que isso seja uma batalha sangrenta? Mas existem aqueles que querem mais.

Astrólogo: Maestro! Fiz e refiz os cálculos, as estrelas não estarão alinhadas...

Ele prefere ser chamado de “maestro”. Somente seus exímios músicos imaginam o sentido da composição, a ópera reconciliadora com o paraíso.

Astrólogo: Talvez seja melhor adiar a cerimônia?

Sua voz é lenta e grave. O raciocínio rápido como uma serpente. Ele veio de um lugar distante. Conhece muitas pessoas, e cada uma o chama por um nome diferente.

Maestro: A cerimônia deve ser realizada, talvez nos ensine um ritmo novo.


Capítulo I
O ambicioso

Orlando abre outro chiclete, faltam poucos dias para o ritual de sua consagração, a cerimônia. Inesperadamente, sente uma estranha e confortável sensação de fuga. Ele retira outra goma, pensa em ligar para o fabricante do adesivo antifumo, pois não está funcionando como devia. Olha para o relógio, ainda tem alguns minutos antes da reunião.
No elevador, voltou a pensar sobre a verdadeira natureza da cerimônia. É um teste de resistência? Qual o propósito da abstenção do fumo, do álcool, do sexo? Ou é um teste de vontade? Força ou potência?
A porta do elevador se abre para sala onde seus clientes o aguardam. A secretária o guia até o grupo. Seria melhor não ter prestado atenção à malícia de seus olhos. Impossível. O teste. A prova de resistência. Entrou na sala, deixando a secretária com a sensação de ter sido ignorada, mas que tipo de homem a ignoraria? Como urubus ao redor da carniça, seus clientes avançam em sua direção.

Empreiteiro: Espero que comprove a confiança depositada no senhor...
Orlando ouvia e pensava: “Ele fala mais alto, grita, gesticula como um boi lutando contra o abate final. É o mais burro”.

Empresário: Esta é maior obra dessa cidade... O prefeito precisa de um aval para assinar a licitação... Não é possível que uma comunidade de pescadores atrapalhe tanto!

“Agora falou a raposa. Ele emposta a voz. Por quê? Talvez seja enrustido. Talvez eu deva chamá-lo rapouso”.

Arquiteto: O projeto urbanístico está pronto, podemos começar amanhã.
“Por fim, o cordeiro. Chego a ter pena deles, porque eu sou uma serpente: devoro o boi, pico a raposa e enveneno o cordeiro”.

Orlando: Vocês não souberam lidar com esse ambientalista. Ele se transformou em uma figura midiática. Já deu entrevistas para jornais, rádio, tvs. A pior conseqüência disso foi ter chamado atenção para o nosso projeto. Desde o início concordamos que agiríamos em silêncio, nas sombras. Para finalizar, aparece essa acusação de suborno aos funcionários do Ibama.

Empreiteiro: Ainda não tem nada comprovado. A mídia só está fazendo barulho!

Orlando: Com a sua voz gravada ao telefone.

Empreiteiro: Não tire onda com a minha cara! Fale como homem, e não como uma bichinha engomada.

Se há algo que tira Orlando do sério é ser chamado de “bicha” ou qualquer variante. Até brigar, já brigou. Mas agora vivia seu período de provação. Autocontrole e firmeza.

Orlando: Com todo o respeito, o senhor agiu sem pensar. E não negue que aquela não é a sua voz. Ao menos que queira duvidar da competência dos técnicos da Unicamp?

Empresário: Talvez seja melhor adiarmos a construção, deixar a coisa esfriar...

Empreiteiro: Você está delirando! Venha cá... Vamos conversar um momento a sós.
Os dois sócios se retiram para o banheiro. Orlando olha para a direita, o arquiteto para esquerda, ambos fingem desinteresse, enquanto do reservado escapam algumas palavras, notas de uma composição óbvia para ouvidos atentos. O empreiteiro é Tim Maia: “é minha última grande chance, vamos pressionar”. O empresário é João Gilberto: “Não podemos perder o controle da situação”.
Voltaram à sala visivelmente em desentendimento. O empreiteiro suava, abria os botões da blusa até saltar uma massa de gordura sobre o cinto. O empresário, sem nenhuma mancha de suor, aliás, muito magro, tomou a palavra.

Empresário: Eu e meu sócio chegamos a um impasse. Diante de todos os acontecimentos, da considerável soma injetada pela instituição a qual o senhor representa, acho prudente esperar a poeira baixar.

Orlando: Por quê?
Empreiteiro: Se empurrarmos o empreendimento, quais são as garantias de que não procurarão outra construtora?

Orlando: Nenhuma. Particularmente, os senhores estão agindo como amadores, sentimentais. Amadorismo e sentimentalismo são características que não combinam nesse tipo de empreendimento.

Empresário: O senhor está dizendo que devemos começar as obras? Com pescadores acampados na área, gente armada, grupo de ambientalistas, jornalistas... Você está louco!

Orlando: Esse ambientalista se transformou numa pedra em seus sapatos, porque conquistou a opinião pública.

Empresário: Olhe esta foto, no principal jornal da cidade, é assim que a população o vê...

Arquiteto: O rosto, o cabelo, a barba... A reportagem o compara a Tiradentes!

Orlando: E se revelarmos seu outro lado, o negativo?
Empreiteiro: O que o senhor está dizendo, exatamente?

Orlando: Vamos aguardar os próximos dias: mantenham a calma, sem atos desesperados, vamos dar andamento às questões de ordem jurídica, porque aqui a maré está a nosso favor. Boa tarde.
(continua)