quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Malditos - Cap. XVI

A roda da fortuna

Enquanto Diana e Parafuso curtiam um embalo romântico, dois altos membros da Ordem se reuniam em uma cobertura. A reunião foi marcada em caráter extraordinário, sem muito tempo para os detalhes. O secretário particular rebolou para cuidar de tudo: a limpeza dos cômodos, a comida, a bebida, as garotas.

Secretário: Senador, finalmente consegui falar com o Esfinge. Em uma hora estará aqui...

A pauta da reunião: os desdobramentos relacionados ao acidente do ambientalista. O Senador ainda não compreende como um assunto local pode, de uma hora para outra, interferir tanto no maior projeto da Ordem. Para ele, é incompreensível o fato de um inspetor da polícia federal incomodá-los como uma mosca varejeira. Somente uma pessoa poderia esclarecê-lo: Alexander C. Shelley, o sogro de Orlando.

Shelley: Como estão as coisas no senado?
Senador: Pegando fogo! É como se andássemos descalços em um covil. Em cada sorriso, um punhal.

O Senador pediu duas doses de uísque ao secretário. Após servi-los, o serviçal se dirigiu à cozinha, resmungando consigo mesmo.
Senador: Como estão as coisas na cidade?
Shelley: Mais complicadas do que no senado!

Enquanto ouvia o relato dos últimos acontecimentos, o Senador foi um compêndio de gestos contraditórios. À morte do ambientalista, riu de canto de boca; à menção da investigação do inspetor, secou a bebida e bateu nervosamente o copo sobre a mesa.

Senador: Nós o deixamos ir longe demais... Não acha?
Shelley: Os tempos são outros, mestre... Vivemos em uma democracia...

O Senador o silenciou com um olhar severo. Depois se levantou, lançou algumas pedras de gelo no copo recém abastecido.

Senador: E você ainda casa sua filha com um...
Shelley: Não despreze o potencial de Orlando...
Senador: Como desprezar? Eu mesmo não assinei petição para sua admissão na Ordem? Eu mesmo não serei uma das testemunhas em sua cerimônia de consagração?
Shelley: São novos tempos...
Senador: Entendo bem os “novos tempos” e, sobretudo, a “democracia”. O que não entendo é como um negócio tão importante para Ordem, relativamente simples, ganhe tamanha dimensão. Seja sincero, esse investigador sabe algo sobre a mina de urânio?
Shelley: Se soubesse, já saberíamos!
Senador: Então...
Shelley: O homem é um obsessivo... Há anos vem nos investigando... Mas existe algo que o senhor ignora. Ele pertence à Ordem Iluminista. Se estivéssemos no século XV, talvez fosse o grande inquisidor.
Senador: Estamos no século XXI.
Shelley: Por isso precisamos de um guerreiro racional e místico... E não encontramos ninguém melhor do que Orlando.

O diálogo terminou em um silêncio interrogativo, quebrado pela entrada do serviçal.

Secretário: O prefeito acaba de chegar.

O Senador e Shelley levantaram-se imediatamente, se entreolhando curiosos e apreensivos.

Para monopolizar a mina de urânio, a Ordem precisa – legalmente – comprar o terreno onde a jazida se encontra. Seus altos membros devem agir rápido, antes dos técnicos do Ministério das Minas e Energia. Por isso acionaram um braço menor, a construtora Marinhos & Santos, encarregada de executar o projeto de construção de um complexo hoteleiro na vila Atlântida. Desse modo, enquanto ricos entediados praticam ioga e esportes radicais, seus técnicos estão lá, quietinhos, retirando urânio, bombardeando o urânio de nêutrons, negociando com os países carentes de energia nuclear.

Porém, para dar o primeiro passo, é preciso convencer as várias famílias de pescadores que moram na vila. O ambientalista, ignorando a mina de urânio, considerou o projeto uma exploração da terra, além de injusto com seus moradores, por isso resolveu defendê-los. Foi assim que entrou e morreu nessa história.

Rei morto, rei posto. Daí a necessidade de contar com o prefeito como aliado.

Senador: Como é esse prefeito?
Shelley: Politicamente correto.

Quando o prefeito surgiu, o Senador cravou seus olhos de águia sobre ele. Aparentava uns trinta anos, magro, cabelo bem cortado com alguns fios grisalhos. Shelley, após as saudações, foi direto ao assunto.

Shelley: O prazo que o senhor nos deu já expirou. Já se passaram cinco meses desde o acidente... Uma secretaria não pode ficar tanto tempo administrada interinamente... Enfim, irá aceitar ou não a nossa indicação?

Com uma voz educada e firme, o gestor se justificou:

Prefeito: Os senhores hão de convir que a situação mudou bastante. Não sei se estão a par de alguns detalhes sobre o caso, mas poucas horas antes do acidente, a vítima foi ameaçada de morte... Pelo seu genro!

Mais uma vez o silêncio se impôs. Ninguém na sala imaginava por que Orlando agira assim, porém, todos concordavam que fora uma atitude estúpida. Restou ao sogro a responsabilidade de explicar o inexplicável.

Shelley: A perícia comprovou que o acidente ocorreu devido ao rompimento da barra de direção. Além disso, a autópsia revelou que a vítima estava drogada.

O prefeito ponderou a situação. Sua intuição, no entanto, lhe dizia que havia mais, caso contrário, sua presença não seria tão importante. Embora ambicioso, não era um homem vaidoso. E nós sabemos que os vaidosos são os mais fáceis de serem manipulados.

Prefeito: Algumas críticas do falecido tinham fundamento, preciso considerá-las. Por exemplo, o município, ou pelo menos seu representante máximo, tem o direito ter acesso aos estudos geológicos dos seus técnicos.
Senador: Nós temos cara de mafiosos para o senhor?

A pergunta não só foi despropositada, como fora dita em tom imperativo. Era apenas um truque da velha raposa. Seu método consistia em dizer alguma frase ameaçadora, em tom grave e de forma inesperada, para testar psicologicamente o adversário.

Prefeito: Não estou aqui para acusações.... Porém... Não posso fechar um acordo de olhos vendados.

O Senador e o Shelley trocaram um olhar cúmplice. Em determinado momento da elaboração do projeto Nova Gênese, consideraram essa situação. Se não fosse pela audácia do ambientalista, seria desnecessário um acordo com o prefeito. Senador pensava: “Até morto o maldito hippie sujo atrapalha”.

Shelley: Por isso marcamos esta reunião: para acertamos detalhes, esclarecer dúvidas, enfim, selar definitivamente nossa aliança.

Mais uma vez o mordomo surgiu para anunciar dois aliados importantes: o Empresário e o Empreiteiro, os proprietários da construtora.

Reunidos em torno da mesa, os sócios discutiram a condução do projeto, analisaram planilhas de custos, divergiram nos números, encheram copos e mais copos de uísque, embora o prefeito tenha preferido água. Animado, Shelley propôs ligar imediatamente para o geólogo que pretendiam por no gabinete, mas o prefeito, com seu jeito suave, desviou a atenção para outra analisada nas planilhas.

Empreiteiro: Com todo respeito, mas o seu genro é um moleque estúpido!
Empresário: Não trato mais nenhum assunto com ele, aliás, sugiro seu desligamento do projeto.

Orlando devia satisfações ao grupo, principalmente ao Senador. Contudo, foi o último a comparecer. O Empreiteiro pretendia “humilhá-lo”. O Empresário não sabia “como lidar com ele sem entrar em atrito com o Shelley”. Por fim, quando apareceu na sala, sua aparência desleixada deixou todos perplexos. O Senador pensou: “Ele está acabado!”.

Sogro: Orlando... O que aconteceu?
Orlando: Não tenho tido muito tempo para um sono adequado.
Empreiteiro: Você é um incompetente... Um irresponsável!

Orlando olhou com raiva o interlocutor, não tratou de disfarçá-la.

Orlando: Qualquer associação entre a morte do ambientalista e a sua construtora será uma mera hipótese sem dados concretos para comprovação.

O Empreiteiro estava exaltado, batia o punho sobre a mesa, mordia as mãos, gritava:

Empreiteiro: Você apontou uma arma, tem testemunhas... Arrgh!

Embora tenha suas reservas em relação à personalidade de Orlando, principalmente devido às suas origens na classe média, o Senador gostou de sua reação diante do touro enfurecido.

Shelley: Orlando, você deverá se afastar do projeto. Além de ter cumprido sua função, neutralizar o ambientalista...
Empreiteiro: “Neutralizar?!?”... Porra, ele matou o cara!
Shelley: ... há outros assuntos importantes que exigem sua total dedicação.

O sogro se referia à proximidade da realização da cerimônia.

Orlando: Entendo. Tenho apenas uma última declaração: o inspetor Benedito tem um informante dentro do nosso grupo.
Senador: O quê?
Empreiteiro: Não confio em nada que sai da sua boca!
Senador: Qual o fundamento da suspeita?
Orlando: Quando me interrogou, o inspetor fez algumas perguntas que somente alguém com acesso a detalhes do projeto faria.

A convicção de Orlando encheu o ambiente de tensão. O prefeito começou a estalar os dedos e bater os pés. O empreiteiro esbravejava sem ninguém lhe dar atenção. O empresário riscava um nome com as unhas sobre a mesa, há algum tempo desconfiava. O Senador lançou a mão sobre a testa: “E mais essa! Bando de idiotas!”.

Como um sopro refrescante de ar, o mordomo anunciou: “O sr. Esfinge acaba de chegar”. Em visível mudança de humor, o Senador levantou as mãos para o alto.

Senador: Senhores, creio que merecemos um pouco de distração.

Quando se tratava do Senador, Esfinge sempre escolhia as garotas mais jovens e animadas. Suas reuniões eram dignas de figurar no Satyricon.

Senador: As minhas ninfetinhas queridas... Mas só vai ganhar pirulito quem for obediente.

Enquanto os convidados se divertiam, o sogro levou o genro para outro cômodo. Além da preparação para a consagração exigir a abstenção sexual, o patriarca – até mesmo por causa de uma preocupação paternal – queria algumas explicações.

Sogro: Por que ameaçou um homem cuja morte tramou tão meticulosamente?

Orlando voltou a explicar que o fim do ambientalista não estava em seus planos, mas não era isso que o sogro queria ouvir.

Sogro: Quero o endereço e o telefone dela... Como é mesmo o nome?... Diana.

O genro passou todos os dados, embora soubesse que já os tinha.

Sogro: Sua aparência está horrível. Tire algumas semanas de folga... E lembre-se: a menina precisa ser preparada.
Orlando: Creio que a governanta que pôs em minha casa está cuidando disso.

Nunca Orlando havia sido tão ríspido. Após anos, encontrar sua mãe louca em um hospício o abalou profundamente.

Sogro: Por que não a deixou entrar no carro com o ambientalista?
Orlando: Quando a conhecer, entenderá.

Voltaram para a sala principal. O Senador começava a narrar suas divertidas histórias.

Senador: Estávamos em Brasília... Eu e mais cinco senadores. Discutíamos se aprovaríamos ou não um projeto que propunha férias e décimo terceiro para as putas... Rárárárá... Já pensou Esfinge?.. Aqueles safados corruptos acharam o projeto uma imoralidade. Até o lelé-da-cuca foi contra.
Ninfeta: E o senhor?
Senador: Minha querida, sabe o que fiz? Tirei o pau para fora, bati uma punheta e, com a própria porra, escrevi: aprovado!... Ora, sou contra a exploração do trabalho infantil.

Todos caíram em uma gargalhada uníssona. Até Orlando. A bem da verdade, o prefeito riu amarelo. No fundo, sentiu-se constrangido, inclusive pensou em partir após a chegada de Esfinge e suas meninas, mas não podia, por isso puxou uma garota e resolveu fingir.

Duas horas depois dos convidados partirem, a sós com Shelley, o Senador confidenciou sua opinião.

Senador: Espero que a única coisa que esse prefeito esconda seja a rola!
Shelley: Quando o senhor lhe oferecer a vaga no Congresso, ele cederá... Mas uma coisa me preocupa...
Senador: O comportamento do seu genro?
Shelley: Confio em Orlando... Sei que está escondendo algo, mas confio nele...
Senador: O que o preocupa então? Ou quem.
Shelley: Elias!
Senador: O meu sobrinho-neto?!?
Shelley: Ele realizou um ritual de reanimação sem a nossa consulta. Está se tornando rebelde.

(a seguir: Elias, o franco-atirador).

5 comentários:

  1. a todos os seguidores do blog
    devido as imprevisibilidades da vida cotidiana e sua obrigações, os capítulos têm demorado. agradeço a todos que estão aqui, ao meu lado. nada temam, ainda reservo uma última noite emocionante, a melhor de todas.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Diana entrou em parafuso (ou foi o contrário?)
    Orlando nem consegue dormir...
    na festinha dos canalhas a trilha sonora talvez fosse:
    "A tua piscina está cheia de ratos, tuas idéias não correspondem aos fatos..."

    que venha o franco atirador!


    tá muito bom.

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  4. O Próximo capítulo sai antes do natal?

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